Nenhum a Menos

Quando o professor da escola primária de Shuiquan tem de se ausentar durante um mês, o presidente da pequena aldeia, Tian, apenas consegue encontrar uma adolescente de 13 anos, Wei Minzhi, para o substituir. O professor Gao adverte-a para que não permita que mais alunos abandonem a escola, garantindo-lhe o pagamento de 50 yuan e mais um pequeno extra se for bem sucedida. Minzhi, pouco mais velha que alguns dos seus alunos (do 1º ao 4º ano, na mesma classe), pouco mais pode fazer do que escrever texto no quadro e ensinar uma ou outra canção. Mal a jovem professora se estreia, uma pequena aluna é convidada a ingressar numa escola de desporto e, quase de imediato, Huike, um dos miúdos mais difíceis de controlar nas aulas, é obrigado a ir trabalhar para a cidade, pois vive só com a mãe, que está doente e imersa em dívidas. Minzhi recusa-se a perder outro aluno. Adaptado por Shi Shiangsheng do seu livro.

No mesmo ano de «O Caminho para Casa/Wode Fuqin Muqin», Zhang Yimou realizou este «Yi Ge Dou Bu Neng Shao», ambos remetidos directamente para vídeo em Portugal, provavelmente devido a ter-se considerado haver falta de espaço no mercado para filmes com estas características. «Nenhum a Menos», a primeira produção do ramo asiático da Sony, a Columbia Pictures Film Production Asia, desenvolve-se também em redor de uma pequena escola primária no interior chinês, mas é um filme muito diferente d’ «O Caminho para Casa». Aqui não há romance e nunca deixamos o ponto de vista de Wei Minzhi, cuja única preocupação é cumprir a sua função de professora, durante um mês, e, posteriormente, encontrar Huike, perdido algures na cidade.

Aulas
Wei Minzhi tenta fazer-se respeitar.

Zhang cria uma obra naturalista, num estilo documental, em que a câmara se comporta como um observador imparcial. A banda sonora está quase despida de música; os sons que ouvimos são passos, diálogos, sobre um fundo de ruídos do campo ou o barulho do trânsito e da azáfama citadina, na segunda parte do filme. A música não está ausente de todo, algumas peças assinadas por San Bao marcam presença, em meia dúzia de momentos dramaticamente relevantes. Mas este realismo social é obtido sobretudo através da escolha do elenco, não só constituído por amadores, mas recorrendo a pessoas que exercem funções idênticas ou similares às das suas personagens e que usam aqui o seu nome verdadeiro.

Esta “não-representação” poderá contribuir para que a primeira parte do filme pareça demasiado lenta e possa demorar a captar o interesse do espectador, mas, à medida que a acção se desenrola e as dificuldades de Minzhi aumentam, ficamos cada vez mais imersos na história. Seria interessante tentar imaginar qual o resultado se Zhang tivesse contratado actores “a sério”. Melhor, pior, indiferente? Tendo em conta a história que aqui se conta e o problema económico-social ilustrado – i.e., apesar do gradual desenvolvimento económico e da melhoria do sistema educativo na China, pequenas aldeias isoladas têm ainda dificuldades de aceder ao progresso, neste e noutros campos – o método de representação constitui uma boa opção de Zhang, que assim consegue um eficaz casamento entre o drama sócio-realista e o documentário.

Espera

Por outras palavras, num filme de acção, dificilmente aceitaríamos que um actor caminhasse dois passos a olhar para o chão, para acertar com a marca onde deve debitar as suas linhas de diálogo, mas aqui tal passa despercebido, tal como a falta de à-vontade da generalidade dos participantes. No fundo, é como se fossemos levados aos locais onde a acção decorre, e assistíssemos a acontecimentos não manipulados. Algumas cenas, por exemplo, quando Minzhi, na cidade, pergunta onde fica uma rua, foram filmadas sem encenação: captadas a uma certa distância, com a miúda algo atrapalhada a ser rodeada por algumas pessoas, hesitando se hão-de ou não ajudá-la. Este naturalismo remete para outra obra de Zhang, «Qiuju Da Guansi» [Story of Qiuju] (1992), onde Gong Li – a personagem que dá nome ao filme – se desloca da sua casa no campo e caminha, perdida, pelas ruas da cidade. Outra das semelhanças é a recusa das duas personagens em desistirem antes da realização dos seus objectivos.

Com este material, poder-se-ia questionar se os dois ou três momentos em que se requer a expressão de alguma emotividade por parte dos pequenos actores, não destoaria do “documentarismo” reinante; isto é, será que emoções (por nós apercebidas como ficção encenada), se adequam a um filme que apresenta um naturalismo apático das performances e filma, à distância, os actores a moverem-se na cidade e a interagirem com o cidadão comum? É difícil dizer se Zhang extraiu o pleno das emoções dos actores não profissionais ou se recorreu a práticos conta-gotas, mas, de qualquer das formas, esses momentos inserem-se num fluxo de acontecimentos, fazem sentido e transmitem-se ao espectador, que por essa altura está interessado no culminar da aventura na cidade da jovem professora e já se abstraiu da componente documental, que domina o filme durante o primeiro acto, na aldeia.

Viagem

«Nenhum a Menos» demonstra claras preocupações sociais, relativas às condições da interioridade na China moderna, patentes sobretudo no texto apresentado no final do filme, mas essa “lição” coabita eficazmente com a narrativa cinematográfica e não se mete no seu caminho. O tema escolhido e a forma que o revestiu não levantaram problemas as autoridades chinesas, como aconteceu com outras obras de Zhang, que abordaram temáticas político-sociais mais sensíveis. Quando o filme foi excluído da Selecção Oficial de Cannes 99 (e inserido na “alternativa” A Certain Regard), a decisão foi mal recebida pelo realizador, que afirmou: “Parece que no Ocidente, existem sempre dois critérios na interpretação de filmes chineses; ou são ‘anti-governo’ ou ‘representam propaganda governamental’. Isto não é aceitável.” Assim, o realizador decidiu retirar os seus dois filmes que eram para ser exibidos no festival; este e «O Caminho para Casa». «Nenhum a Menos» viria a ganhar o Leão de Ouro em Veneza.

Disponível em: http://www.asia.cinedie.com/not_one_less.htm
Acesso em: 25/06/2013

3 Respostas to “Nenhum a Menos”

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