A gente sempre acha uma saída

By Eduardo Guimarães:
 
Se eu fosse essa entidade sem rosto, sem religião, sem ideologia, sem caráter, sem partido, sem inteligência, sem responsabilidade que chamam de povo, ficaria muito ofendido. Ninguém respeita o povo.
O povo é burro.
O povo não sabe votar.
O povo é imoral.
O povo é desonesto.
O povo não gosta de trabalhar.
O povo só pensa em Carnaval.
O povo só pensa em futebol.
O povo só pensa mulher pelada.
O povo é porco.
O povo é atrasado.
O povo só sabe fazer filhos.
O povo só gosta de porcaria.
O povo é irresponsável.
O povo é ingênuo.
O povo se ilude.
O povo tem preconceito.
O povo não enxerga.
Coitado do povo. Mentem e ele acredita. Pisoteiam-no e ele aceita. Insultam-no e ele concorda. Roubam-no e ele não vê. Educam-no e ele não aprende.
Com um povo tão ruim, tão ingênuo, tão corrompido, porém, será que este país já não deveria ter afundado?
Desde que nascemos somos ensinados a não gostar de nós mesmos. Os exemplos de como somos inferiores são despejados sobre nós o tempo inteiro há tanto tempo que temos do brasileiro conceito muito pior do que qualquer outro povo tem.
Quem vê o Brasil de fora, exalta.
Admiram nossa comida.
Nossa música.
Nossas mulheres.
Nossa afetuosidade.
Nossa pujança.
Nossas indústrias
Nossas cidades.
Nosso futebol.
Nossas praias.
Nossas montanhas.
Nossas planícies
Nossa fé.
Recusamo-nos a nos ver como um só povo. Nenhum de nós confia no coletivo. Tememos as decisões do povo. Ele é sempre incapaz, previsível, manipulável.
Talvez a resposta a esse misterioso mau conceito que fazemos de nós esteja no tamanho e na diversidade do Brasil. Há vários países dentro de um só. Diferenças abissais nos separam de Norte a Sul, de leste a Oeste.
O povo do Sudeste não entende o do Nordeste que não entende o do Sul que, por sua vez, tampouco entende o do Norte. E vice e versa.
Ao mesmo tempo, quando escolhemos os governos do país geralmente votamos igual de Norte a Sul, de Leste a Oeste, com escassas exceções. Abraçamos as mesmas crenças religiosas em várias e distintas classes sociais e regiões. Gostamos dos mesmos esportes e das mesmas músicas.
São poucos os que se sentem melhor fora do Brasil do que estando nele. E nem esses do topo da pirâmide, quando alardeiam seu apreço por culturas estrangeiras, falam sério, pois, do contrário, não voltariam sempre para cá, sobretudo para contar como foi bom ter ido até lá.
Um dia, o povo acabará se gostando. Quando este país progredir até onde pode, quando estiver civilizado, orgulhar-nos-emos de nós mesmos como fazem os outros povos.
Precisamos, porém, de motivos para gostar de nós. E esses motivos têm aparecido mais, de uns anos para cá. Os que gostam mais do exterior do que daqui dizem que não há tais motivos, mas, no fundo, todos sabem que há.
O Brasil é rico.
Industrializado.
Está vencendo uma crise que faz o mundo se ajoelhar.
E nos trata bem. Em nenhuma outra parte nos tratam tão bem, pois, apesar de este povo ser tão desprezado, ainda é e sempre será o nosso povo. Sejamos mais generosos com ele, pois.
Dêem vosso voto de confiança a este povo, que ele saberá o que fazer quando chegar a hora.

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