Archive for the Violência Urbana Category

Síria – O silêncio do justos 2

Posted in Fome, Intervenção Social, Política & Políticos, Sociedade, Violência Urbana on setembro 28, 2016 by projetomuquecababys

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Sem que se ouça qualquer contra-argumento de comoção da comunidade internacional através dos muitos caminhos protetivos dos direitos de cidadãos em qualquer lugar do mundo e, entre esses muitos está a vidadas crianças de Aleppo. Portanto,  a falta de consenso entre países e organizações para a paz mundial na busca de “rotas de fuga” da circunscrição qual crianças, principalmente, são alvos fáceis como  nas muitas imagens da violência crianca_guerra_siria_aleppoda guerra urbana travada no solo Sírio  numa clara condescendência dos justos para tal escalabro da condição humana nos provoca e convoca por mudanças nessa realidade cruel de mundo marcado por atitudes xenofóbicas que  adentra a sala de lares a cada dia menos sensíveis por conta da insensibilidade daqueles com o poder de negociar um cessar fogo definitivo para o conflito. Que pergunta você gostaria de fazer para homens e entidades com capacidade para negociar um cessar fogo que acabe com o  genocídio de crianças, adolescentes e adultos no solo sírio?

O silêncio dos justos

Posted in Cidadania, Intervenção Social, Política & Políticos, Violência Urbana on janeiro 7, 2016 by projetomuquecababys

Projeto Muqueca Babys Blog

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

A frase de Martin Luther King: “O silêncio dos justos causa mais barulho que o tumulto dos violentos”, nos remete a luta dos afro-americanos pelos seus direitos civis, diferentemente, ao grito calado na garganta do povo afrodescendente do Brasil que, desde já recebe o recado para o futuro de uma geração de jovens negros, principalmente, a partir da projeção de estudo estatístico – Unicef/UERJ – da morte de 33 mil jovens de 2006 até 2012 por conta da violência urbana, campanha_juventude_negra-300x225sem que se ouça qualquer contra-argumento de comoção pública na busca de “rotas de fuga” da circunscrição qual são alvos fáceis de dados de vidas humanas na mira da violência numa clara condescendência dos justos para tal escalabro da condição humana. Qual opção se enquadra ao seu ponto de vista como causa principal para a projeção de um futuro tão sombrio para a infância…

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BLACK IS BEAUTIFUL – A importância da cor da pele

Posted in Cidadania, Cinema, Educação, Política & Políticos, Sociedade, Violência Urbana with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 28, 2015 by projetomuquecababys

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Luis Carlos "Rapper" Archanjo

Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Os grandes jornais da mídia nacional e internacional perdendo espaço para a notícia comentada e compartilhada por internautas preocupados em efetivar posicionamento a favor ou contra, curtidas por simpatizantes interligados por interesses afins em debates interativos socializando conteúdos de toda natureza; a promoção de mobilizações da militância via redes sociais como exemplos de uso da acessibilidade como instrumento a favor dos sem mídia diz por si só que é possível convergir atenções, pontos de vista diletantes, considerações mais embasadas de abordagens em pressupostos com o respaldo de estatuto de cientificidade capaz de promover dois temas bastante controversos do nosso tempo que ainda não provocaram a devida mobilização interativa: conflitos raciais e intolerância religiosa. Nesse sentido, os afro-americanos afirmam mais uma vez a vocação em ser modelo ou espelho para aqueles da diáspora africana ao eleger o seu primeiro presidente negro, cuja campanha pautou-se no uso do poder infocomunicacional da internet e da web 2.01 como fator decisivo para adentrar aos lares americanos de todas as cores. Segundo a Unesco, a defesa da educação digital deve ser parte da formação de qualquer cidadão, em qualquer nação, no sentido de fomentar o direito à informação e a liberdade de expressão como instrumentos de construção e sustentação democrática, e pela qual indivíduos e organizações estão sendo confrontados com a necessidade de empregar um conjunto de habilidades e competências requeridas para usar diferentes tipos de informação, serviços e produtos, bem como interagir socialmente através dos meios eletrônicos.

Contribuição atualizada da emblemática mobilização afro-americana do passado, quando na busca pelos direitos civis de ir e vir em solo americano, as recentes manifestações dos negros indo a ruas com gritos de ordem contrários aos casos de uso excessivo ou letal contra cidadãos desta etnia, principalmente, diz o quanto a luta pelo direito a outro tratamento diferentemente do vigor que acaba em morte para jovens ou adultos, por agentes do Estado quando no cumprimento da lei, se faz também pela motivação maior de ser parte de contexto vitimizado por tal discrepância no tratamento de situações sociais conflituosas. Lembrada pelos sete de artigos e de ter sofrido apenas 27 emendas desde a sua promulgação em 1787, há 227 anos, a Constituição Americana fixa somente princípios gerais, enquanto a brasileira, de 1988, com apenas 22 anos, é programática, e, por isso já foi emendada mais de 60 vezes. O que nos difere dos americanos é o tempo histórico de poucas conquista sociais, a não ser a luta para consolidar direitos civis e políticos. Promulgada na quarta geração de direitos (civis, políticos, sociais e difusos, como ambientais, do consumidor e as políticas afirmativas ou de quotas), a nossa Carta Magna exige uma melhor disciplina sobre uma série de direitos, especialmente os direitos humanos. Nesse sentido, as especificidades de interesses difusos se fazendo presente no exercício democrático de questionar e propor juridicamente mudanças no texto de lei seja porque ela contém desigualdades, ou não cumpre a contento a salvaguarda de direitos inalienáveis de pessoas e grupos marginalizados, cabe na busca de mudanças na legislação brasileira de modo a atender a falta de representatividade no legislativo e no judiciário. No Brasil, desde a Constituição Cidadã de 1988, a iniciativa popular está proclamada no Art. 61, parágrafo 2°, e é o instrumento pelo qual faculta, a qualquer cidadão, a feitura de lei, seja ela complementar, seja ela ordinária. Ou seja, o artigo diz respeito à representação política da população, por meio de entidades representativas da vontade de fração do eleitorado e, onde consta que a iniciativa popular como instrumento de democracia participativa pode desencadear ações em nome de um novo direito ao possibilitar o povo interferir diretamente na criação legislativa. Portanto, fazer desse instrumento jurídico poderosíssimo um caminho para corrigir as desigualdades perpetradas por interesses historicamente estabelecidos pela ideia reinante de uma minoria, tuteladores, que se autoproclama representantes das reivindicações de restante da população, de mundo pautado por transformações na sociedade e no Estado, traz a tona problema relacionado à concepção tradicional de democracia representativa e a tendência dos partidos políticos em monopolizar a ação política, favorecendo a formação de oligarquias a partir de comitês dirigentes altamente burocratizados. Some-se a isso a influência do poder econômico e de toda sorte de grupos particulares sobre os partidos políticos e estes aparecerão mais como bloqueadores do que como canalizadores da vontade popular. Resumindo: possuímos ferramentas jurídicas de mudanças, todavia falta utilizá-las com mais frequência, para o nosso próprio bem, o bem coletivo, imprescindíveis na construção se uma sociedade livre, justa e solidária; erradicação da pobreza, da marginalização de pessoas e grupos; redução das desigualdades sociais e regionais; e, por fim, sair do âmbito de uma minoria e promover o bem de todos, sem distinções de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.  “Especialmente a partir do século XIX, enveredamos pelo caminho dos partidos políticos. E chegamos a um ponto em que o partido não é mais um representante do povo, ele é um substituto do povo, e aquilo que se propunha como democracia degenerou em partidocracia.” (Bobbio, 1986, p. 61 apud RIBEIRO, 2007, p. 7).

A xenofobia para com o êxodo humanitário de africanos subsaarianos ou não, e/ou no próprio limite fronteiriço, assim como no período de formação dos Estados Europeus a partir do século XVI, com políticas anti-imigratória, ou a ação intimidatória por grupos racistas ancorados no legislativo e no judiciário como lugar para a ação de partidos da extrema-direita com práticas do nacionalismo chauvinista, o racismo, e o ódio aos imigrantes, sobretudo “extra-europeus” – e os ciganos (o povo mais velho da Europa), a islamofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia, a euro fobia; os ataques terroristas fora ou dentro do solo europeu, entre outras informações que são exemplos de posicionamentos ideológicos movidos por sentimentos de amor aos iguais ou desprezo ao outro por causa da cor da pele e religião transformando cidadãos de qualquer parte do mundo em alvos fáceis de barbáries com maior ou menor crueldade. Causa e efeito de características que diferem e determinam genética, cultural e economicamente seres humanos e se faz fator relevante no constructo social na importância da cor da pele, o lugar social é exemplo de contra argumento do pensamento bourdieano de como parâmetros de maior ou menor valia para a condição humana em processos de locomoção, mobilidade social, exercício plena da cidadania, entre outras tantas variáveis de impedimentos para certos grupos humanos tem raiz nos desdobramentos do histórico de subjugação e escravidão do homem pelo homem quando na vitória sobre o inimigo, e a sua re-significação até o nosso tempo de distinções em inferioridade ou superioridade de classificação racial determinada pela exterioridade fenotípica e pelo acesso a educação. Num segundo plano a opção religiosa e depois as minorias sem aproximações com valores estabelecidos em acordo com os modismos de tempo imagético a inferir posicionamentos e/ou julgamentos no tabuleiro de xadrez das relações sociais e raciais, que por uma ordem natural entrecruza às controvérsias a questão religiosa como parte indissociável dos conflitos porquanto da estreita relação entre intolerância, educação, raça e religião. O direito a educação, a liberdade de expressão, entre as muitas maneiras do efetivo exercício pleno da cidadania passa pelo direito à informação.

Fazer uso da prática e da teoria apreendida no estudo das ciências sociais como caminho para o reconhecimento como sujeito com as competências e habilidades necessárias para a ação educadora é, também, aplicar tal conhecimento no sentido freireano de educar como ato político movido por convicções próprias da história pessoal em justificar direcionar, explicitar, contextualizar e questionar as bases de sustentação de posicionamento de neutralidade ou pró ao instituído nas relações raciais e os reflexos dessas polêmicas desdobrando-se em exercícios infantis da ignorância adulta no extra e no intramuros das salas de aula do nosso país. A partir de considerações em pesquisa bibliográfica referenciada por academicismo que lhe confira credibilidade e, ao mesmo tempo fazer uso de conteúdos com mediação interativa possibilitada pelas linguagens audiovisuais de mundo em que as dinâmicas por imagens e sons vêm substituição à estática de argumentos pautados somente na subjetividade de discursos saídos de observações ou imersões em contexto sem autorias próprias, verdadeiramente identificadas com o recorte da realidade objeto de estudo, espero que o texto cumpra a contento a intencionalidade pretendida. Exemplo de aplicabilidade desse tipo de narrativa é a  interessante experiência  documental sobre maquiagem para contextualizar a percepção de brancos e negros nas relações raciais rotineiras comuns à vida urbana. Realizada por programa da TV francesa, no ano de 2007, ‘Dans la peau d’un Noir” (Sob a pele de um negro), qual há a transformação de uma família negra em “branca” e outra branca em “negra”, com o objetivo em acompanhar o dia a dia de situações concretas de como se dá os processos de maior ou menor valia, subentendido em atitudes, posicionamentos, tratamentos vivenciado por voluntários transformados por uma segunda pele durante uma semana. A troca de identidade étnica para atividades como buscar um apartamento para alugar, ida a shoppings, lojas de artigos caros, comprar carro etc. Mais do que mostrar a incrível capacidade de modificação estética pela maquiagem, o experimento vislumbra mostrar o quanto a aparência (meramente superficial) pode influenciar nas interações sociais.

Questionar o legado positivista que ainda hoje contamina o olhar acadêmico para com outros saberes significa entender como mais significativo a articulação entre teoria e realidade na construção de narrativa sobre fenômenos humanos qual o observado se entenda como objeto do conhecimento, tanto quanto o observador compreenda as especificidades em ser da mesma natureza do objeto de estudo. Pensar concepções de entendimento do “outro”, que não somente aquelas fruto da capacidade de abstração para inferir sobre a diversidade humana produzindo verdades sem o contra argumento de experiências e vivências in natura com estruturação semântica e enunciação representativa da cosmovisão do diferente para a apreciação de iguais entre si, pode ser comparado a atitude etnocêntrica de  subvalorizar qualquer outro conhecimento que questiona a ordem de saber referenciado pelo diploma, que caracteriza os espaços de poder sem a diversidade indagada pela professora e pesquisadora Fúlvia Rosenberg ao falar da ausência afro-brasileira nos cursos de graduação e pós-graduação. Tais observações é exemplo do quanto urge a maior presença de intelectuais orgânicos com embasamento teórico-conceitual de programa educacional com capacidade de dar vez e voz via academicismo de cânones com poder de persuasão em contradizer verdades questionáveis, tanto quanto identificar métodos e práticas que propiciem às gerações trabalhadoras rotas de fuga da subalternidade intelectual tutelatória, com fins práticos, do sujeito cognoscente e questões relativas à individualidade e de vontade própria quando se tem o labirinto de complexidade do comportamento humano como objeto de análise.

Questionar o posto sobre as questões étnico-raciais a partir do entendimento da ideologia por trás do até então socializado e a reinante desinformação a respeito do refutado pelas ciências humanas do século XXI, traduz o quanto o processo de comunicação está inscrito numa teia de relações sociais onde se almeja sempre que ela seja instrumental para a reprodução social, fazendo com determinado saber possa ser ideologizado, reforçando-se assim a dominação de classe, gênero, etnia ou geração. Assumir o princípio freireano de educação transformadora significa buscar a franqueza de argumentos possíveis de convocar, provocar, contra argumentar e produzir conhecimento pedagógico para abordagens capazes de promover a reeducação de atitudes, valores, o diálogo, a negociação e interação entre diferentes culturas, e o tema não nos remeta a palavras como hipocrisia e covardia. Tais considerações interrogam-nos: Nós, brasileiros, somos ou não um povo racista?

O planejamento curricular como lócus de permanências para impedimentos à autonomia docente e a inviabilizar a aplicação do aprendido na formação da competência praxiológica do pedagogo em sua totalidade nos leva a interrogação de até quando o pensamento dos “herdeiros bourdieano”2 forjará corpos e mentes com conteúdos questionáveis de mudanças na insensibilidade para com a infância negra, principalmente. Assim sendo, pensar-se na formação ou na educação continuada de profissionais de educação segundo o acima exposto é propor alterações no quadro de palavras comuns ao repertório de esquivas do absenteísmo, na adjetivação explicitada por Arroyo (2011), na reinante visão acrítica, despolitizada com o tema em questão ou na postura míope quando na concretude do exercício docente e a existência ou não de preconceito ou discriminação entre os pares no nível básico de ensino público, primeiramente.

TICs – Informação versus conhecimento

Desde os anos 90, com a ascensão das ciências da vida, com destaque para a Genética, os estudos de mapeamento do Genoma Humano ocupa destaque nos principais debates científicos até os dias atuais, colocando novas questões que, para além das especificidades disciplinares, exigem o enfrentamento de tema tabu que é a questão racial, entre outros temas com implicações transversais às diferentes disciplinas. Assim como há o antagonismo racial preto versus branco por conta do legado teórico de cientificidade e do discurso descritivo da pseudocientificidade dos séculos passados ao estabelecer os pressupostos para definir raças superiores e inferiores, há, também, a questão racial motivada por fatores étnicos e místicos no antagonismo racial de negros versus negros. Por exemplo, em algumas regiões da África Subsaariana os casos de albinismo, consequente de ausência de pigmento na pele, nos cabelos e olhos devido a uma deficiência na produção de melanina pelo organismo, tem chamado a atenção do mundo para a “caçada” quais os portadores dessa doença congênita vêm sofrendo em países do leste africano, principalmente na Tanzânia. Em algumas regiões do interior são tidos como pessoas demoníacas e perigosas. Nestes países, alguns acreditam que poções feitas com o uso de partes do corpo dos albinos trariam sorte e riqueza, tanto quanto o uso em bruxarias é outra prática recorrente. Apesar das dificuldades em prender e condenar os culpados, os ativistas persistem na luta para combater o preconceito, a ignorância e na promoção dos direitos dos albinos para que não sejam dizimados por força do pensamento místico provocado pela cor da pele dos portadores da doença. O clássico “Hotel Ruanda” é a representação máxima de africanos dizimando africanos, em números catastróficos, em guerras étnicas. Os genocídios provocados em nome da “limpeza étnica” dizem o quanto a crise identitária configurada do legado do pós-colonialista, após décadas sob o jugo europeu e ações maniqueístas de privilegiar etnias, de tanto tempo alijado da liberdade e dignidade essenciais à construção identitária autônoma, o sujeito localizado na transição do regime colonial para o status de independente do neocolonialismo e fronteiras artificiais se veria em ferrenha luta com seus iguais, e sob a influência de novos impérios econômicos como instrumento de joguete político internacional, em um mundo polarizado entre as forças capitalistas e socialistas. Hoje,  fome, guerras civis provoca o massacre entre cristão e muçulmanos, epidemias, questões ambientais concomitante a exploração egoísta da riqueza do subsolo africano como petróleo, ouro, diamante e o coltan. Na centralidade do genocídio ruandense, o último mineral foi chamado de ouro negro nos anos 90. Mistura de dois minérios, a columbita e a tantalita, do primeiro é extraído o nióbio e do segundo o tântalo. Ambos com características únicas para a produção de materiais utilizados em dispositivos tecnológicos de vanguarda e portáteis, tais como telemóveis, laptops, GPS, televisores de plasma, satélites, entre outros.

Informação compartilhada nas mídias sociais e divulgada nos jornais de grande circulação mundo afora, a polêmica em torno do projeto artístico do norueguês-sudanês Mohamed Ali Fadlabi e o sueco Lars Cuzner, residentes em Oslo, na Noruega. A proposta dos artistas é discutir o racismo e seus desdobramentos até o século XXI a partir de uma vila que, há exatos cem anos, expôs um grupo de oitenta senegaleses. Criada em 1914, na Noruega, chamada de Kongolandsbyen (Vila do Congo), fez parte da programação para comemorar o centenário da Constituição (1814) do país. É oportuno, também, fazer o registro da reprodução de uma tribo congolesa no pavilhão da Bélgica, durante a feira Mundial ou Expo 58, em Bruxelas, em 1958. No mesmo molde dos zoológicos convencionais para espécies animais, os zoos humanos do século XIX e XX travestidos de “exposições étnicas” trataram seres humanas como se fossem atrações, e desse modo legitimar a presença europeia em suas colônias. Nos Estados Unidos fica lembrança da história de enjaulamento do pigmeu Mbuti congolês Oto Benga, e sua polêmica exibição no Zoológico do Bronx, Nova York, em 1906, como parte da mostra projetada para demostrar os conceitos da evolução humana e racismo científico ou racialismo.

Ao reviver essas páginas não viradas da história da humanidade, o trabalho dos artistas suscita, principalmente, aos profissionais de educação menos neutralidade no tocante aos conflitos infanto-juvenis em torno das relações raciais, já que no papel do educador está a mediação/transmissão de conhecimentos, não só do recorte de relevância dos historiadores, do histórico da humanidade às gerações vindouras. Nesse sentido, as ferramentas informacionais oferecido pelas mídias educativas pode ser um grande fator de aproximação de gerações, construção de contextos imagéticos de modo a criar  pontes necessárias a conceituar o pensamento abstrato de identidade, raça ou etnia, racismo, preconceitos. Ou seja, atualmente as pessoas aprendem e tomam conhecimento do que está acontecendo no mundo através das mídias oferecidas pelas tecnologias da comunicação e da informação – TIC´s, que transforma a acessibilidade na busca de informações em um problema para educadores despreparados em transformar informação em conteúdos significativos com o uso imagens e sons antenados com formas de se estar em mundo de gerações de nativos digitais a espera de mediação docente possuidora de academicismo pedagógico com domínio das ferramentas multimídias síncronas ou assíncronas; fazer uso da plurilinearidade e da multimodalidade comuns ao hipertexto como elemento potencializador do ato de ler e escrever, compor estratégias e recursos didáticos-pedagógicos de maneira a acomodar  avanços, recuos, transversalidade e multidisciplinaridade; para ilustrar conteúdos teóricos-conceituais de difícil entendimento. A incorporação das novas tecnologias no dia dia da sala de aula de escola do século XIX e professores do século XX é imprescindível para educação em sincronia com os modos de produção, exposição ou transmissão de conteúdos comuns às gerações sintonizados com a  acessibilidade  como meio de conceber educação no século em curso. Portanto, a escola precisa se descolonizar de suas origens para representar a história e a potencialidade da cultura e  populações brasileira, conforme afirmação do professor Cesar Nunes da Unicamp em debate sobre a Formação Humana Integral  na Contemporaneidade, durante o 2° Seminário Internacional de Educação Integral em Jornada Ampliada,em Brasília (DF), em 2013.

A polêmica performance artística com atores negros em um “zoológico humano” foi cancelada em Londres depois de protestos realizados na noite de abertura. No evento chamado Exhibit B, os atores apareciam em jaulas, presos a correntes ou portando aparatos para

exhibit-bdomesticar a “fera africana”. Ou seja, um quadro atualizado das “repugnantes atitudes” referentes à raça negra durante a era colonial. Assim, planejar e conceber e avaliar conteúdos educativos interativos facilitadores na construção, desconstrução e reconstrução de conceitos abstratos de difícil entendimento, de exemplificação de conhecimentos da história da humanidade produzidos pelas ciências sociais é um caminho a ser perseguido pelos profissionais de educação ainda não familiarizados com a aplicabilidade de procedimentos didático-pedagógicos sintonizados com paradigmas formativos possibilitados pelas tecnologias infocomunicacionais complementando habilidades e competências quando necessário for: confrontar, convocar, provocar, refutar, socializar, contextualizar e debater no plano das ideias, pressupostos, hipóteses, capazes de contribuir com aproximações, até que sejam mínimos os pontos discordantes que inviabilizam historicamente a promoção de relações raciais sadias, por exemplo. Ao dimensionar o papel e o alcance ideológico das mídias fica a pergunta de quanto a realidade virtual, e a capacidade de nos levar a um espaço digital paralelo, pode ser usada para fins de estímulo a uma paz universal ou instigar o instinto selvagem latente em cada ser humano ao fomentar criações imagéticas cinematográficas de jogos interativos inferindo a vida real em confronto virtual consumado em barbáries para com pseudo-inimigos representativos de grupos na “escuridão econômica” alardeada por Mandela, entre outros pensadores de renome preocupados com futuro da economia globalizada e processos comunicativos entre povos e nações, no livro “No final do século – Os principais pensadores do nosso tempo”.

Um caminho para o docente contribuir em nome de crenças pessoais na contramão do discurso dominante ou de produzir debates que não levem às tergiversações de sempre seria este se apropriar de conteúdos divulgados no campo da sociobiologia3 e das pesquisas biológicas da genética molecular, por exemplo, a produzir dados capazes de refutar a, ainda, persistente crença de que as raças humanas possuem diferenças biológicas substanciais o profissional de educação sai da zona de conforto que a não discussão do tema racial provoca na ação docente insensível aos estigmas sofridos pelos alunos negros em vivências e experiências diárias com os estereótipos afetando o processo de construção de identidade, autoestima. Ao pesquisar a sequenciação do genoma humano, a biologia molecular permite um exame detalhado da correlação entre a variação genômica humana, a ancestralidade biogeográfica4 e a aparência física das pessoas. Os estudos em questão corroboram em confirmar “o quanto as teorias racialistas, com maior ou menor cientificidade, foram usadas para justificar discriminação, exploração e atrocidades ao privilegiar culturas, línguas, crenças e diferenciar grupos estética e economicamente” (Azevedo, 1991 apud PERNA; BIRCHAL, 2005/2006).

PEDAGOGIA EAD – vivências e experiências com educação ONLINE

A formação em Pedagogia e sua condição de ciência da educação que se apropria de conhecimentos das várias ciências para auxiliá-la em fundamentar seu estatuto de cientificidade promoveu-me o discernimento que o educador pode conformá-la promotora de processos de formação de ser humano que melhor atenda as especificações laborais, sociais e emocionais de determinado tempo, constituindo sujeitos e gerações com os conhecimentos técnico-científicos, políticos, filosóficos essenciais ou com relevância de percurso formativo expressivo de interesses ocultos ou explícitos de transmissão do pensamento dominante ou torna-la instrumento de transformação social para grupos subjugados. Consoante aos conhecimentos adquiridos no curso de formação em pedagogia, acenar com referências relevantes para o trato dessa temática tão importante na formação teórica e prática docente e, assim, chamar a atenção para uma maior suscetibilidade para com os casos que afetam o emocional da criança negra, e o constrangimento com estereótipos não seja visto como coisa corriqueira do cotidiano escolar e não necessite de outro tratamento que não seja o medo de abordagem mais consciente de existência de preconceito racial na sala de aula. Portanto, a pertinência do tema racial na grade curricular, em acordo com as Diretrizes Curriculares nacionais – DCN´s, os Parâmetros Curriculares nacionais – PCN´s, a Lei 10.639/03 entre os documentos oficiais que orientam e procuram dar visibilidade para os mecanismos de permanência de certos grupos na base da pirâmide social. Portanto, no quadro de desigualdades sociais instituídas em acordo com regras de relações étnico-raciais assimétricas de nossa formação pluriétnica significa enfoques da existência e o consequente debate na formação e na prática docente, de suas causas e efeitos no desempenho educacional de crianças negras em face de naturalização do racismo: “Munanga (2005), Gomes (2005), Cavalleiro (2001), Guimarães (1999 e 2008)” (SILVA; FALCÃO; MOURA, 2005).

Entre essas ciências está a psicologia para explicar motivações, compulsões e fracassos, entre os muitos fatores da história pessoal a determinar a maior ou menor valia do ser humano. Pensar na condição humana segundo maior ou menor valoração consoante a cor da pele significa um olhar aprofundado de como foi estabelecido tal distinção. Segundo fontes bibliográficas, para entender como ainda no terceiro milênio o privilégio da cor se sustenta é preciso debruçar sobre os pressupostos de homem, de ser humano e de sociedade em que tal distinção valorativa da cor da pele fundou-se. A história do racismo através dos séculos pode ser conferida no documentário Racismo – Uma história, da BBC de Londres. Descobertas recentes na área da neurobiologia, que segundo o sociólogo Antônio Damásio “não só pode nos ajudar na compreensão da condição humana, mas que, ao fazê-lo, pode nos ajudar a compreender os conflitos sociais e contribuir para sua diminuição” (Damásio, 1998 apud PENA; BIRCHAL. 2005/2006, p. 18), e da genética humana confirmaram não haver geneticamente raça humana distinguível. Portanto, extraído o pretexto pseudocientífico para permanência do status quo dominante, todo e qualquer embate da questão étnico-racial limita-se ao terreno ideológico. As considerações pertinentes à importância da cor da pele como condição meritocrática para as benesses de qualidade de vida sem os imprevistos quais sofrem aqueles classificados fora de padrão de racionalidade que cria as condições desfavoráveis ou obstruem processos de mobilidade e justiça social para certos grupos, impedindo-os do exercício pleno das várias dimensões da vida humana em sociedade.  A inspiração para dar vida ao aqui exposto tem ponto de partida na postagem levada às redes sociais em Junho/2009, quando postei sinopse sobre a curta metragem “O xadrez das cores”, de Marcos Schiavon, com patrocínio da Petrobras, onde faço menção, an passant, do livro Preto e Branco: a importância da cor da pele, do jornalista e ex-professor Marco Frenette, porém na ocasião da publicação no Projeto Muqueca Babys Blog não vislumbrava a necessidade de fazer uso da narrativa fílmica em abordar como privilégios ou condições de vida desfavoráveis distinguem-se pela cor da pele e, dessa maneira chamar a atenção do leitor e, ao mesmo tempo, convidá-lo a sair da superficialidade insensível para um maior aprofundamento do debate sobre os percalços e reflexos na vida escolar da criança-aluno (a) marcado (a) por estigmas sociais imputados historicamente à raça negra, inclusive levando-as a não aceitação dos traços negroides, por exemplo.

A desqualificação ou despersonalização midiática como mais um recurso de construção e desconstrução estética, geralmente para atender interesses de uma minoria, com poder econômico, pode veicular a ideologia do projeto de sociedade que mais atenda a objetivos para manutenção do status quo posto como modelo a ser seguido, onde quem não corresponde às especificidades é circunscritos em aspectos hediondos, desumanizados ou demonizados. Porém, por um processo natural tais adjetivações acabam por provocar a visibilidade de grupos sociais insurgentes para com a ordem estabelecida quando estes na busca de igualdade de tratamento se utilizam de recursos comuns àqueles dos tantos registros de mudanças na dinâmica social provocada pela falta de justiça social e equanimidade fruto da ganância aliada a atitude etnocêntrica como causas principais de permanência da desigualdade entre os homens em conflitos raciais.

A centralidade da cor da pele como objeto de conhecimento é um campo de estudo bastante controverso, e, por se tratar de fatos da condição humana trás em si a incompletude do homem como no princípio freireano que questiona a coisificação do homem pelo homem. A mídia quando deixa de cumprir o seu papel de informar em nome de uma educação planetária para a paz e construtora de identidade sem qualquer tipo de distinção, baseada na liberdade, no diálogo nascido de relações dialéticas consciência-mundo alimenta o que o casal de psicólogos afro-americanos Kenneth Brancroft Clark e Mamie Clark5, conhecidos pelos estudos, com bonecas, sobre as atitudes das crianças relativamente à raça, denominaram auto-ódio. Assim como Piaget, as teorias de foram em grande parte baseadas em estudos e observações de seus filhos ao lado de sua esposa. O casal Clark, a partir do interesse da esposa pela psicologia do desenvolvimento e trabalho em creche, e para onde levou os filhos após conhecer o trabalho dos psicólogos Ruth e Gene Horowitz sobre a auto identificação em crianças pequenas, teve como consequente desta experiência  a inspiração da esposa para a sua tese. Da parceria do casal na condução das pesquisas com os filhos, na creche, Mamie concluiu sua dissertação, com o título “Mudanças nas habilidades mentais primárias com a idade”. O grande feito do primeiro negro e negra a obter o doutoramento em psicologia naquele país foi a participação do marido no caso Brown versus Board of Education of Topeka, traduzido como Negros versus Conselho de Educação, quando pela primeira vez num tribunal americano estudos de ciência social, nomeadamente o relatório de 1950 sobre discriminação racial escrito por Clark, foi admitido como forte prova num julgamento onde este testemunhou como perito em casos de desagregação social em várias escolas.

Vídeos correlatos: CNN – Teste das bonecas e as relações raciais

Da percepção de que a avaliação do Estado não estava correta ao analisar os problemas educacionais de crianças afro-americanas, rotulando-as como possuidoras de retardo mental, Clark buscou provar através de experimentos com bonecas de que essas crianças tinham QI acima dessa classificação, pois este entendia a segregação social como causa para a guerra de gangue, pobreza e baixo desempenho acadêmico das minorias. Este foi o pontapé inicial para o trabalho de sua vida e deixa para os nossos dias contribuições significativas da psicologia do desenvolvimento. Segundo  teorias do psicólogo a partir de estudos baseados em que a segregação das crianças negras influenciava no seu psicológico, concluiu que o convívio com tais dilemas provocava uma espécie de auto-ódio porquanto da desqualificação estética, da demonização, da desumanização induzindo-as a não se olharem como bonitas, bondosas ou inteligentes. Para o sociólogo, o racismo ocular, como mostrar pessoas brancas adjetivadas ao contrário das pessoas negras e o consequente sucesso pessoal na vida adulta induz aos negros tornarem-se adultos com baixa estima e recusar o pertencimento à etnia negra. Ou seja, o racismo ocular e auditivo com que as crianças negras crescem, diuturnamente, no mundo todo, faz com que adoeçam psicologicamente e, desse adoecimento psicológico que habita o corpo negro temos a “negação” de si mesmo e de seus iguais. Dos trabalhos publicados destacam-se Prejudice your Child (1955), Dark Ghetto (1965), A Possible Reality (1972), Pathos of Power (1974).

PALAVRAS-CHAVE: arma contra o racismo?

A leitura do livro também me levou a rememorar momentos idos da adolescência quando o agora escrito transcreve um pouco das vivências e experiências como discente e educador social alheio à questão racial nas relações da sala de aula, porém consciente das características em que se dá a nossa divisão social de classes. Estar atento em contextos marcados por atitudes e procedimentos que denotam haver uma linha divisória porquanto da cor da pele a definir econômica, estética e socialmente posturas relacionais que resultam em risos e lágrimas para crianças e adolescentes é fazer da percepção de mundo fonte inesgotável de compreensão sociológica sem as tergiversações comuns a pontos de vistas inflamados de defensores politizados por discursos acadêmicos entre iguais, ou mesmo por dissidentes defensores da causa negra representando-os na luta emblemática por reconhecimento segundo a simbologia abolicionista daqueles na luta contra a opressão qual sofrem os descendentes de africanos trazidos ao novo mundo e o transmitido nos livros sobre a trajetória e o papel social do negro desde o Brasil Colônia até os dias atuais.

Período marcado pela passagem da infância em escola pública em bairro periférico, Muqueca, para a adolescência em escola particular situada em rua representativa do poder local de cidade do interior do Rio de Janeiro. Portanto, espaço de convivência com parcela de filhos da elite e, também, lugar para os primeiros aprendizados de que uma proposta educativa integradora perpassa por n fatores de objetivos, missão, filosofia do planejamento do grupo gestor. No meu caso específico, fica presença de uma Diretora representando a tradição familiar para a condução do percurso educativo de parte de herdeiros dos postos chave em continuidades de valores que caracterizam a relação social e cultural herdada do ciclo do café. O convívio pacífico com as diferenças produzidas pela separação natural de adolescentes saídos de mundos distintos, porquanto da condição econômica de bolsista pelo “Sistema S”, da cor da pele, de ser filho de operário da indústria, do lugar social, criou a ambiência necessária de relação pedagógica sem interferência de variáveis características do conflito de classes produzindo desatenção, desmotivação, desequilíbrio emocional ao longo dos anos dessa etapa da educação básica. Na contramão do que ora questiono para o dia a dia de crianças e adolescentes estigmatizadas pelas estereotipias do racismo sofrido diuturnamente, recebi a aquiescência de Diretora sensível e fiel a princípios humanizadores e o consequente trabalho de reforço da autoestima de um bolsista para o enfrentamento às adversidades postas às crianças-adolescentes negros em argumentos como: peito erguido, olhos nos olhos, atitude cortês, usar a melhor roupa, regras de etiqueta, como educação complementar para representar a escola em proposta tecnicista de empregabilidade para menor – aprendiz. Como, também, até tal estágio da adolescência ficaram as coisas da fé e palavras-chave de lições diárias de mãe, que mesmo sem diplomas da educação formal conseguia transmitir a sapiência de aprendizado das regras da vida necessários ao convívio harmonioso com o lado bom ou o ruim do mundo, sem, entretanto, deixar de acreditar nas coisas do coração mesmo nos momentos mais difíceis.

A segunda etapa da educação básica foi momento de colocar em prática as lições da vida familiar e o apreendido da visão transcendental da Diretora na primeira etapa. Período de colocar em prática, por exemplo, estratégias de superação frente ao ruído de questões étnico-raciais interferindo em objetivos pessoais e a necessidade de não perder o foco e superar a insensibilidade humana para com um adolescente negro, de 15 anos, em ambiente corporativo de multinacional com presença de estrangeiros e entre estes aquele que me despertou para as diferenças da cor da pele e de quanto o assimilado de lições dos níveis  de educação anteriores contribuiu em respostas para o futuro do agora Pedagogo e o propósito em abordar na primeira pessoa tema tão relevante e, ao mesmo tempo, fora das pautas de deliberações mais profundas de causas e efeitos do valor da cor da pele no emocional de crianças e adolescentes afro-brasileiros em face do tema ainda ser tratado como tabu na educação como um todo.

Notícias dos Estados Unidos sobre a mobilização da população negra em protestos contra a morte de jovens afro-americanos; o genocídio da juventude negra brasileira; as leis anti-imigratórias na Europa; as questões de gênero da mulher negra mundo afora são alguns dos temas em que a descendência africana é colocada em cheque quanto à possibilidade do exercício da verdadeira cidadania; ou seja, o direito de ir e vir sem constrangimento, igualdade de condições nas várias dimensões da vida social, afetiva e laboral entre os muitos exemplos de impedimentos a uma qualidade de vida que não seja aquela abaixo da média quais passam aqueles fora do padrão referenciado pela mídia. Portanto, podem ser alocados nos casos emblemáticos de menos valia qual sofre o cidadão cuja epiderme não apresenta o padrão midiático simbólico de poder econômico, cultural e estético, mesmo com as devidas exceções. Logicamente que mudanças na lógica excludente reinante significam a busca de diálogo baseado em trocas relacionais sem qualquer tipo de distinção, ensejada na liberdade, dialogicidade e conscientização de teoria do conhecimento nascida de relações dialéticas consciência-mundo. Como reverter o quadro de invisibilidade de discurso orgânico com academicismo representativo de falas de grupos subjugados capazes de embate no plano das ideias, onde acontecem as verdadeiras mudanças? Assim sendo, mudanças nos espaços de poder apontam naturalmente ao legado de Paulo Freire, dado o seu caráter de relevante importância na atualidade, como referência para processos humanizadores de ser humano na sua incompletude e diz o quanto o diálogo é condição obrigatória da gênese do processo educativo; ou seja, “através de uma relação dialógica o ser humano se descobre e toma consciência de sua objetividade diante da vida” (AZEVEDO, 2010, p. 38).

Para Azevedo, a gênese ideológica de Paulo Freire, isto é, a percepção das fontes filosóficas que o grande educador Brasileiro bebeu, como por exemplo: Tristão de Atayde, Jaques Maritan e o neotomismo, o personalismo de Mounier, o existencialismo de Kierkegaard, a existência concreta de Marcel, a incompletude do ser humano de Heidegger, a relação dialógica de Karl Jasper, o neomarxismo de Eric Fromm e a educação como política, de Gramsci.  Os conceitos de Freire representam a busca de uma educação que visa a construção do conhecimento a partir da liberdade e da própria pessoa, provoca e convoca a todos para o caráter emergencial do diálogo das raças em nome de outro amanhã para as gerações vindouras.  Para Freire a educação é o caminho para libertar o homem oprimido dessa realidade desumanizante, desta coisificação, dessa situação de objetos, de menos para ser mais, isto é, adquirir a própria dignidade humana perdida, realizar a sua vocação histórica tornou-se o objeto principal e o ideal de luta (Jorge, 1999, p. 24 apud AZEVEDO, 2010, p. 38).palavras-chave2

Com certeza esse histórico de experiência e vivências com a educação não formal, informal e formal como educador social em projetos sociais e a licenciatura em Pedagogia orientou consciente e/ou inconscientemente a busca de conceitos e teorias de abordagens que determinaram modos de proceder buscando a aplicabilidade do conhecimento amealhado de informações das várias ciências que a auxilia. Assim como a compilação de dados de observações empíricas de pesquisadores debruçados sobre as questões étnico-raciais, contribuiu para responder muitas perguntas ao longo dos períodos de formação. Pensar na referência bibliográfica para perguntas já respondidas e na educação continuada para responder antigas e novas interrogações traduz de quanto o auxílio das ciências sociais em práxis fundada no estudo,  compreensão e aplicação teórico-conceitual  pode contribuir no entendimento e resolução de conflitos para interações sociais marcadas por fatores identitários como cor, raça, gênero, principalmente quando estas se dão em ambientes onde existe a falta de sensibilidade dissidente para atitudes adultocêntricas no tratamento com a criança-aluno negro.

Ao longo de anos e períodos de aprendizagens cumulativas na busca de respostas para muitas indagações a licenciatura em Pedagogia foi lugar de encontro com pressupostos teórico-conceituais imprescindíveis ao entendimento de fatos observáveis ou da complexidade biológica do ser humano produzido pelas ciências humanas para responder indagações sobre se estar no mundo e, nesse sentido a vasta leitura de material bibliográfico produziu respostas, tanto quanto perguntas novas como a transcrita de texto sobre dificuldades didático-pedagógicas no ensino de ciências sociais: A paixão pela busca de conhecimento não seria a melhor herança que a universidade poderia oferecer aos seus alunos?  A menção dessa interrogação se faz relevante porque representa o meu desejo de escrever na primeira pessoa sobre os motivos de buscar o embasamento do curso para responder as muitas perguntas em torno da educação de crianças e adolescentes egressos das classes operárias e as causas e feitos do fracasso escolar instalado na relação pedagógica destes. O encontro prazeroso com disciplinas que foram reveladoras na consecução de intencionalidade formativa para compreender, contextualizar, explicitar, exemplificar, aproximar teoria e prática em argumentação capaz de traduzir  objetivos em contribuir direta ou indiretamente em outras dinâmicas dessa relação por si só dizem de quanto o binômio cognição/emoção é fator preponderante para uma melhor qualidade na educação dessas crianças-adolescentes alunos da educação básica pública do país.

Como disciplina que instrumentaliza o aluno universitário para o entendimento de um projeto de pesquisa, a disciplina Pesquisa e Prática em Educação – PPE proporciona a acessibilidade às ferramentas para a análise da realidade concreta dos sujeitos da educação, por exemplo, e, assim, possibilita-nos vê-los segundo parâmetros do legado de observações fornecido pela consulta bibliográfica de pesquisadores consagrados como ponto de partida na compreensão de possíveis pormenores identificados na coleta de dados quando da ação para refutar, confirmar ou conformar novos conhecimentos sobre o objeto de conhecimento. Ter como princípio norteador dimensões humanas negativas ou positivas advindas de conhecimentos, já existentes, no histórico da humanidade significa estar no mundo constantemente em autoquestionamento para uma análise com as isenções necessárias a um exame imparcial da realidade recortada como objeto de estudo. O autor do texto em questão faz considerações sobre a Universidade proporcionar o desenvolvimento, pelos alunos, de ciências sociais, de um conjunto de habilidades intelectuais: aperfeiçoar a capacidade de leitura, de análise e síntese, de abstração, de imaginação e criatividade sociológica, de trabalhar em equipe, de compreender as razões dos outros, de reflexão e de disciplina intelectual etc. O autor, também, considera como efeitos quase inevitáveis desse processo de desenvolvimento de habilidades intelectuais, emocionais e sociais: a consciência crítica, o desenvolvimento da cidadania, visão humanística, a postura ética, o desenvolvimento da personalidade. Portanto, a pedagogia construtivista propõe que a educação consiste em fazer criadores, inventores, inovadores, não conformistas. O conhecimento é produzido pelo próprio sujeito que vai desenvolvendo a capacidade de compreender e reelaborar as ideias existentes. É na ação prática sobre o objeto do conhecimento que o indivíduo aprende a verdade.

RACIALISMO: O racismo científico

Buscar no livro de Frenette o seu entendimento de que o mundo é constituído por diferentes raças merece uma reflexão do trabalho de pesquisa sobre o histórico da humanidade a partir da gênese do racionalismo no século XVI, com a formação dos Estados Nacionais Europeus coaduna com o acima exposto de que cada um pode ser sujeito do seu conhecimento e, desse modo contribuir para a sua verdade e a verdade de outros. Para ele, é o momento em que começam a enfatizar as diferenças linguísticas e históricas internas até a expansão para terras ultramares das conquistas europeias. Uma corrente de historiadores entende as teorias iluministas como ponto de partida em que as doutrinas racialistas beberam na fonte e, assim, criaram as bases para as hipóteses raciais e construção do preconceito para com outras raças consideradas inferiores. Entre os enunciados iluministas da base fundante de correntes de pensadores que estabeleceram as teorias científicas que marcaram o século XVIII como o momento que definiu a diferença entre os homens como justificativa para as atrocidades e extermínio para com aqueles com características fenotípicas fora do padrão estético europeu, estabelecido como parâmetro classificatório homens e subespécies de homens. Entre os pensadores iluministas que consubstanciaram as inverdades refutadas pela biologia genética sobre o determinismo biológico está a adoção do pensamento de Voltaire, pelos racialistas, ao optarem pela tese poligenista como explicativa da submissão humana, 34 anos antes de Lineu dividir a humanidade em raças superiores e inferiores ao reforçar e legitimar o estatuto de cientificidade das considerações raciais do pensador iluminista e, assim, fornecer um modelo científico para a sua reificação. Modelo que pregava haver diferentes origens para o ser humano, dividindo-os em inferiores que não progridem, não desenvolvem talentos, nem sociedades; e superiores que consideram que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são consequências diretas de suas características físicas ou biológicas.

A ideologia iluminista, interpretada segundo correntes na direção para concretização das promessas de igualdade com a efetivação dos direitos naturais e universais de todos  e na outra mão da via dupla do iluminismo o posicionamento daqueles que rejeitavam os princípios iluministas e propiciou o surgimento das teorias racialistas, divididas entre “poligenistas”6 e monogenistas pra explicar o surgimento da raça humana. Até então o racialismo não era ainda racismo, pois as diferenças biológicas ainda não eram consideradas definitivas para a evolução humana, pois o objetivo dos iluministas era encontrar um sistema de valores universais, que pudesse ser estabelecido para todas as raças. Foi na França do século XVIII que surgiram as traduções de pensamento que influenciaram a definição classificatória das raças em inferiores e superiores.

Com bases fundadas na argumentação em defesa da melhor explicação para a divergência quanto à origem do homem, os desdobramentos na busca de explicação plausível é onde pesquisadores da corrente evolucionista buscavam entender a história humana através de critérios físicos e biológicos, assim como o meio e a raça. A sua teoria baseava-se em dois modelos de pensamento: o lógico, do civilizado; e o pré-lógico, do primitivo. No entanto, mesmos os mais ferrenhos é capaz de admitir erros em sua ciência interpretativa tal como quando o observador é enganado pelo estilo do cabelo do sujeito, por exemplo, realizando então um procedimento inteiramente subjetivo, influenciado pelos preconceitos do interpretador, conhecimento prévio sobre o examinado etc. Carlos Lineu (1707-1776) buscou formular uma teoria científica sobre a divisão da humanidade em raças. Considerando o “pai da taxonomia genética”7, sugeria a divisão da humanidade em quatro raças, como um sistema de classificação humana. Para Silva (2006), o racionalismo, com os iluministas, definia raça como um grupo humano cujos membros possuíam características físicas comuns. Tal teoria voltou-se para a crença de que a raça não era apenas definida física, mas moralmente, bem como as diferenças psíquicas acarretavam diferenças mentais hereditárias. Assim a distinção do mundo em raças correspondia à divisão do mundo em culturas e o comportamento do indivíduo era definido pelo grupo social ao qual ele pertencia. . Entre as tradições que influenciaram a definição de raça como um sistema de classificação estava a Historia Natural, que daria origem no século XIX, a Antropologia Física, ciência responsável pelas teorias racialistas.

Criada, ainda no final do século XVIII, a frenologia influenciou muitos pensadores sociais, entre os quais o criador do Positivismo, Auguste Comte. Hoje, porém, desacreditada, pretendia as características psicológicas de cada raça com ba nas medidas e no tamanho do cérebro. Forneceu os fundamentos que influenciaram as teorias eugênicas sobre raças superiores nos séculos XIX e XX, assim como a medicina e a criminologia, que tem na obra do italiano Cesare Lombroso (1835-1909), por exemplo, sua maior influência. Lombroso, criador da Antropologia Criminal, defendia que a criminalidade era uma questão biológica e hereditária, e poderia ser identificada pela utilização da frenologia. Sucessora da frenologia, a craniologia, foi influente durante a era vitoriana para justificar o racismo, a colonização e a dominação de raças inferiores, tais como os “irlandeses” e tribos negras da África.  Classificados de acordo com o grau de prognatismo (um avanço relativo anterior do maxilar em relação à mandíbula) ou ortognatismo. Tipos raciais com tais características eram ditos prognáticos, tal como os macacos e chipanzés, de modo que eles eram considerados como sendo mais próximos a estes animais do que aos demais europeus com características físicas do anglo-saxão como parâmetro. O antropólogo britânico John Beddoe, por volta de 1885, desenvolveu o “Índice de Negrescência”, baseado no qual ele estudou os irlandeses como um tipo de raça branca africanóide ao comparar a similaridade crânia irlandesa ao do homem pré-histórico cro-magnon.

A antropometria institui a documentação das características de criminosos para propósito de identificação, a qual está em uso até os nossos dias. Entretanto, elas não foram usadas para a avaliação psicológica do criminoso. Na década de 30 a antropologia criminal do italiano Lombroso caracteriza maxilares, tamanho das mãos, detalhes faciais e muitos juízes ordenavam a realização de análises antropométricas lombrosinas dos réus em processos criminais, que posteriormente eram usados pela acusação em julgamentos. Outro parente da frenologia foi a tipologia inventada no século XX pelo psiquiatra alemão Ernest Kretschmer. Seu esquema para a classificação da personalidade era baseado no tipo físico e como eles eram correlacionados com características psicológicas básicas. Um uso infame bem conhecido da antropometria foi feito pelos antropólogos e médicos nazistas, os quais, no Ministério do Interior e no Burô para o Esclarecimento da Política Populacional e Bem-Estar Racial, propuseram a do crânio. “Nesse período a certificação craniométrica oficial tornou-se obrigatória por lei e era realizada por centenas de institutos e especialistas na Alemanha” (SEBBATINI, 1977).

Em meados do século XIX, o conceito de raça migrou das ciências naturais para as ciências sociais e humanas, Com a publicação de Charles Darwin, em 1859, o desenvolvimento da teoria evolucionista a partir daí o racionalismo ganha novas perspectivas como chamado “darwinismo social8 que lastreado nas novas teorias da evolução das espécies e na seleção natural armava não só a diferença de raça humana, mas a superioridade de umas sobre as outras. Período em que seres humanos eram e expostos à visita pública em zoológicos humanos. No final do século XX, estudos biológicos cada vez mais aderiram à hipótese de que não existem raças na espécie humana. Geneticistas de todo o mundo têm derrubado a crença de que se podem definir geneticamente as diferenças raciais na humanidade. Nas ciências sociais demoram mais para contestar esse conceito. Ou seja, rala existe como um discurso social e não como realidade psicológica. Para Silva (2006), essa percepção leva ao entendimento de que raça pode ser entendida como um qualitativo de desigualdade social ou de identidade cultural. A desqualificação dos critérios biológicos para a compreensão das diferenças entre os diversos grupos humanos historicamente separados por parâmetros naturais e biológicos representam a base explicativa de superioridade e inferioridade entre nações e grupos humanos.

Ao escrever a obra Descent of Man, and Selection in Relation (A descendência do homem e a seleção em relação ao sexo), em 1871, Charles Darwin, procurou estender também aos seres humanos os mesmos princípios da seleção natural tratados em sua obra origem das espécies (1859). Contudo, pensar que o ser humano pudesse descender de um animal inferior era geralmente considerado um abuso par a visão de mundo de uma Inglaterra vitoriana (Mayr, 1988, p. 691; Bowler, 1989, p. 22 apud DEL CONTI, 2008). Com o propósito de aplicar pressupostos da teoria de deu primo ao ser humano, Francis Galton (1822-1911), em 1833, reunindo expressões gregas cunhou o termo “eugenia” ou “bem nascido” (Black, 2003, p. 56 apud DEL CONTI, 2008). A partir deste momento, eugenia passou a indicar as pretensões galtianas de desenvolver uma ciência genuína sobre a hereditariedade humana que pudesse, através de instrumentação matemática e biológica, identificar os melhores membros – como se faria com cavalos, cães, porcos ou qualquer outro animal – portadores de melhores características, e estimular a sua reprodução, bem como encontrar os que representavam características degenerativas e, da mesma forma, evitar que reproduzissem (Stepan, 1991, p. 1 apud DEL CONTI, 2008). Como ciência da hereditariedade, a eugenia no final do século XIX ainda carecia de elementos mais sólidos, visto que as próprias teorias correntes até o final do século eram totalmente especulativas (Kevles, 2002, p. 3 apud DEL CONTI, 2008).

Influenciado pelo trabalho do “primo”, Charles Darwin, em seus estudos sobre pangênese, aceita até o século XIX para explicar a hereditariedade dos caracteres – inclusive dos adquiridos -, os conhecimentos produzidos da parceria entre os primos influenciou um grupo de indivíduos conhecidos como “biometristas”, preocupados em encontrar regularidades estáticas que pudessem indicar a prevalência de certas características em um dado conjunto populacional a partir das características que os progenitores e os seus ancestrais transmitiram à prole (Cowan, 1972, p. 512 apud DEL CONTI, 2008). Porém, somente com a chegada de outras duas teorias foi que a teoria da herança galtiana ofereceu um procedimento objetivo que, pela utilização de instrumental laboral e matemático/estatístico, pudesse identificar as unidades responsáveis por determinadas características e criar procedimentos de controle reprodutivo selecionadores das características que representariam o melhoramento genético do ser humano. A primeira contribuição veio do pensamento do inglês Herbert Spencer (1820-1903), que contribuiu com as noções de existência de um processo evolutivo teleológico, no sentido de uma direção progressiva a que tudo no universo estaria submetido, e de existência de unidades fisiológicas que registrariam as modificações, transmitindo-as às próximas gerações (Homes, 2000, p. 6-7 apud DEL CONTI, 2008). E, depois o reforço do trabalho do biólogo alemão August Wieman (1834-1915), ao diferenciar as células somáticas das células germinativas, contribuiu no sentido de reservar somente aos processos biológicos a possibilidade de transmissão de características. As mudanças ocorriam no soma (corpo) e não incorporadas ao material genético não poderiam ser transmitidas à nova geração (Bowler, 1989, p. 251 apud DEL CONTI, 2008). Para Galton, a união regulamentada cientificamente, assim como a seleção do preconceito dos nossos dias, seria o aspecto da vida social através do qual se poderia estabelecer uma linha demarcatória em relação aos diferentes tipos de pessoas. Com isso, poder-se-ia não somente discriminar espaços sociais, mas também estabelecer um programa de intervenção como propósito se estabelecer quis características seriam científica e politicamente favorecidas. 

FULVIA ROSENBERG: É preciso mais negros na universidade para ampliar seu espaço social 

A professora e pesquisadora Fúlvia Rosenberg em entrevista sobre a falta de negros nas universidades, e como ações afirmativas contribuem em desvelar alunos com maior mérito acadêmico para assentar os cursos de pós-graduação, por exemplo. Ao questionar o “racismo institucional” da sociedade brasileira em entrevista concedida ao Jornal Opção, após participar de mesa-redonda no segundo Simpósio de Ciências Sociais, promovido pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, em resposta a uma questão sobre cotas e ações afirmativas cita, por exemplo, a falta de mecanismos para a permanência daqueles que conseguem terminar a escola pública e passar pelo filtro da universidade e a ausência da diversidade de suas experiências de vida e olhar de sua formação nos movimentos sociais e que é um desafio para a universidade, por conta das experiências de vida e de olhar que têm para as questões sociais e políticas. Para Fúlvia, a ação afirmativa não é sobre a cor da pele, mas, sim de uma universidade de experiência de vida que trás novidades para este espaço de poder. Diz ela: é muito fácil ser competente entre quatro paredes, sem desafios. Mas a minha competência aumenta consideravelmente se eu balanço os conhecimentos estabelecidos. Logicamente que o posicionamento da pesquisadora está atento à oposição natural para colocações que ferem a ordem natural estabelecida de tratamento acadêmico para temas polêmicos, mesmo que por caminhos com a necessária consistência acadêmica em sustentar contraposições pautadas em academicismo capaz de abordagens que possibilitam aproximações mais realísticas na observação de aspectos do fenômeno em estudo pelo que a mesma natureza do observador pode inferir se descontado o rigor científico e a isenção metodológica, diferentemente do produzido segundo fontes abstratas de referente bibliográfico ou deduções nascidas fora da concretude sobre a qual se está produzindo conhecimento.

Para Rubens Alves, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.  Ou seja, desenvolver habilidade e sensibilidade sobre o sentido das palavras e nos ensinar a ver melhor o mundo e as questões da ideologia dominante no oculto e no explícito em técnicas e procedimentos envolvidos nas situações didático-pedagógicas, filosóficas e políticas de planejamento curricular, onde se cumpre a base comum e se elege o que é relevante ou o que deve ficar fora da parte diversificada, como instrumento poderoso de constituição de realidades educacionais ao conceber, selecionar, produzir, organizar, institucionalizar, implementar, dinamizar saberes, crenças, atitudes, conhecimentos, atividades, competências e valores configurados por processos e construções constituídos na relação com o conhecimento eleito como formativo, ideologicamente organizados, orientados e, ao mesmo tempo, ferramenta de empoderamento político-social. Nesse sentido, educação é um conceito amplo que se refere ao processo de desenvolvimento omnilateral da personalidade, envolvendo a formação de qualidades humanas, físicas, morais, intelectuais, “estéticas”, tendo em vista a orientação da atividade humana na sua relação com o meio social, num determinado contexto de relações sociais.

Na disciplina de PPE, aprendi que toda pesquisa não é um fim em si mesmo ou nas considerações finais. Assim sendo, o trabalho de pesquisa, mesmo que cumprido todos os passos necessários reafirmar ou estabelecer um novo paradigma, deixa em aberto espaço para outros questionamentos e respostas não percebidos ou explícitos para estudos posteriores devido a questões técnicas que cercam a construção de um trabalho de pesquisa acadêmico, como: respeito ao número de laudas impossibilitando o desenvolvimento a contento de posicionamento sobre determinada característica do objeto do conhecimento. Quando nas primeiras correções de construção da Monografia ou Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, – “O olhar do professor sobre o aluno pode construir e determinar a sua trajetória escolar negativa ou positiva?” -, ao fazer referência sobre possível causa do fracasso escolar, a professora orientadora solicitou mais  clareza sobre o escrito do entendimento de como se dá o fracasso escolar consequente de interferências da questão racial na psique da criança negra, principalmente para meninos negros nos primeiros anos da educação básica pública. Como exemplo citei “Carta da pesquisadora afro-brasileira Eliane Cavalleiro“, endereçada ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República Brasileira, sobre a mão do Estado a fragilizar a vida emocional e psíquica da criança negra, propiciando uma educação que enseja uma violência simbólica, quando não física, contra elas no ambiente escolar. Trazer, a posteriori,  referências de responsabilidades à privá-los de uma maior dedicação aos estudos pode ser entendido pelas  lentes de Arroyo (2011), quando o autor descreve fatos do cotidiano comunitário fora do alcance do olhar professoral incapaz de superar os limites estabelecidos pela relação pedagógica a negligenciar a possibilidade de traduzir em potencialidades intelectual os recursos cognitivos engendrados por crianças e adolescentes “na luta diária  por sobrevivência, que por si só desmistificam a falta de vontade e não cabem na imagem infantilizada sobre suas vivências e experiências antecipadas em afazeres da vida adulta para mentes e vontades tão infantis fora da relação pedagógica na educação básica da escola pública”.  Certamente o livro Imagens Quebradas – Trajetórias e tempos de alunos e mestres, de Miguel Arroyo, poderá ser esclarecedora a leitura do Capítulo 2, com o subtítulo “Outro olhar sobre o educando”, entre outros subtítulos e títulos de como se dá a relação pedagógica docente versus discente nos dias atuais e os muitos relatos da atitude agressiva de aluno para com o professor.

Para Arroyo (2011), se os professores exigem que os alunos respeitem a imagem dos mestres, estes também terão de começar por rever a imagem que se fazem dos alunos educando. Como os vemos? Que sabemos de suas trajetórias humanas? Como vivem os seus tempos? Se reconhecermos que os alunos (as) não são os mesmos teremos de perguntar-nos como são, como os sentimos. As respostas a estas questões não são de cada professor (a), são dos coletivos profissionais. Dessas respostas dependerá como interpretaremos suas condutas, como equacionaremos nossa docência. A seguir algumas interrogações transcritas da obra de Arroyo (2011, p. 58) a partir de menção de material escrito em seus cadernos de anotações com depoimentos obtidos em interações diversas com grupos de professores: Um grupo constatou que recentemente que recentemente o olhar é menos escolar e mais social, até mais moral. Os nomes mais frequentes são: alunos violentos, marginais, drogados….Uma imagem que reflete uma inferioridade social e moral. Uma professora impressionada comentou: “que visão tão negativa!”. Houve consenso: esses nomes, adjetivos e classificações revelam que no imaginário escolar e docente paira uma visão bastante negativa dos alunos. Perguntei se alguém lecionava na escola privada, se a visão dos alunos era a mesma. O debate foi bem acalorado. A visão é proporcional ao grau de carência do discente, isto é, quanto mais pobres são as comunidades e as famílias, maior é a negatividade do olhar docente. A visão tão negativa que as elites têm do povo teria moldado o imaginário escolar e docente? Essa pergunta resultou bastante incomoda. De fato ninguém do coletivo pertencia às elites. Muitos (as) sabiam que eles mesmos vinham de famílias populares ou bem próximas. Aí que a pergunta resultava incomoda: como reproduzir um olhar tão negativo sobre os alunos populares estando tão próximos na sua origem e nos seus salários? Compartindo com muitos deles a condição social? Apenas reproduzimos uma visão negativa que faz parte da cultura escolar e docente? Talvez, mas as consequências podem ser desastrosas para nós e, sobretudo, para as crianças, adolescentes, jovens e adultos populares com que lidamos.

Nesse sentido Arroyo (2004, 2011) é fonte inesgotável de experiências sociais identificadas com a racionalidade contra cultural de coletivos docentes com olhares diferenciados para cultura, classe, raça, conhecimento. Ao escrever esta postagem posso fazer a complementariedade explicativa impossibilitada por normas textuais, mas que a condição do trabalho de pesquisa não ser um fim em si mesmo permite partilhar, a posteriori, supressão do texto de pensamento transcrito de leitura do livro Preto e branco, a importância da cor da pele. A contribuição de Frenette (2000), tem prefácio do cantor Lobão, que ao falar sobre a obra escreve: […] o autor golpeia uma cultura sub-réptica e velada, e chega, assim, à raiz de um racismo amornado por séculos de miscigenação através da subjugação e da violência. Esse trabalho de arqueologia emocional e psicológica é o fio condutor do livro, e evidencia, de forma dolorosa e contundente, que todos nós – de uma maneira ou de outra – fazemos parte dessa história vergonhosa. “O que vem a tona é um sentimento de que ninguém é totalmente inocente.” Na narrativa do livro, o autor relata o aprendizado da primeira infância, que chama de curso básico de racismo e o desenvolvimento da limitação mental a impedir de ver seus colegas negros além da cor de suas epidermes. Assim, ao mesmo tempo em que se tornava prisioneiro da própria mediocridade, a qual era diariamente insuflada pelos adultos que deveriam estar lhe educando para a paz e para a solidariedade. “Forçava as crianças negras a minha volta a se aprisionarem em seu mundo de incompreensão”. “Gostávamos de ter sempre um pretinho por perto para nos sentirmos melhor do que ele”.Mais de uma vez, em minha duvidosa inocência infantil fiquei contente em perceber que tinha ferido a autoestima de uma criança negra”. Inconscientemente mostrava aos adultos que estava aprendendo direito a arte da discriminação. Arte que eles dominavam à perfeição, e que se esforçavam magnificamente para passa-la a contento para suas crianças (FRENETTE, 2000, 22-23).

Assim como a citação de carta endereçada ao Excelentíssimo Presidente no corpo do texto, a menção, a posteriori, de trecho do livro de Arroyo (2011), outra possível resposta suscitada no trabalho monográfico seria a do subtítulo “Vidas Brancas” a respeito de como acontece “a devastação psicológica que leva às crianças negras ao autoquestionamento e rejeição das características negroides devido aos séculos de imposição de padrões de beleza europeu”.  Também na concepção de Frenette, a beleza, a despeito de sua relatividade, é um instrumento de comparação; um valor fundamental em qualquer cultura. A beleza confere uma inquestionável dignidade ao seu portador. Por isso, desde tempos remotos, sabe-se que toda dominação de uma raça ou etnia deve trazer, no meio de seu aparato repressivo um processo de aviltamento do subjugado que passa, necessariamente pela depreciação estética. Foi da utilidade prática dessa constatação que surgiu, a partir do período dos “grandes descobrimentos”, a necessidade de o mundo branco europeu afirmar ostensivamente a “feiura” física e moral do negro. Tornado peça fundamental de uma economia alicerçada no comércio e tráfico de escravos, foi vetada ao negro a possibilidade de ser considerado belo. Enquanto, por outro lado, os eclesiásticos afirmavam que preto não tinha alma, impedindo-o de alcançar essa coisa altamente questionável chamada “beleza interior”, por outro, a sociedade laica europeia completava o trabalho desmerecendo a cor da pele e os traços físicos dos escravos, suas manifestações culturais, religiosa e artística. Esse discurso de estereotipia aportou em nossas terras quatro décadas após nosso descobrimento; época do início da estruturação civil e econômica do Brasil. Em todo esse período colonial, essa desestruturação emocional do subjugado se fez tão necessária como a repressão física e o controle social, pois ela aliviava a consciência do dominador, na medida em que se convencia de estar oprimindo seres inferiores em cultura, inteligência, espiritualidade e em beleza. ‘Era o “belo europeu” dominando a “fera africana”’ (Ibidem, p. 59-60).

PERCEPÇÃO DA DIFERENÇA – Negros versus brancos na escola

A relação entre negros e brancos da nossa pseudodemocracia racial é o tema na coleção Percepção da Diferença. Negros e Brancos na Escola, composta dos seguintes volumes:

1 – Percepções da Diferença – Autora: Gislene Aparecida dos Santos Neste volume são discutidos aspectos teóricos gerais sobre a forma como percebemos o outro. Para além de todas as diretrizes pedagógicas, lidar com as diferenças implica uma predisposição interna para repensarmos nossos valores e possíveis preconceitos. Implica o desejo de refletir sobre a especificidade das relações entre negros e brancos e sobre as dificuldades que podem marcar essa aproximação. Por isso é importante saber como, ao longo da história da humanidade, construiu-se a ideologia de que ser diferente pode ser igual a ser inferior.

2 – Maternagem. Quando o bebê pelo colo – Autoras: Maria Aparecida Miranda e Marilza de Souza Martins Esse volume discute o conceito de maternagem e mostra a sua importância para a construção da identidade positiva do bebê e das crianças negras. Esse processo iniciado na família, continua na escola por meio da forma como a professora e educadores da educação tratam as crianças negras, oferecendo-lhes carinho e atenção.

3 – Moreninho, neguinho, pretinho. Autor: Luiz Silva – Cuti Esse volume mostra como os nomes são importantes e fundamentais no processo de construção e apropriação da identidade de cada um. Discute como as alcunhas e os xingamentos são tentativas de “desconstrução/desqualificação” do outro, e apresenta razões pelas quais os professores devem “decorar” os nomes de seus alunos.

4 – Cabelo bom. Cabelo Ruim: Autora: Rosangela Malachias Muitas vezes, no cotidiano escolar, as crianças negras são discriminadas negativamente por causa do seu cabelo. Chamamentos pejorativos como “cabeça de fuá”, “cabelo pixaim”, carapinha, são naturalmente proferidos pelos próprios educadores, que também assimilaram estereótipos relativos à beleza. Neste volume discute-se a estética negra, principalmente no que se refere ao cabelo e às formas como os professores podem descobrir e assumir a diversidade étnico-cultural das crianças brasileiras, principalmente s negras.

5Professora, não quero brincar com aquela neguinha! Autoras: Roseli Figueiredo Martins e Maria Letícia Puglisi Munhoz Esse volume trata das maneiras como os professores podem lidar com o preconceito das crianças que se isolam e se afastam das outras por causa da cor/raça.

6 – Por que riem da África? Autora: Dilma Melo Silva Muitas vezes crianças bem pequenas já demonstraram preconceito em relação a tudo que é associado à África: música, literatura, ciência, indumentária, culinária, arte…culturas. Neste volume discute-se o que pode haver de preconceituoso em rir desses conteúdos. Apresentam=se ainda elementos que permitem uma nova abordagem do tema arte e africanidades em sala de aula.

7 – Tímidos ou indisciplinados? Autor: Lúcio Oliveira Alguns professores estabelecem uma verdadeira díade no que diz respeito á forma como enxergam seus alunos negros. Ora os consideram tímidos demais, ora indisciplinados demais. Neste volume discute-se o que há por trás da suposta timidez e da pretensa indisciplina das crianças negras.

8 – Professora, existem santos negros. Histórias de identidade religiosa negra. Autora: Antônia Aparecida Quentão Neste volume se discutem aspectos do universo religioso dos africanos da diáspora mostrando a forma como a religião negra, transportada para a América, foi reconstituída de modo a estabelecer conexões entre a identidade negra de origem e a sociedade à qual esse povo deveria se adaptar. São apresentadas as formas como a população negra incorporou os padrões do catolicismo à sua cultura e como, por meio deles, construiu estratégias de resistência e de manifestação de sua religiosidade.

9 – Brincando e ouvindo histórias. Autora: Sandra Santos Este volume apresenta sugestões de atividades, brincadeiras e histórias que podem ser narradas às crianças da educação infantil e também aspectos da história da diáspora africana em território brasileiro, numa visão diferente da abordagem realizada pelos livros didáticos tradicionais. Mostra o quanto de contribuição africana existe em cada gesto da na população nacional multiétnica como exemplos de ações, pensamentos, formas de agir e de observar o mundo. Serve não só aos educadores no ambiente escolar, Mas também ao lazer doméstico, no auxílio de pais e familiares interessados em ampliar conhecimentos e tornar mais natural as reações das crianças que começam perceber a sociedade e o seu papel dentro dela.

10 – Eles têm a cara preta. Vários autores Esse exemplar apresenta práticas de ensino que foram partilhadas com aproximadamente 300 professores, gestores e agentes escolares da rede municipal de educação de São Paulo. Trata-se da Formação de Professores intitulada “Negras Imagens”. Educação, mídia e arte: alternativas à implementação da lei 10.639/03, elaborada e coordenada por pesquisadores do NEINB/USP simultânea e complementarmente ao projeto Percepções da Diferença. Negros e brancos na Escola.

DEMOCRACIA RACIAL: Racismo à brasileira?

Em concordância com as palavras de Frenette, o abordado na coleção acontecerá quando a criança deixar a proteção do interior de sua casa e de sua família, para ir se socializar em escolas em que a maioria das crianças e do corpo docente – quando não a totalidade – é branca. E, por serem brancos, além de despreparados, seus professores acabam sendo insensíveis aos problemas de ordem racial que esperam pelo (a) pretinho (a) no ambiente escolar. Esses condutores do saber veem o mundo ao seu redor a moda do sistema óptico da rã, que só capta imagens daquilo que está em movimento ostensivo diante de seu campo visual. “Para as rãs, imobilidade significa inexistência” (Ibidem, p. 62). E caso a criança vitimada resolva desabafar, ao voltar indignada e magoada das injúrias do recreio, esbarrará de novo na implacável figura do “professor rã”: sujeito estatutário, míope às matizes epidérmicas, armado de perigosos livros didáticos e, totalmente alheios aos problemas das cores. Das suas rememorações como profissional de educação, o jornalista narra fatos que agravam ainda mais o quadro da madorra moral e intelectual do professor alienado e entra no terreno minado que é o período de florescimento da sexualidade da criança corresponder ao período escolar. É justamente nesse ambiente que a criança-adolescente negra vai querer exercitar seus novos sentimentos. Ela vai perceber, então, que sua cor também é um empecilho para a vida amorosa e o primeiro beijo. Consequente da intrínseca relação beleza, cor da pele, autoestima, o autor cita, e ao mesmo tempo responde a justificativa, já mencionada, do TCC quanto aos danos psicológicos na psique da criança negra quando relata o desabafo de meninos (as) ofendidos que dariam tudo para mudar a cor da pele, assim como meninas choram histericamente ao ouvir, em tom de conciliação, a afirmação de que ela é mesmo preta, e não branca. “Tinha uma menina que adorava colocar um pano na cabeça, prendê-lo atrás das orelhas, e fazer aquele movimento característico de quem está jogando os cabelos para trás” (Ibidem, p. 63).

Por tudo isso, vê-se que o discurso de“fealdade negra”10  dentro da questão racial brasileira não é uma invenção acadêmica, fruto de um exercício intelectual estéril, mas uma realidade muito desagradável e perniciosa que dificulta o surgimento, nos negros atingidos, de um elemento fundamental para uma vida emocional sadia: amor por si próprio. Nesse sentido, fica a lição do orgulho afro-americano, nos Estados Unidos da década de 60, onde surge a nova ideia de que negro também é belo – Black is Beautiful -, contrariando os modelos propostos pelos filmes de Hollywood, começa a ser propagada pelo país através de um estilo próprio dos negros se vestirem e se pentearem e, sobretudo, no mundo das artes. Uma das ações emblemáticas desse movimento foi a transformação de garotas de rua em artistas para o Dance Theater of Harlem, por Arthur Mitchell ao fundir os passos do balé europeu ao som de tambores africanos. Jovens afro-americanos adotaram nomes de origem africana e vestiram um tipo de indumentária chamada “dashiki” ou bata africana. Tornou-se popular um estilo de cabelo chamado “afro” ou “black power”, que foi usado até por jovens brancos, encantados pela novidade exótica. De repente, o slogan mais ouvido nos EUA foi “black is beautiful”.

Todo povo elege os temas de sua história que são especialmente comprometedores e complexos e, após esta eleição, os transforma em tabus, desenvolvendo mecanismos de defesa contra indivíduos e grupos minoritários que queiram arrancar – para efeito de pesquisa e compreensão do problema, e busca de possíveis soluções – os encardidos curativos que tampam as feridas do passado. O corpo social, na ânsia de paz e tranquilidade, reorganiza e revaloriza suas experiências coletivas (e também suas esperanças) a partir de um encobertamento das realidades mais desagradáveis. É por isso que o Brasil, o último país do mundo a abolir a escravidão, ainda nega a questão racial o status de questão nacional. No plano individual essa operação psíquica de fuga é denominada pela psicanálise de “Unterdrückung”; “forçar para baixo”, “empurrar para o subsolo”. No entanto, segundo Frenette, o custo do alívio psicológico de empurrar o problema para debaixo do tapete é ter de distorcer violentamente a nossa própria percepção de realidade. Ao fazer vista grossa para o racismo, e ao formular as mirabolantes explicações pseudo-sociológicas para permanências na crueza do preconceito racial, a sociedade brasileira está apenas retardando o reconhecimento de uma verdade inquestionável: a existência de muitos milhões de brasileiros brancos que detestam os negros e que preferem um negro morto de que conviver com a presença negra fazendo parte da brancura de suas famílias.

Por trás dessas ideias, meados do século XIX (1853), o Conde francês Joseph Arthur de Gobineau, Em sua obra Essai sur linégalité de races, (Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas), publicada em quatro volumes, em 1853, considerada a “bíblia do racismo moderno”, e que deflagrou a era do chamado racialismo ou racismo científico. Ele elaborou uma teoria classificatória da humanidade, onde a raça ariana ocupava o topo da hierarquia social. Os miscigenados, por não serem puros de sangue não teriam ordenação na sua teoria, eles seriam inclassificáveis pela ambivalência. Assim sendo, não havia como criar critérios para se classificar, nomear e ordenar com cientificidade a mestiçagem.  Ministro da França no Brasil e “conselheiro” de D. Pedro II, Gobineau via o Brasil como um país sem futuro devido a grande quantidade de pretos e miscigenados. Defendia que o país precisava branquear (se livrar dos negros). Brancura perseguida como caminho para disfarçar o complexo de pertencimento aos povos do mundo novo e, portanto, classificado segundo o racialismo ou racismo científico em estágio civilizatório pré-lógico. As ideias racistas do conde francês culminaram com a eugenia e a tese nazista/facista de superioridade ariana, e influenciaram a nossa intelectualidade nacional do século XX. Da articulação entre intelectuais racistas e aliados políticos criou-se as bases que conduziram a “Política Nacional de Embranquecimento”, com a imigração europeia, japonesa e uma abolição da escravidão feita de forma a empurrar a população negra para às margens das estradas, mantendo-a em condições de extrema pobreza até que se extinguissem devido à mortalidade infantil, desnutrição, doenças, mazelas sociais e também através de sucessivas miscigenações (Fernandes, 1978ª, p. 255-256 apud TAVOLARO, 2013, p. 22).

Será que os eventos da pós-abolição da escravidão em 1888 representou realmente um avanço rumo a uma democracia racial, ou foi apenas um ato da manobra política para tirar a população negra liberta do ônus do Estado brasileiro, pois a doutrina da democracia racial isentava a política do estado ou o racismo informal de qualquer responsabilidade adicional pela situação de abandono deste contingente populacional, e até mesmo colocava esta responsabilidade diretamente nos ombros dos próprios afro-brasileiros. Se os negros fracassaram em sua ascensão social, isso evidentemente foi por sua própria culpa, pois essa sociedade não reprimiu ou obstruiu de modo algum o seu progresso. Ou seja, a realidade de pobreza e marginalidade dos negros não era vista como uma refutação da ideia de democracia racial, mas sim como uma confirmação da preguiça, da ignorância, da estupidez, da incapacidade etc., o que impedia ao negro de aproveitar as oportunidades a ele oferecidas pela sociedade brasileira. Em suma, “o restabelecimento da ideologia da vadiagem” (Andrews, 1988, p. 209-210 apud TAVOLARO, 2013). O autor contra argumenta o pensamento de Florestan Fernandes sobre a democracia racial pós-abolição ao questionar o pensamento de que com esse feito o Brasil passou a ser uma terra sem impedimentos legais e institucionais para a ascensão social do negro porquanto da igualdade racial, onde o preconceito e as discriminações são reduzidos. Sustenta-se que há igualdade de oportunidades, podendo o negro disputar de iguais condições com os demais cidadãos o ingresso aos bens sociais e matérias (essa enunciação da democracia racial por Florestan Fernandes, O mito da democracia racial, citado por George R. Andrews, Negros e Brancos em São Paulo (1888-1988), Bauru, EDUSC, 1988, p. 203).

Para consubstanciar o seu entendimento Andrews busca explicação no posicionamento de intelectuais como Sergio Buarque de Holanda e Francisco Weffort e o argumento de que tal política racial é uma integração aos equívocos da própria experiência republicana. A partir da leitura de obra do historiador brasileiro, após a queda da República, o mesmo resumiu a experiência republicana da democracia racial no Brasil como sendo sempre um lamentável mal-entendido, por entender esse movimento como uma tentativa da aristocracia rural e semifeudal, ao importar as teses racistas do século XIX, em acomodar, onde fosse possível, os seus direitos e privilégios. A essa tentativa de acomodação o cientista político Francisco Weffort descreve como um “legado de equívocos”, em que a hierarquia e o privilégio eram defendidos em nome da democracia e da igualdade. O conceito de democracia racial reflete ao mesmo tempo esse legado de equívocos e é parte integral dele. Resumindo: A República tanto estabeleceu o ideal de participação política democrática quanto negou na prática; a democracia racial desempenhou um papel similar a hierarquia racial, justificando e defendendo a realidade da desigualdade social ao invocar o oposto. Estava claro para todos que os negros continuavam a ocupar uma posição rebaixada e subordinada na sociedade brasileira.

Florestan Fernandes elenca as três formas da utilidade prática do mito: Primeiro Mito: atribui a incapacidade ou a irresponsabilidade do negro os seus dramas humanos entendidos pelos dois pensadores como caminho para justificar os índices insofismáveis de desigualdade econômica, social e política na ordenação das relações sociais. Segundo Mito: isenta o branco de qualquer obrigação, responsabilidade ou solidariedade moral de alcance social ou de natureza coletiva perante os efeitos sociopáticos da espoliação abolicionista do negro e do mulato. Na interpretação de Andrews a nossa democracia racial é um arranjo para a perpetuação da desigualdade racial e social. Terceiro Mito: Revitaliza a técnica de focalizar e avaliar as relações sociais entre negros e brancos através de exterioridades ou aparências dos ajustamentos raciais, formando uma consciência falsa da realidade racial brasileira. Essa técnica não teve apenas utilidade imediata, pois as condições necessárias para sua exploração prática foi implantou de tal maneira que se configurou como elo em duas épocas sucessivas da história cultural das relações étnico-raciais na cidade. Em consequência também concorreu para difundir e generalizar a consciência falsa da realidade racial, suscitando todo um elenco de convicções etnocêntricas. O pensamento reinante sobre o negro e a não existência de problemas de justiça social, excetuando-se o que foi resolvido pela revogação do estado servil e pela universalização da cidadania “pressupõe que o corolário segundo o qual a miséria, a prostituição, a vagabundagem, a desorganização da família etc., seriam efeitos residuais transitórios a serem tratados pelos meios tradicionais e superados por mudanças qualitativas espontâneas” (Torres, 1956, op. cit. P. 96 apud TAVOLARO, 2013).

“Essa situação de abandono condenara o negro a eliminação no mercado competitivo de trabalho ou, no mínimo, ao aviltamento de sua condição conduziu-o ao desajustamento econômico, à regressão ocupacional e ao desequilíbrio social.” (Fernandes, 1978ª, p. 42-32 apud TAVOLARO, 2013, p. 21). Tal pensamento sobre a presença negra na sociedade brasileira manteve-se hegemônico até os anos 30. Mesmo com os pressupostos do discurso intercultural, o reflexo de tais ideias racistas continua influenciando políticas oficiais discriminatórias por um bom tempo. No Decreto-Lei 7967/1945, cuidando da política migratória, dispôs que o ingresso de imigrantes dar-se-á tendo em vista a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes de sua ascendência europeia. Prova cabal dos reflexos dessa política de embranquecimento da população no passado, com desdobramentos na relação social nos nossos dias, é o resultado do trabalho de pesquisa junto às penitenciárias brasileiras, e notícia veiculada no jornal Causa Operária, coluna Opinião, em 23/11/2014. A matéria assinada por Luiz Carlos Valois Juiz de Direito, Mestre e Doutorando em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP, membro da Associação Juízes para a Democracia e da Law Enforcement Against Prohibition – LEAP, Associação de Agentes da Lei Contra a proibição das Drogas, ao pesquisar processos por tráfico de drogas pelos fóruns do país, recentemente esteve em Porto Alegre e duas coisas o deixaram bastante intrigado. A primeira é a posição dos promotores de justiça no exercício da atividade de acusação aos narrar o fato criminoso na denuncia. Chamou-lhe a atenção o costume estranho de anexar as fotos dos acusados em todas as denúncias. Segundo o juiz, estranho porque o que se deveria julgar é apenas o ato e não a pessoa, sendo que a figura daquele cidadão a ser julgado pode exercer influência desnecessária no processo. Como exemplo cita o professor Salomão Shecaira, da USP, conta em seu livro Criminologia, que um juiz napolitano conhecido como conhecido como Marquês de Moscardi, julgava os seus réus com base na aparência e, assim, teria criado a regra de que “na dúvida entre dois presumidos culpados, condena-se o mais feio”. Porém, a segunda coisa que o intrigou se apresenta mais séria.

O Rio Grande do Sul é conhecido pela predominância de pessoas brancas, algumas louras de olhos claros, sejam pela imagem exposta pela mídia, numa simples busca no Google, e é esta a impressão também quando chegamos ao Fórum ao prestar atenção no entra e sai de advogados. Ate ai tudo bem, pois a nossa colonização se deu de forma realmente diferenciada, mas ao olhar as fotos juntadas nos processos pelos promotores tive um susto: a maioria esmagadora dos acusados é negra. Prossegue ele: O racismo no Brasil sempre foi de intricada definição, encoberto por muitos e dissimulado por grande parte da população, e eu precisaria ir à Porto Alegre para constatar que q guerra ás drogas e o Direito Penal como um todo tem servido como forma de “apartheid”. Basta entrar em qualquer penitenciária brasileira para se perceber o contraste entre a cor da pele dos encarcerados e a cor da pele dos que estão nos shoppings. Contudo, nunca é fácil comprovar isso com estatísticas. Muitos são fichados, catalogados como brancos, mas são morenos, mulatos. Nos processos que pesquisei isso acontecia também, pois alguns eram visivelmente negros e constavam na denúncia como brancos. Posso até estar sendo injusto com os promotores gaúchos, porque eles podem muito bem estar querendo mostrar justamente o racismo dos policiais que prendem mais negros do que brancos, certamente com maioria negra, como traficantes de droga, embora nada leve à conclusão da existência dessa crítica sócia nas denúncias. De qualquer forma, o péssimo hábito do Ministério Público de Porto Alegre acabou ajudando em minha pesquisa, porque cada vez fica mais claro que a guerra às drogas está a permitir uma discricionariedade enorme ao poder de polícia, ao poder da polícia da rua. “A guerra às drogas é racista”. Talvez não precisemos de mais estatísticas. Negros pobres são traficantes. Enquanto brancos ricos são soltos como usuários, tudo com base no julgamento feito na rua e ratificado pelo Poder Judiciário.

Para finalizar fica a reflexão de quanto ainda prevalecem as técnicas do passado escravocrata, engendradas para que os afro-brasileiros libertos permaneçam sob a égide das fatalidades do destino e suas amarras impossibilitando-o de apropriar-se do modelo diaspórico afro-americano como espelho de ideal de luta para pretensões libertas em sentido amplo da palavra ou, reconhecer verdades nas palavras de Florestam Fernandes quando diz: Os efeitos culturais e psicossociais do abandono pós-abolição foi totalmente desfavorável ao negro porque uma vez destituídos da autonomia social os negros teriam continuado a se perceber através das lentes e expectativas dos brancos. Além disso, o fato dos padrões de relações raciais elaborados sob a égide da escravidão e da dominação senhorial terem se perpetuado na sociedade de classes, sem que esta última trouxesse qualquer ameaça à posição do branco na estrutura de poder, impediu o florescimento de uma modalidade de resistência aberta, consciente e organizada, que colocasse negros, brancos e mulatos em posições de luta (Fernandes, 1978a, p, 250 apud TOVOLATO, 2013, p. 21). Ademais, a persistência da extrema desigualdade social (própria do regime escravocrata) em sua sociedade republicana (formalmente pautada na igualdade jurídica) engendrou um dos mais poderosos mitos modernos: o mito da democracia racial. Fazendo uso prático da ideologia da democracia racial e seus mecanismos de despolitização da massa negra, a permanência destes na base da pirâmide se sustenta no discurso que dá às desigualdades raciais uma roupagem de diferença de classe e quando não desmobilizar, a de isolar os negros politicamente. Ao se referir aos movimentos de protesto negro do início dos anos trinta como caso ilustrativo de tal isolamento, Hasenbalg, afirma que: “Esses movimentos ou se defrontavam com a indiferença dos brancos ou então eram condenados como expressões de ‘intolerância e racismo negro que ameaçavam a paz e a ordem social’” (Hasenbalg, 1979, p. 244 apud TOVOLARO, 2013, p. 23).

É, também, de Lilia Gonçalves Magalhães Tavolaro, para a Revista Pesquisas e Debates em Ciências Sociais, da Universidade Federal de Goiás – Sociedade e Cultura -, com o título: Raça, classe e cultura no contexto das políticas de ação afirmativa: um esforço teórico-prático a respeito da raça, o texto em que a autora se propõe a discutir três questões caras ao debate sociológico em torno das chamadas “questões raciais” e, de algum modo, retomadas no contexto da implementação das políticas de cotas no Brasil: a relação entre raça e classe; a interface de raça com cultura/etnia; e o status de raça como categoria social e conceito analítico. Nesse sentido, em suas considerações finais, a socióloga afirma que qualquer experiência fenomenológica é capaz de atestar a força do racismo na sociedade brasileira contemporânea, experiência esta que se confirma a cada dado estatístico referente à enorme desvantagem dos negros no que tange à sua posição socioeconômica, bem como o seu acesso à educação, saúde, emprego etc. Trata-se de uma ordem racista pautada na ideia de que pessoas com uma determinada aparência, fenótipo, ou herança genética, são naturalmente inferiores. A digressão sobre as três questões caras ao pensamento teórico social relativo à chamada questão racial, é o esforço da PhD em sociologia em elaborar um discurso teórico crítico da raça que cumpra com o seu objetivo de interpretar e explicar o fenômeno da raça sem que se reproduza a respeito dela concepções de senso comum. Contudo, ressalta que a elaboração de um discurso teórico crítico da raça em um contexto marcado pela urgência da elaboração e implementação de políticas capazes de combater o racismo de forma eficaz e duradoura constituí uma tarefa das mais difíceis, já que implica também em desconstruir, ao menos do ponto de vista analítico, aquele que constituí consequência e principal pilar de sustentação do racismo e das identidades raciais dentro da ordem racista, ou seja, a raça.

[1] Web 2.0 – Em 2004, a empresa O´Reilly designou o termo Web 2.0 para uma segunda geração de comunidades e serviços na plataforma Web, onde a ideia é que o ambiente online se torne mais dinâmico e que os usuários colaborem para a organização de conteúdo. Ou seja, tem essencialmente a ver com ambientes propícios à criação e manutenção de redes sociais abertas ou fechadas, públicas ou privadas.  (O´REILLY, 2005, p.3).

[2] Herdeiros bourdieanos – Segundo estudos etnográficos de Bourdieu e Passeron, no livro Os Herdeiros, a escola transforma as desigualdades sociais (culturais) em desigualdades escolares. Isto é: “Os estudantes mais favorecidos, não só devem ao meio de origem os hábitos, o treino e as atitudes que lhes são mais úteis nas tarefas escolares, mas herdam também saberes, gostos, cuja credibilidade escolar, embora indireta, não deixa de pautar-se sobre esses conhecimentos, desfavorecendo aqueles não possuidores desse capital cultural.” Para alguns a cultura escolar é idêntica à cultura da família enquanto que para outros representa uma aculturação.

[3] Sociobiologia – Essa disciplina científica propõe que comportamentos e sentimentos animais, também existentes nos seres  humanos, como o altruísmo e a agressividade, são em parte derivados da genética e não são apenas culturais ou socialmente adquiridos. Esse tipo de afirmação causou grande controvérsia no cenário intelectual, e até hoje divide os pesquisadores. Entretanto, boa parte das críticas são interpretações errôneas da teoria, muito confundida com o darwinismo social.

[4] Ancestralidade biogeográfica – Baseia-se no estudo d informação de 190 marcadores do DNA, selecionados para distinguir entre cinco populações de referências ancestrais: Europa, leste Asiático, África Ocidental. América Nativa e Subcontinente Indiano. Esses marcadores estão distribuídos pelos 22 pares de cromossômicos. Através da aplicação desse tipo de teste permite-se saber qual a percentagem genética que o DNA de uma pessoa possui de cada uma das populações ancestrais, traçando o seu perfil genético.

[5] Kenneth Brancroft Clark e Mamie Clark – Pioneiros em estudos psicológicos com o uso de bonecas, The Experiment Clarck Boneca (1939), onde pediram crianças negras para escolher entre um a boneca preta e uma boneca branca depois de uma determinada pergunta. As bonecas eram iguais, exceto para sua cor de pele. O estudo levou a conclusão que a maioria das crianças negras associava características positivas à boneca branca.

[6] Poligenistas – Vem do segundo o livro do Gênese, na Bíblia, sobre os filhos de Noé: Cam (raça negra), Sem (raça amarela) e Jafé (raça branca). Em Cam está a explicação para a raça negra quando este viu Noé nu e bêbado e contou para seus irmãos, zombando do pai. Ao saber disso, Noé amaldiçoou Cam e o condenou, assim como toda a sua descendência, à servidão. Os escravocratas, avidamente adotaram uma identificação dos africanos com os descendentes de Cam, uma cômoda justificativa religiosa para a escravidão, embora na própria Bíblia não haja nenhuma referência à cor de Cam ou qualquer descrição de seus descendentes.

[7] Taxonomia ou Zoologia Sistemática – É a ciência que classifica os seres vivos. A primeira tentativa de se classificar milhões de espécies de seres vivos do planeta aconteceu há três séculos antes de Cristo quando Aristóteles classificou os animais “com sangue vermelho” e “sem sangue vermelho”. No século XVII surge o conceito de espécie introduzido pelo naturalista John Ray, considerado o pai da história natural inglesa. No século seguinte, os seres vivos começaram a ser classificados de acordo com sua história evolutiva e desenvolvimento embriológico até que, em 1735, Carl Von Linné (1707-1778), mais conhecido como Lineu, publica Systema Naturae, onde trata dos reinos animal, mineral e vegetal agrupando os seres vivos (plantas e animais) em classes, ordens, gêneros e espécies. Para classificar plantas e animais, Lineu adotou um primeiro nome em latim para indicar o gênero e um segundo para indicar a espécie.

[8] Darwinismo social – Baseado aplicação da teoria de Darwin nas sociedades humanas. Descreve o uso dos conceitos de  luta pela existência e sobrevivência dos mais aptos para justificar políticas que não fazem distinção entre aqueles capazes de sustentar a si mesmo e aqueles incapazes de se sustentar. Conceito adotado no contexto de competitivo do capitalismo Laissez-faire; como também motivou, de forma similar, as ideias de eugenia, racismo, o autoritarismo facinazista e na luta entre grupos e etnias nacionais.  O termo foi popularizado em 1944 pelo historiador americano Richard Hofstadter, mas atualmente, por causa das conotações negativas da teoria do darwinismo social, especialmente após as atrocidades da Segunda Guerra Mundial.

 [9] Fealdade negra – Feiura ou fealdade é uma característica de um ser vivo, cuja aparência é desagradável à vista e resulta numa avaliação altamente desfavorável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEVEDO, José André de. Fundamentos Filosóficos da Pedagogia de Freire. Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 1, p. 34-37, Jan/Mar, 2010. Disponível em: <http://revistas.unipar.br/akropolis/article/viewFile/3115/2209&gt; GIAROLA, Flavio Raimundo. Racismo e teorias do século XX – principais noções e balanço histórico. Disponível em: <http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=313&gt; Acesso em: 08/01/2015. MANDELA, Nelson et al. No final do século – Reflexão dos maiores escritores do nosso tempo. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 1998. PENA, Sergio D. J.; BIRCHAL, Telma S. A inexistência biológica versus a existência social de raças humanas: pode a ciência instruir o etos social. Revista USP, São Paulo, n. 68, p. 10-21, Dezembro/Fevereiro 2005/2006. Disponível em: <http://www.usp.br/revistausp/68/02-sergio-telma.pdf&gt; Acesso em: 05/01/2015. RIBEIRO, Helcio. A iniciativa popular como instrumento da democracia. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. 2007. Disponível em:          <http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/FDir/Artigos/helcioribeiro.pdf&gt; Acesso em: 21/01/2015. RIOS, Roger Raupp. A política brasileira de embranquecimento – uma visão jurídica. Juiz da 10ª Vara, Rio grande do Sul, 16/12/2001. (Retirado dos autos de sentença judicial referente a crime de racismo). Disponível em: <http://movimentoafro.amazonida.com/branqueamento.htm&gt; Acesso em: 02/01/2015. SABBATINI, Renato M. E. Frenologia: a história da localização cerebral. Cérebro & mente, Março/1977. Disponível em: <http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia_port.htm&gt; Acesso em: 08/01/2015. SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. Editora Contexto, São Paulo: 2006. Disponível em: <http://pt.slideshare.net/benjoinohistoria/dicionrio-de-conceitos-histricos&gt; Acesso em 12/01/2015. SANTOS, Gislene Aparecida dos. Percepções da Diferença. Coleção Percepção da Diferença – Negros e Brancos na Escola. Vol. 1. 2007. Disponível em: < http://www.usp.br/neinb/wp-content/uploads/NEINB-USP-VOL-1.pdf&gt; Acesso em: 18/01/2015.  _____________________________ A invenção do ser negro. Editora da Pontifícia Universidade católica de São Paulo – EDUC, São Paulo: 2002. Disponível em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/1764631/-a-invencao-do-ser-negro- > Acesso em: 20/01/2015.  TAVOLARO, Lília Gonçalves Magalhães; Sergio Barreiro de Faria. Raça e a “Tese da excepcionalidade brasileira”: uma reflexão à luz das ações afirmativas. Revista de estudos e Pesquisas sobre as Américas, vol. 7, n.° 1/2013. Disponível em: < http://periodicos.unb.br/index.php/repam/article/view/9590 > Acesso em: 12/01/2015. ____________________________ Raça, classe e cultura no contexto das políticas de ação afirmativa: um esforço teórico-prático a respeito da raça. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 287-298, jul./dez. 2010. Disponível em: < http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/view/13432/8670&gt; Acesso em:09/01/2015.

FABIO LEÃO: entre o crime e o Ringue

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http://canalbrasil.globo.com/programas/cinejornal/videos/3205739.html

  • Filme / Documentário
  • Nome Original:  Entre o Crime e o Ringue
  • Direção:  Paulo Thiago
  • País:  Brasil
  • Ano: 2013
  • Cor:  Colorido
  • Classificação:  Programa permitido para menores acompanhados dos pais

Fábio Leão é um consagrado nome do MMA. O longa-metragem apresenta a trajetória vitoriosa do protagonista, que entrou para o mundo do crime quando jovem, mas superou os obstáculos através do esporte.

By Cristiane Soares e Érica Fernandes (Texto Adaptado)

O nome de Jesus não está apenas estampado no peito do lutador Fábio Leão, mas na transformação de vida que tem demonstrado em cada ringue que entra para lutar. E de lutas ele entende muito bem, é tricampeão Carioca de kickboxing, vicecampeão de Muay Tai, medalha de prata em kickboxing no Pan Americano e no Sul-afriano. Mas de todas essas vitórias, ele afirma que ter conhecido Jesus é a maior de todas. Foi Cristo que o fez vencer as drogas, a criminalidade e o tornou um homem referencial para “gregos e troianos”. Uma história como essa não poderia ficar guardada e nem ficará. Em 2014, ela vai virar filme e livro. Mas, enquanto a vida do lutador Fábio não está nas telas do cinema, você pode conferir aqui no Lagoinha.com, em detalhes, mais um milagre de Jesus.

“Nasci e cresci em uma favela localizada na zona oeste do Rio de Janeiro, atualmente conhecida como comunidade Villa Kennedy. Quando tinha seis meses de idade, o meu pai foi assassinado e, nesta época, minha mãe e minha tia saíam para trabalhar e me deixavam com a minha avó, que cuidava de mim, da minha irmã e de mais três primos. Com o passar do tempo, fui crescendo e levando uma vida normal como a de qualquer criança. Porém, certo dia vi que em uma praça a 50 metros da minha casa, local onde funcionava uma das bocas de fumo do bairro, havia traficantes fazendo “papel de governantes”. Eles supriam necessidades dos moradores da comunidade, inclusive as da minha família, e isso fez com que eu começasse a idolatrá-los. Então, cresci acreditando que o errado era certo. Com a idade de 10 anos, já era fã do Bruce Lee, apaixonei-me pelas artes marciais e comecei a praticar Karatê. No entanto, a fim de conseguir dinheiro para manter-me no esporte, comecei a fazer furtos em supermercados e, aos 13 anos, já pertencia a uma quadrilha que praticava assalto à mão armada. Para minha infelicidade, aos 17, fui baleado numa troca de tiros com a polícia e, a minha avó, pessoa quem eu tanto amava, ao saber da notícia, entrou em profundo desgosto e sofreu um infarto, que a levou a óbito. E aos 19, fui preso. Porém, mesmo vivendo uma vida conturbada, nunca deixei totalmente as artes marciais. Na verdade, ela estava dividida entre o crime e o ringue.

No meu sexto ano de cumprimento de pena, fui transferido para Penitenciária Moniz Sodré, situada no Complexo de Gericinó, em Bangu, no Rio de Janeiro, onde conheci o diretor Gilson Nogueira, primeiro homem usado por Deus para transformar minha vida. Ele viu que, no passado, eu era lutador, e me propôs dar aulas de artes marciais dentro da prisão. Como havia sido condenado a 17 anos, mais do que depressa, fiz as contas e constatei que em vez de eu sair em 2014, sairia em 2010. Sendo assim, aceitei o convite. Mas para que eu tivesse essa oportunidade, o que reduziria a minha pena, o diretor colocou uma condição: fazer uma oração antes e após de cada aula. Naquele momento, respondi que isso era inviável, pois não sabia rezar. Contei a ele que minha família era da umbanda; e que minha vida tinha sido entregue em um terreiro de macumba. O diretor não ligou para o fato e disse que era para eu falar com Deus da forma que sabia, pois Ele me ouviria. Também me disse que DeusPenitenciária Muniz Sodre escolheu as coisas loucas desse mundo para confundir as Sem entender direito o que ele me dizia, questionei: “Doutor, o senhor é crente?”. Ele me respondeu que era cristão, pastor evangélico e que tinha a certeza de que Jesus Cristo é o único que poderia transformar a vida de qualquer ser humano da face da terra. A partir dessa ocasião, aprendi a orar o Pai Nosso e durante três meses fiz essa oração em todos os momentos em que dava as aulas. Porém, certo dia, um traficante chegou até mim e questionou-me até quando eu iria ficar só na oração do Pai Nosso, pois Deus já devia estar enfadado. Ainda com ar de questionamento, ele me pediu que falasse um versículo da Bíblia. Respondi que não sabia e pedi que ele me dissesse um. Ele, então, disse a passagem bíblica João 8.32: “Conhecereis a Verdade e Ela vos libertará”. Sem entender nada, perguntei: “Que verdade é essa?” Ele me disse que a verdade é a Palavra de Deus e me perguntou se eu não tinha uma Bíblia. Eu respondi que não tinha e ele me chamou de maluco por estar em uma prisão, sem ter uma Bíblia. Irritado o indaguei quem era ele pra falar de mim, já que era traficante e matava mais do que a AIDS.

Lembro-me, que naquele instante, ele me disse que havia nascido em lar evangélico, mas que estava afastado dos caminhos do Senhor. Também enfatizou que só Jesus transforma vidas e que Ele usa quem quer, na hora que quer e da maneira que quer. Esse traficante foi o segundo homem usado por Deus, dentro da prisão, para mudar a minha história. Passado uns dias, quando minha mãe, minha esposa e minha filha foram me visitar, solicitei a elas que, no próximo encontro, levassem uma Bíblia. Como minha mãe era macumbeira, ficou assustada com aquele pedido, mas mesmo assim atendeu à minha solicitação. A partir desse dia, comecei a ler a Palavra de Deus e dentro da prisão tive um encontro verdadeiro com nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A pior cadeia não é a dos muros e das grades e, sim, a que encontramos, aqui, do lado de fora: a cadeia do preconceito, da dúvida, da rejeição, do descrédito e do NÃO. Quando sai da prisão, já não estava mais só, pois Cristo havia entrado em minha vida. Sabia que se eu me esforçasse, tomasse as atitudes corretas e não desistisse dos meus sonhos, eles seriam e serão realizados. Em Felipenses 4.13, o Senhor nos diz: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Sendo assim, em Cristo Jesus, somos mais do que vencedores. É preciso somente ter força, fé e foco. Não desistam, entreguem o seu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará.

Tinha certeza que o meu fim seria como a de todos que cresceram no crime comigo. Imaginava que seria assassinado; que morreria com doenças como tuberculose, AIDS; ou que ficaria entrevado numa cadeira de rodas. A minha mudança de vida atribuo ao meu salvador, Jesus Cristo; ao amor e à perseverança da minha mãe, que faleceu quando ainda estava preso; da minha esposa, que está ao meu lado desde os meus 13 anos de idade; e da minha filha Hillary, de 14 anos, que durante 10 anos me visitou no Complexo Penitenciário de Bangu. A minha vida foi totalmente transformada após ter conhecido Jesus. Fui nomeado pelo secretário de Estado de Administração Penitenciária, Coronel Cesar Rubens, como servidor público (cargo de confiança). Atualmente, possuo a mesma carteira dos guardas penitenciários; e não só ministro aulas de artes marciais, mas também prego a Palavra de Deus em oito penitenciárias, onde foram instaladas academias de lutas. Sei que o propósito de Deus em minha vida é fazer com que, por meio das artes marciais, pessoas sejam evangelizadas e levadas ao arrependimento de seus pecados.

Sou grato a Deus pela oportunidade em ser um obreiro-evangelista. Também, juntamente com o pastor Alexandre Esquerdo, lidero um projeto na comunidade da Vila Kennedy, local onde nasci, cresci e resido. Por meio da Palavra de Deus e do esporte, estamos conseguindo ganhar muitas vidas para Jesus. Na comunidade, sempre ministramos o tripé em que o homem deve estar firmado: Deus, família e trabalho, o que já tem fabio-leão-editadaproduzido ótimos resultados: 17 homens que saíram da prisão, hoje, estão vivendo das artes marciais; jovens estão deixando o crime e as drogas; e mulheres de detentos têm seguido o exemplo da minha esposa, que também é obreira da igreja, em não abandonar o marido na prisão. Outro milagre que Deus tem feito na minha vida é um filme de ficção, baseado em fatos reais. Ele está previsto para ser lançado até o final de 2014. O ator global, Thiago Martins, é quem irá compor o meu personagem. Sou um homem liberto das drogas; que foi usado pelo Espírito Santo para ganhar a alma da minha mãe para Jesus; que contou com visitas à penitenciária da própria juíza que me condenou a 17 anos de prisão; e que viveu e ainda viverá muitos milagres. Eu sou e para sempre serei um eterno aprendiz de Deus, que decidiu crer, obedecer e a praticar os mandamentos do Senhor.”

Disponível em: < http://www.lagoinha.com/ibl-vida-crista/fabio-leao-um-lutador-que-venceu-a-vida/ >
Acesso em: 05/11/2014

By Paloma Silbar

As artes marciais deram um novo rumo para a vida conturbada de Fábio Leão. Desde a infância na Vila Kennedy que o lutador se viu dividido entre “o crime e o ringue”. Foi na última ida para a prisão que a grande mudança aconteceu. “Eu recebi a oportunidade da minha vida dentro do sistema penitenciário”, afirma Fábio.

No reino animal, o leão é apelidado de “rei da selva”, por estar no topo da cadeia alimentar. Como simbologia, sua imagem é associada à força, orgulho e liderança. A história de Fábio Leão aponta as influências do sobrenome em seu destino. O menino que “sempre quis ter autoridade e ser líder”, encontrou dois caminhos que atendiam às suas expectativas: o tráfico de drogas e as artes marciais. A vida o fez perambular por estes mundos distintos durante anos, até que Fábio se decidiu por um dos lados: escolheu a luta.

Fábio foi criado na Vila Kennedy, favela da zona oeste carioca. Na juventude começou a se envolver com o crime e chegou às lideranças do tráfico local, ao mesmo tempo que praticava artes marciais. Entre idas e vindas da prisão, o lutador se tornou campeão brasileiro, mas não suportou a perda do campeonato mundial, voltando a se envolver com o crime e com as drogas. Mas uma outra vitória estava por vir: Fábio passou a dar aulas na prisão e conseguiu reduzir sua pena. Foi dentro do sistema penitenciário que se tornou amigo de um antigo desafeto: a juíza Telma Fraga.

A vida que o esperava fora da cadeia era muito diferente da que ele deixou pra trás. Também não era o mesmo homem que aos vinte e poucos anos tinha sido condenado a 17 anos de prisão. Fábio retomou a carreira de lutador e passou a se envolver em projetos sociais. Ao invés de abandonar de vez a prisão, resolveu que ainda tinha uma missão a cumprir ali dentro e continuou dando aulas para os detentos. Também não se esqueceu dos seus anos de infância e passou a dar aula de artes marciais para crianças da Vila Kennedy.

Essa história de superação através do esporte foi contada em inúmeras reportagens de grandes emissoras, como a Globo, SBT e Record. Fábio já perdeu as contas  de quantas entrevistas deu para revistas, TVs e sites. E o sucesso não para por aí. A vida do lutador da Vila Kennedy vai se tornar um filme com a direção de Paulo Thiago. O título mais cogitado para o longa-metragem é “Fábio Leão: entre o crime e o ringue”. Fábio revelou que seu papel será feito por um ator global, mas deixou seu nome em suspense.

A entrevista aconteceu na própria Vila Kennedy, numa academia em que Fábio dá aula. Durante nossa conversa, a “celebridade” local era cumprimentada por vários alunos. Fábio falou de crime, artes marciais, cadeia, drogas, família, UPP e religião.

Como foi a sua infância na Vila Kennedy?

Eu fui nascido e criado na Vila Kennedy, que sempre foi um bairro liderado pelo tráfico de drogas. O maior poder aqui nunca foi o poder público. Na época, em 82 ou 83, o traficante ajudava os moradores, comprava remédios, alimentos, fazia churrasco, festas das crianças. Na pracinha que é a 50 metros da minha casa, onde eu jogava bola de gude e soltava pipa, rolava o tráfico. Eu cresci vendo os traficantes fazendo papel de governantes. Eu acabei acreditando que o errado era o certo, porque eu via os caras com cordão de ouro, cheio de mulher bonita, carros do ano e fazendo papel de Robin Hood, roubando dos ricos e dando pros pobres. Quando eu tinha 10 anos, eu lembro que morreu um dos líderes do tráfico. No enterro tinha três ônibus lotados e um montão de mulheres brigando por um cara que já tava morto. Eu, com 10 anos, pensei: “Eu vou ser mais sinistro que esse cara. No meu enterro vai ter cinco ônibus e mais mulher brigando por causa de mim, porque eu vou ajudar mais gente, vou roubar mais, vou matar mais e eu vou ser mais respeitado do que ele.” Ali eu comecei a ter os traficantes como ídolos.

E pelas artes marciais, quando você começou a se interessar?

Quando eu era criança, na televisão, passava muitos filmes do Bruce Lee. Como eu sempre fui hiperativo, eu via um golpe e queria dar nos meus colegas. Aí eu comecei a fazer karatê com um professor que dava aula de graça numa associação de moradores. Eu comecei a ter dois ídolos: o líder do tráfico e meu professor. De dia eu ficava na rua fazendo avião e comprando quentinha pros caras da boca. Só que de noite eu tava dentro da academia, aprendendo artes marciais. Então a minha mente, com 12 anos, ficou confusa. Do lutador eu gostava das medalhas, da disciplina do esporte, da reverência do aluno com o mestre. Aquilo me chamou tanta atenção quanto um traficante. Eu sempre quis ter autoridade e ser um líder e ali eu tinha com dois segmentos. Eu treinei dois anos de caratê e o professor parou de dar aula pra trabalhar num emprego de segurança à noite. Depois disso, eu fiquei só no crime.

Com 12 anos você ficava o dia inteiro na rua. E como ficava a escola?

Eu fiz até a oitava série, mas eu só ia pra escola pra agradar minha mãe. Já não entendia mais nada, só vivia na rua. Eu ia com revólver pra escola e enquadrava os chamados nerds: “Faz minha prova aí, se não o bagulho vai ficar doido pra você”.

E hoje, você não sente falta de ter tido essa educação escolar?

Por incrível que pareça, dentro da prisão eu me tornei mais culto. Às vezes, eu conversando aqui, falo palavras que eu aprendi nos livros da biblioteca da prisão.

Você começou a fazer assaltos bem jovem. Como você se sentiu no seu primeiro assalto?

Eu me senti poderoso, acima de tudo, o dono do mundo. Quando eu botei o revólver na cara da atendente no balcão, ela abriu a porta pra mim e falou “pode levar tudo que você quiser”. No cofre tinha dinheiro que eu nunca vi na vida. Eu, um garoto de 13 anos, tinha dinheiro pra comprar carro, moto, mas não podia, porque fazia isso escondido da minha mãe e da minha vó. O dinheiro que eu peguei eu gastei em três meses em farra, bebida, maconha e cocaína.

Quando você foi preso pela primeira vez, qual foi a sua impressão do sistema penitenciário brasileiro?

Com 19 anos de idade eu cheguei dentro de uma cela na Polinter, na Praça Mauá, e encontrei condições sub-humanas. Dentro de uma cadeia que dava pra 20 pessoas morarem, tinham 110 homens. Muitos com tuberculose, doenças de pele e vírus da AIDS. Eu botei na minha cabeça que as piores coisas do mundo são: fome, guerra e cadeia, porque eu já vivi isso tudo. Eu já passei dificuldades de não ter alimentos na minha casa, eu já me envolvi numa guerra porque tinha que roubar pra me sustentar. E a guerra leva o homem pra morte ou pra cadeia. Eu parei na cadeia pela permissão de Deus. E dentro da cadeia eu falei que nunca mais voltaria pro crime, porque eu nunca mais queria cair num lugar daquele.

Mas você acabou voltando pro crime. Você não ficou com medo de ser preso de novo?

Não pensa que eu saía e voltava direto pro crime não. Eu cheguei a trabalhar em algumas multinacionais, só que eu nunca ficava mais de três meses, que era o prazo da experiência. Eu chegava lá era o mesmo papo “Fábio, você é um excelente funcionário, mas a nossa empresa não admite pessoas que passaram pelo sistema prisional”. Aquilo ali era como se fosse um nocaute pra mim. Eu saía chorando e com a certeza de que a única saída pra minha vida era ser bandido. Ou eu vou ficar velhinho na cadeia, ou eu vou morrer trocando tiro. Eu falava: “Poxa, se eu tô te pedindo um emprego é porque eu não quero voltar pro crime. No crime eu ganho cinco mil por semana, eu tô me sujeitando aqui pra ganhar um salário mínimo. Se alguém vir roubar, eu tenho coragem de te defender. Se sumir alguma coisa aqui, o maior suspeito vai ser eu. Vou ser o leão de chácara, não vou deixar sumir nada”.

Em entrevista pra Revista Trip você disse que se sentia diferente dos “outros caras”. Por quê?

Mesmo morando na Vila Kennedy eu usava meu dinheiro pra surfar, voar de asa delta e viajar pela Região dos Lagos. Meu sonho é ir pra Fernando de Noronha. Eu gosto de mergulhar, de lutar, de esporte radical. Eu nunca gostei de falar “eu sou bandido”. Mas a ostentação de querer ter um tênis da nike, umaqualand no braço, um cordão de 100 gramas, isso aí que me levou pro crime: falta de informação, ostentação de poder e as dificuldades da vida de um favelado. E de você vê a sua mãe abrir um armário e chorar porque não tem uma comida pra fazer e ali, a 50 metros, ter uns caras com mochilas cheias de dinheiro.

Como você chegou às lideranças do tráfico de drogas na Vila Kennedy?

Eu fazia clonagem de carro. Por exemplo, eu via uma Hilux preta, eu mandava roubar uma igual. Aí a gente modificava o chassi do carro roubado pro carro real, um clone. Só que a gente pegava esses carros e mandava pro Paraguai e trocava por armas e drogas. Foi quando eu comecei a liderar. Eu comecei a abastecer as bocas de fumo da Vila Kennedy, Mangueira, Jacaré, Manguinhos, da facção criminosa que predomina aqui, que eu não vou falar o nome porque já tem muita propaganda. Eu trocava um carro por 30, 40 quilos de cocaína.

Você fazia o papel de abastecedor do tráfico…

O nome no crime é matuto, que é o cara que fornece drogas pras bocas de fumo. Ali eu cheguei a ter casa de praia, carro importado, tudo que você pode imaginar. Só que eu queria comprar um carro, mas não podia ir na agência, porque tava com mandato de prisão. Pra comprar um cordão de ouro eu tinha que mandar o vendedor ir até a favela. Eu tinha uma casa aqui na Vila Kennedy com três quartos, suíte, piscina e sauna e era o único lugar que eu não podia ir. Tinha também uma casa em Iguaba, que na época eu comprei por 70 mil. Eu ganhava de cinco a dez mil por semana, e já não roubava mais.

Então você estava com uma situação financeira muito acima dos outros moradores da Vila Kennedy…

Mas aí eu comecei a fazer aquele papel que aqueles traficantes fizeram comigo quando eu era novo. Eu comecei a fazer compras pra moradores necessitados, a dar cestas básicas, a comprar remédios. E eu ainda tinha um sonho: quando eu morrer, pelo que eu faço, vai uns cinco ônibus no meu enterro. Eu ainda continuei com aquilo na cabeça.

Por que alguém sonha com o momento da morte?

É porque eu convivia com a morte. Eu sabia que o meu futuro seria a cadeia ou a morte, porque é o normal na vida de um bandido. Aquilo já fazia parte da minha vida, era o natural, era igual à lei da física: tudo que sobe, desce.

O que aconteceu com o dinheiro e imóveis que você foi adquirindo?

Eu tive que vender tudo. Uma vez indo daqui pra casa de praia, um X9 me cagoetou, eu fui pego pela polícia e perdi pra eles de uma vez só mais de 100 mil. A minha casa de praia de Iguaba e a minha casa de três quartos na Malvina eu tive que vender pra pagar os policiais. Quando a minha cadeia deu 17 anos, eu tive que vender o restinho pra pagar os advogados. Do crime, a única coisa que tenho até hoje, é uma bala alojada nas costas. Hoje eu moro na casa da minha falecida mãe, onde eu fui nascido e criado.

Qual foi o papel da religião na sua mudança de vida e saída do crime?

Hoje eu sou cristão. Não sou religioso, eu detesto religiosos. A palavra de Deus é o que eu sigo. A palavra de Deus fala “tudo me é lícito mas nem tudo me convém”. Eu posso ser qualquer coisa, estar em qualquer lugar, sem me prejudicar nem prejudicar o outro. A palavra de Deus diz “Amar a Deus sobre todas as coisas, amar teu próximo como a ti mesmo”. Então, o que eu não quero pra mim eu não posso desejar pra você. Hoje eu não tenho coragem mais de assaltar ninguém, de clonar o carro dos outros, de vender drogas. Porque quantas famílias não foram destruídas com a droga que eu vendi? Hoje eu me arrependo.

Você também foi usuário de droga. Como foi o processo até a dependência química ?

Depois que eu fui campeão brasileiro, eu fui convocado pra ir pro Mundial na Itália. Eu tinha que ter cinco mil dólares pra viajar e, se eu fosse campeão, eu ia ganhar 50 mil. Mas eu não consegui patrocínio. O cara que foi no meu lugar tinha patrocínio, foi campeão, ganhou a bolsa da luta e a carreira dele deslanchou. Eu pensei “era isso é o que ia acontecer comigo. Lutar não dá, realmente eu sou bandido”. Voltei a clonar carro, fazer tudo de novo. Na quarta vez eu já fui preso dependente químico, porque me deu uma depressão por eu não ter ganhado o título mundial e, quando as drogas chegavam na minha mão, eu experimentava. Era cocaína pura, eu tirava uma pedra, amassava e cheirava. A maconha era da melhor qualidade porque eu fazia contato direto com o Paraguai. Eu fiquei dependente muito rápido. Cheguei a ter dois princípios de overdose. Acordei no hospital duas vezes todo entubado. Só que eu nunca gostei de droga porque eu gostava do esporte e de ter meu corpo forte. 

Como nasceu a sua amizade com a juíza Telma Fraga, a mesma que te condenou a 17 anos de prisão?

Quando eu cheguei na prisão, o diretor Gilson Nogueira viu na minha ficha que eu tinha sido campeão brasileiro 15 anos antes. Esse homem foi usado por Deus pra salvar minha vida. Ele falou: “você vai dar aula aqui dentro, vai trabalhar três dias e vai cair um dia da pena. Em vez de você ir embora em 2014, em 2009 você ganha sua liberdade”. Eu comecei a dar aula, parei de usar drogas e de me envolver com o crime através do esporte. Passaram dois meses ele falou pra mim que a juíza Telma Fraga queria me visitar. Eu falei: “meu irmão, eu quero ver o capeta mais não quero ver essa mulher. Foi ela que me condenou a 17 anos de prisão”. Ela chegou dentro da penitenciária e falou “Fábio eu não condenei você e não condenei ninguém. Eu sentenciei o ato cometido. Daqui pra frente eu quero te ajudar”. Na outra semana ela levou o Rogério Minotouro e o Rodrigo Minotauro, dois lutadores famosos, lá na prisão. Os caras montaram uma academia pra mim e mandaram os equipamentos. Eu fiquei treinando quatro anos lá dentro e ganhei a minha liberdade. Quando eu saí ela me chamou pra trabalhar com ela. Eu falei “Como, eu não tenho nem a oitava série completa. A senhora deve ter estudado matérias interplanetárias”. Ela disse: “Você vai ser palestrante motivacional do meu lado, vai contar a sua superação dentro da prisão”. Hoje eu sou palestrante, ela é minha madrinha e minha melhor amiga. Eu não falo que ela é como uma mãe pra mim porque ela é nova, tem 45 anos e é bonita. Eu tenho ela como uma irmã.

Hoje você dá aulas em presídios, é palestrante, é lutador. Como está a sua vida atualmente?

Eu vivo da luta. Sou tricampeão carioca, prata no brasileiro, pan-americano e sul-americano. Tenho 37 anos e luto com garotos de 22 anos. Hoje eu tenho um projeto social na favela em que nasci e fui ameaça pra comunidade. Hoje eu sou funcionário público, nomeado pela SEAP (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária), pra multiplicar isso que aconteceu comigo. Eu volto no presídio trabalhando na ressocialização e dando oportunidade pra aqueles homens serem inseridos no mercado da luta. A minha história vai virar um filme de longa metragem, do cineasta Paulo Tiago, que já pegou o distribuidor e agora tá fechando o elenco. Eu não posso falar quem é o ator, só posso falar que é um ator global. Essa história, que vai pro cinema no mundo todo, eu tenho certeza que é pra Deus mostrar que é possível, quando o homem quer. Mas pra tudo isso eu tive que lutar. Hoje a minha maior luta é salvar os meu amigos que ainda tão no crime, salvar essas crianças através dos projetos, pra que eles não sejam atraídos pelo crime como eu fui há vinte anos. Eu mato um leão por dia pra continuar nessa luta. Do projeto que eu tenho 100 crianças, se eu formar um cidadão, pra mim é muito. Hoje o que vale mais pra mim do que dinheiro é o abraço da comunidade na rua. Eu sou visto como um exemplo, a pessoa que tá toda hora em reportagem de televisão. E eu não posso deixar de ressaltar a função muito importante da minha família na minha recuperação. Minha mulher está há 23 anos comigo e me acompanhou dentro de prisão por dez anos, junto com a minha filha. Elas não me abandonaram em momento nenhum. Se elas me abandonassem, eu tenho certeza que eu me enforcaria lá dentro, ou que você não ia tá pegando essa entrevista porque eu ainda ia tá no crime ou dentro da cadeia. Eu vi três homens se enforcarem no sistema penitenciário porque mulher largou, porque a família abandonou e ninguém acreditou mais nele.

Como é dar aula pra presidiários, você consegue manter a disciplina nas aulas?

Os presidiários são muito disciplinados, porque lá eu dou aula num regime de ditadura. Ali eu sou o líder, o que eu falar tá falado. Se faltar três dias, tá cortado. A secretaria exige muitos requisitos. Eles têm que ter bom comportamento e tá estudando dentro da unidade. Eu ensino pra eles como eu aprendi: a filosofia do esporte é o domínio próprio. Quando eu consigo dominar minha raiva eu vou ser uma excelente pessoa na vida e um excelente lutador. Quando você começa a dominar seus medos, seus demônios, suas ansiedades, você tá preparado pra qualquer coisa. Nessa vida a gente tem medo de tudo. Às vezes você sai de casa e não sabe se vai voltar. Na televisão só se vê morte. Mas se você ficar com medo vai pegar uma depressão profunda ou uma síndrome do pânico. As artes marciais ensinam esse enfrentamento pra vida e ensinam a pessoa a cair e levantar. Porque quando você toma um golpe forte você cai, mas você sabe que tem que levantar pra continuar.

Tem muita gente que acha que esse tipo de luta incentiva a violência. O que você acha disso?

Nós estamos quebrando esses paradigmas. Há muito mais índices de contusões sérias em atletas de outras modalidades do que nas artes marciais. No futebol acontecem lesões do cara ter que ficar dois anos sem jogar bola Eu vi numa matéria recente que foram mais de 100 atletas que tiveram morte súbita. Isso porque os clubes estão sendo negligentes nos exames médicos. O atleta de futebol faz anualmente estes exames, na luta fazemos de três em três meses. Eu acho que as artes marciais, o MMA, o vale tudo, o muay tai não são esportes violentos e sim agressivos, como a fórmula 1. Na fórmula 1, o cara tá a 300 por hora e numa curva pode se espatifar e perder a vida. Mas ele tá treinado pra aquilo. O lutador prepara o corpo, a mente e o espírito nos treinamentos físicos. Ele sabe que vai entrar ali com uma pessoa que pode tá tão preparada quanto ele pra aguentar as pancadas. Vãos ser dois profissionais que sabem que vão bater, que vão apanhar, e existem regras. Não vale golpe nas genitais, dedo no olho, puxão de cabelo, alguns tipos de cotoveladas. Se o atleta bater três vezes no chão o árbitro acaba a luta, pois é um sinal de que ele não aguenta mais. Então eu não acho violência porque são duas pessoas preparadas. Violência e covardia é o cara treinar artes marciais e sair na rua pra brigar com pessoas leigas, que não sabem lutar. Mas eu acho que a maior violência acontece no meio da sociedade, que é o trabalhador chegar em casa às 10 da noite e encontrar uma troca de tiros ou as pessoas precisarem de um atendimento médico e morrerem por omissão de socorro.

Você acha que a UPP vai chegar aqui na Vila Kennedy?

Eu acho que a zona oeste vai ter os últimos bairros pacificados. Eu vejo como uma estratégia do poder público. Todos os traficantes das áreas ocupadas pelas UPPs, Cantagalo, Mangueira, Morro do São João, estão se refugiando na zona oeste, principalmente na Vila Kennedy. A Vila Kennedy é um lugar onde vende muita droga e isso desperta a atenção de outras facções. Hoje estamos vivendo numa guerra urbana, não tem mais hora pra acontecer tiro e o policiamento é precário. Agora o porquê eu não sei, é o sistema. Eu acho que enquanto tá morrendo só moradores, o poder público não vai se manifestar. Eu não desejo mal a ninguém, mas tenho certeza que quando morrer um policial aqui dentro eles vão querer colocar uma unidade pacificadora. Será que vendo a comunidade sofrer já não basta? Tá nítido, todas as emissoras falam que a Vila Kennedy precisa. Mas eu acho que eles estão pensando muito nas Olimpíadas e na Copa do Mundo. Como aqui não tem nenhum estádio grande e não vai ter nada dos Jogos Olímpicos, estamos esquecidos. Mas todos nós, cidadãos civilizados e trabalhadores, pagamos pra ter uma segurança melhor.

Você tem algum ídolo nas artes marciais ou no esporte?

O Minotouro e o Minotauro, que entraram no complexo penitenciário sem preconceito nenhum e apostaram na minha recuperação. Hoje, aquela sementinha que eles plantaram na penitenciária Muniz Sodré deu frutos em dez penitenciárias. O projeto “Lutando pela vida” já tem sete egressos, ex-presidiários que estão vivendo das artes marciais. Eu lembro como se fosse hoje a gente batendo num saco de areia e pedra, revestidos por três calças jeans. Através do crédito que eles me deram, 500 homens estão tendo a oportunidade de serem salvos.  É por isso que eu tenho eles como ídolos na luta e de humanidade. Se você vir aqueles dois caras grandes, pesos pesados, vai achar que eles são monstros. Na verdade eles são amores de pessoas e são meus amigos. Eu acho que, se não fosse aquilo, a minha história poderia ser diferente.

Você acha que essa oportunidade dada na prisão mudou sua vida?

Eu recebi a oportunidade da minha vida dentro do sistema penitenciário. Onde eu pensei que tudo tava perdido, onde era o fim, realmente foi o começo. As pancadas que eu tomo no ringue, nenhuma delas são mais fortes que as pancadas que eu tomei da vida. Eu tomei muita pancada da vida e consegui me reerguer. Então não são as pancadas no ringue que vão fazer diferença. Ali é só um esporte, acaba, eu abraço o cara, ele me abraça. Eu quero me deixar como um exemplo de superação, Quando eu cheguei a dependência química, quando eu cheguei ao fundo do poço com 17 anos de prisão, quando falaram que eu era o pior dos homens, que eu era bandido e nunca ia deixar de ser, hoje eu mostro que tudo é possível.

Você passou muitas dificuldades dentro da Vila Kennedy, mas também deve ter tido momentos felizes. Qual é o lado bom de morar numa favela?

A minha mãe sempre falou: “Fábio, nós somos favelados, mas não é por isso que nós temos que ser porcos. Temos que ter higiene, temos que ser educados. Você tem que dá ‘bom dia’ quando entrar num lugar.” Essas coisas eu aprendi com a minha mãe dentro de uma favela, coisas que você vê algumas pessoas com curso superior não fazerem. Hoje eu chego no meio de juízes e desembargadores com um sorriso que eu aprendi dentro da favela. A humildade que eu tenho dentro de mim é porque eu sou favelado, sei as necessidades que todos passam e nem por isso a gente deixa de ser feliz. O favelado é um povo alegre porque as dificuldades ensinam que riqueza não tem nada a ver com felicidade. Se riqueza fosse sinônimo de felicidade eu não via noticiário na televisão que rico se suicidou, que deu tiro na cabeça, que toma remédio de tarja preta.

Você tem vontade de sair da Vila Kennedy pra morar em outro lugar?

Eu não tenho vontade de morar em outro lugar, mas acho que a vida pode me levar a isso. Mesmo assim eu nunca vou deixar de visitar a Vila Kennedy. As bases dos meus projetos sociais vão ser aqui. Nós temos exemplos de pessoas que saíram daqui, que ganharam dinheiro e fama e visitam a Vila Kennedy até hoje: o Toni Garrido e o André Ramiro, do Tropa de Elite. O Toni Garrido deu um depoimento dizendo que tirou a mãe dele daqui só porque a guerra tá demais. Se eu sair é pela falta de segurança. Imagina que a minha filha esteja brincando na rua e acontece uma bala perdida? Eu tendo condição, é claro, eu saio. Mas tudo que eu aprendi, como saber respeitar os outros, tratar o mendigo e o empresário igualmente, eu aprendi na favela. Eu não ia aprender isso se, de repente, eu nascesse numa família rica. Tem muitas famílias ricas que são exemplos de vida, que ajudam muita gente, mas eles não conhecem o valor da vida, nunca sofreram necessidade. A minha base é a Vila Kennedy, é a favela, eu jamais vou negar as minhas origens. Eu posso tá morando na Barra ou em Nova York, se alguém me entrevistar, eu vou dizer que essa minha humildade e o meu bom humor eu aprendi dentro de uma favela.

Disponível em: < http://acervo2.vivafavela.com.br/materias/quando-luta-domou-o-le%C3%A3o >
Acesso em: 05/11/2014

“Machuca” e a questão da igualdade na diferença

Posted in Cidadania, Cinema, Educação, Política & Políticos, Sociedade, Violência Urbana with tags , , , , , , , , , , , , , on abril 10, 2014 by projetomuquecababys

 

wellen-hericka   Hérica Wellen*

“Desde quando um branco é amigo de um índio?” Pergunta Silvana no seu característico tom desafiador. “Claro que pode ser. É possível.” Responde Gonzalo. A conversa entre Silvana e Gonzalo sobre a amizade do cavaleiro solitário Zorro e seu companheiro Tonto pode ser vista como uma tentativa de compreender como é possível a amizade deles próprios: Silvana, Gonzalo Infante e Pedro Machuca.

A liberdade da infância, que faz com que qualquer outra coisa seja secundária.

A liberdade da infância, que faz com que qualquer outra coisa seja secundária.

Gonzalo Infante (Matías Quer) e Pedro Machuca (Ariel Mateluna) tornam-se amigos pelas razões que fazem surgir as amizades verdadeiras: interesses comuns, personalidades parecidas e a liberdade da infância, que faz com que qualquer outra coisa seja secundária. O que surpreende nessa amizade é o fato de que essas crianças vivem em mundos completamente diferentes: Gonzalo é de uma família de classe média e vive confortavelmente num bairro nobre de Santiago, no Chile; Pedro, por sua vez, é de uma família extremamente pobre e vive numa casa de um cômodo, construída com pedaços de madeira e papelão.

Essa improvável amizade nasce no Saint Patrick, um colégio católico inglês, frequentado, tradicionalmente, pela elite chilena. Machuca passa a frequentar o colégio quando o reitor – Padre McEnroe (Ernesto Malbran), apoiado por parte dos pais de alunos daquela escola, oferece bolsas de estudo a crianças pobres, buscando uma aproximação entre as crianças que frequentam aquele colégio e aquelas que vivem na periferia do bairro.

Essa iniciativa não se dá arbitrariamente. Padre McEnroe e os pais que o apoiam, entre eles Patricio Infante (Francisco Reyes), pai de Gonzalo, estão vivendo um momento peculiar na história do Chile – o governo de Salvador Allende, que, ao ser eleito

Salvador Allende, que, ao ser eleito democraticamente para a presidência do Chile em 1970, buscou “um caminho chileno para o socialismo” e tomou medidas radicais para superar a desigualdade social naquele país.

Salvador Allende, que, ao ser eleito democraticamente para a presidência do Chile em 1970, buscou “um caminho chileno para o socialismo” e tomou medidas radicais para superar a desigualdade social naquele país.

democraticamente para a presidência do Chile em 1970, buscou “um caminho chileno para o socialismo” e tomou medidas radicais para superar a desigualdade social naquele país.

O filme “Machuca” (2004), conta, pois, a história dessa amizade nascida no ano de 1973; ano em que o governo socialista de Allende sofre ininterruptas sabotagens por parte de empresários chilenos, patrocinados pelo governo estadunidense, numa tentativa de desestabilização de seu governo; tentativa esta denunciada, em vão, por Allende na ONU. Diante da falta de alimentos no país, do aumento do “mercado negro” e do desemprego, a elite chilena passa a sair às ruas pedindo a saída de Allende; essas manifestações entram muitas vezes em confrontos com a população que defende o presidente, deixando o país à beira de uma guerra civil.

A despeito dos protestos e sabotagens da direita, em 1973, Allende é reeleito com 43% dos votos dos chilenos; resta, assim, a seus poderosos opositores, aplicar uma prática que se tornou comum na América Latina naquele período – instalar uma ditadura militar. Dessa forma, o governo socialista de Allende é derrubado pela ditadura sangrenta de Augusto Pinochet, que, durante dezessete anos, matou pelo menos três mil pessoas.

Dirigido por Andrés Wood, “Machuca” se passa nessa conturbada transição. Sem se descuidar de mostrar a violência desse momento, o diretor desenvolve a história com delicadeza e conta com atuações fortes e inesquecíveis, que, muitas vezes, dispensam as palavras.

Como esquecer o olhar de estranhamento de Gonzalo e Pedro, quando se deparam com as realidades tão distintas por eles vivenciadas? Como esquecer a cumplicidade desse mesmo olhar quando se reconhecem como companheiros ou a dor quando sabem que estão se olhando pela última vez? Como esquecer o olhar de desafio de Silvana (Manuella Martelli) frente a uma manifestação de direita? Ou o olhar de esperança de Juana (Tamara Acosta), mãe de Pedro, quando conhece Gonzalo e percebe, na nova amizade de seu filho, um prenúncio de um novo tempo?

Silvana é amiga de Machuca, mora na mesma área, e convive com uma realidade ainda mais difícil. Ela não frequenta nenhuma escola, pois precisa “cuidar de casa”, haja vista o abandono de sua mãe, e ainda ajudar o pai a ganhar algum dinheiro com a venda de bandeirolas nas manifestações, tanto nas manifestações de esquerda, que ela participa ativamente e feliz, quanto nas de direita, que participa a contragosto, pois garante algum dinheiro.

A amizade do trio se fortalece nas vendas de bandeirolas nas manifestações e nos beijos banhados a leite condensado que Silvana troca com os dois meninos à beira do rio. Se, para Pedro, esses beijos são expressões de sua nascente curiosidade sexual; para Gonzalo, eles têm o sabor de uma primeira paixão, que começa a ser correspondida pela altiva Silvana.

Essa paixão sofre um grande golpe, quando, numa das manifestações de direita, por culpa de Pablo (Tiago Correa), o namorado fascista da irmã de Gonzalo, Silvana tem uma séria desavença com Maria Luísa (Aline Küppenheim), mãe de Gonzalo. Essa é a primeira grande barreira que os três amigos enfrentam: a descoberta de que os mundos em que vivem são muito diferentes e se antagonizam; esse embate está arraigado nos que lutam pela manutenção desses mundos e naqueles que visam à sua superação e não há como suprimir esse confronto, porque aquele mundo, para se manter, precisa da dominação desse.

No entanto, esse ódio que predomina entre as classes, mesmo sendo insuperável, não elimina o amor que há entre as pessoas, mesmo que estejam em classes antagônicas. A relação fraterna entre os dois amigos aparece como um importante ingrediente humanista, sentimento que brota mesmo no solo infértil da propriedade privada. Gonzalo ama seus amigos; admira profundamente a coragem e a altivez de Pedro e Silvana. Nessa relação com seus amigos, ele experimenta sentimentos reais que deixou de reconhecer na sua própria família, que vive um momento de mentira e traição.

"Panelaços", uma forma de protesto usada pelos chilenos durante a ditadura militar do país (1973-1990

“Panelaços”, uma forma de protesto usada pelos chilenos durante a ditadura militar do país (1973-1990

Gonzalo testemunha o caso extraconjugal de sua mãe com Roberto (Federico Luppi), um rico empresário que divide sua vida entre Buenos Aires e Santiago e que, nos encontros com Maria Luísa, traz inúmeros produtos e presentes, não só para a amante, como também para o menino, a quem a mãe leva aos encontros. Gonzalo ama sua mãe, e é amado por ela, mas não deixa de sentir asco pela situação a que sua mãe o submete. O menino oscila, então, entre a dura realidade econômica da família de Machuca, e a veleidade de sua mãe.

No entanto, a maior barreira que se interpõe entre os amigos, não é feita de sentimentos, mas é a própria força policial que se instala na ditadura de Pinochet. A intervenção violenta na comunidade onde vivem Pedro e Silvana; e, ainda, a intervenção no colégio Saint Patrick, que se dá, principalmente, com a expulsão dos meninos pobres, daqueles que são filhos de pais comunistas, e com a destituição do Padre McEnroe, que protagoniza uma das mais comoventes cenas do filme, acabam por separar o que sentimentos autênticos haviam unido.

Há um momento do filme em que o pai de Pedro, Ismael (Luís Dubó), ao ser apresentado a Gonzalo por seu filho, cruelmente sentencia: “Sabe onde vai estar o seu amigo daqui a 5 anos? Começando a universidade. E você vai estar limpando banheiros. Em 10 anos ele vai estar trabalhando na empresa do pai. E você continuará limpando banheiros. E, em 15 anos, ele vai ser dono da

A família de Machuca e a dura realidade da classe operária no Chile da ditadura

A família de Machuca e a dura realidade da classe operária no Chile da ditadura

empresa do pai. E você? Adivinhe. Vai continuar limpando banheiros. E ele nem se lembrará de seu nome.”

Numa realidade injusta e desigual como a que se instaurou violentamente no Chile de 1973, é provável que a profecia de Ismael se realize parcialmente e que Gonzalo e Pedro sigam trajetórias extremamente distintas na vida; mas é também provável, e isso fica claro nas últimas cenas de Gonzalo no filme, que ele não esteja totalmente certo e que aquela amizade tenha gerados frutos que nem a força, nem o medo sejam capazes de destruir.

Ficha técnica

Nome: Machuca Nome Original: Machuca Origem: Chile e Espanha Ano de produção: 2004 Duração: 120 min Direção: Andrés Wood

 HÉRICKA WELLEN é Doutora em Educação pela USP.

Disponível em: http://espacoacademico.wordpress.com/2014/04/09/machuca-e-a-questao-da-igualdade-na-diferenca/ Acesso em: 10/04/2014

2013 in review

Posted in Cidadania, Cinema, Educação, Educação Especial, Fome, Intervenção Social, Política & Políticos, Sociedade, Uncategorized, Violência Urbana with tags , , , , , on dezembro 31, 2013 by projetomuquecababys

Principais Visualizações por País por todos dias terminando em 2015-09-22

País Visualizações
Sinal BrasilBrasil 33.410
Sinal Estados UnidosEstados Unidos 2.697
Sinal PortugalPortugal 603
Sinal AngolaAngola 464
Sinal MoçambiqueMoçambique 428
Sinal União EuropeiaUnião Europeia 182
Sinal FrançaFrança 48
Sinal JapãoJapão 45
Sinal Cabo VerdeCabo Verde 42
Sinal Reino UnidoReino Unido 36
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Sinal ArgentinaArgentina 32
Sinal ColômbiaColômbia 30
Sinal IndonésiaIndonésia 25
Sinal MéxicoMéxico 24
Sinal EspanhaEspanha 23
Sinal VenezuelaVenezuela 19
Sinal CanadáCanadá 16
Sinal ParaguaiParaguai 15
Sinal SuíçaSuíça 15
Sinal ItáliaItália 11
Sinal IslândiaIslândia 9
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Sinal QuêniaQuênia 8
Sinal RússiaRússia 8
Sinal PaquistãoPaquistão 7
Sinal ÍndiaÍndia 7
Sinal NoruegaNoruega 7
Sinal Arábia SauditaArábia Saudita 7
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Sinal NigériaNigéria 6
Sinal UruguaiUruguai 6
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Sinal TaiwanTaiwan 5
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Sinal Emirados Árabes UnidosEmirados Árabes Unidos 3
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Sinal DinamarcaDinamarca 2
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Sinal África do SulÁfrica do Sul 2
Sinal Macau, RAE da ChinaMacau, RAE da China 2
Sinal ZimbábueZimbábue 2
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Sinal Costa RicaCosta Rica 2
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Sinal FinlândiaFinlândia 1
Sinal SérviaSérvia 1
Sinal República TchecaRepública Tcheca 1
Sinal GréciaGrécia 1
Sinal Timor-LesteTimor-Leste 1
Sinal PanamáPanamá 1
Sinal Costa do MarfimCosta do Marfim 1
Sinal Burquina FasoBurquina Faso 1
Sinal GabãoGabão 1
Sinal Coreia do SulCoreia do Sul 1
Sinal AfeganistãoAfeganistão

Vozes Reveladas – Sarafina

Posted in Cidadania, Cinema, Dança, Educação, Intervenção Social, Política & Políticos, Sociedade, Trilha Sonora, Violência Urbana with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 18, 2013 by projetomuquecababys