O Grande Desafio

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Melvin Tolson (Denzel Washington) é um professor universitário, no segregado Texas de 1935, que inspira os seus alunos e decide apostar neles para criar o primeiro time de debate universitário formado por estudantes negros. Com ótimas atuaçõs de Forrester Whitaker no papel do lendário Pastor James Farner, submisso à conjuntura racista de pequenos fazendeiros locais, mesmo sendo um dos primeiros negros com graduação em PhD em universidade nos EUA e falante de sete línguas, fato que pertubava a genialidade do filho James Farner Jr. (Denzel Whitaker), universitário e debatedor com apenas 16 anos.

O filme, “O GRANDE DESAFIO”, com direção de Denzel Washington e a presença de Oprah Winfrey na produção executiva, é um achado para aqueles que militam por novos rumos em que a educação seja o norteador de caminhos para a visibilidade da juventude negra do Brasil; tanto quanto para aqueles que vêem na dramaturgia pontes para questionamentos ou espelhamento para as trocas interpessoais sadias em contextos antagônicos pelas questões da desigualdade de direitos. O performance dos atores é uma passeio na autoestima quando cumpre a tarefa de abordar temas da trajetória dos afro-americanos na luta por seus direitos civis. A dupla atuação de Denzel nos remete a Malcolm X, principalmente, e toda uma concepção de diretores negros como Spike Lee entre os tantos que fazem com maestria a narrativa cinematográfica de décadas de sofrimento, todavia pautadas pela quebra de paradigmas da capacidade intelectual pela ótica das ações afirmativas e a contra-argumentação na desconstrução de conceitos sobre racialidade no embate com teorias, pressupostos, hipóteses embasados por literatura eurocêntrica.

Baseado em fatos reais, o filme reconstrói o projeto do professor Tolson através da lentes hollywoodiana para a narrativa que nos dá a dimensão do caminho a ser percorrido na preparação e consecução desse tipo de atividade acadêmica. Para trabalhar o emocional do seu time o professor pede que recitem exaustivamente o texto:

“Quem me julga é Deus.  Ele é quem decide quem ganha e quem perde. Não o meu adversário. Meus adversários não existem, porque são só vozes que discordam da minha verdade.” Falemos a verdade.

Destaque para o aluno Henry Lowe (Nate Parker), que mesmo com história de infância com criminalidade e a condição de ex-detento conseguia ver na leitura  e na solidão do passeio de barco nos alagados (swamps) o retiro espiritual para a fuga de seus dilemas pessoais entre a simplicidade e os prazeres da vastidão mundo. A presença femenina da atriz Jurnee Smollett no papel da emotiva Samantha Booke registra a força da mulher negra afro-americana ladeando a representatividade masculina nos debates de temas que definem o estilo de vida americano. Logicamente, a rebeldia inata destes confronta os valores de militância do mestre, que vê nessas atitude uma virtude e ao mesmo tempo um ponto negativo a ser trabalhado. Aos pouco o filme vai revelando um lado obscuro na personalidade do Sr. Tolson, que logo no inicio do filme aparece repentinamente travestido de morador local em um bar nas região pantanosa para livrar o seu pupilo de cometer mais um crime. Numa das cenas de desafio pelo jovem Henry ele o rebate com a explanação de fatos que deu origem a palavra linchar:

Palavra originária do sobrenome Lynch de um dono de escravos nas Ilhas Antilhas, muito conhecido no universo escravocrata pelos seus métodos de combate à insurreição de escravos. Contratado por fazendeiros da Virgínia, sul dos Estados Unidos da América, pelo que seu modo tinha de simples e diabólico para conter negros fortes, inquietos e malvados.

Qualquer verosemelhança com as barbáries da modernidade do século XX e os relatos na imposição do poder pela coação nos micro e macro espaços da presença negra em submissão, “reféns do medo”, ou seja, o Sr. Lynch  do nosso tempo corta na própria carne. A técnica do Sr. Lynch consistia em:

Depois da barbárie para exemplo dos demais, dê golpes e chicotadas quase até a morte, mas não mate os negros que sobraram. Incuta-lhes o medo de Deus, pois eles podem ser úteis no futuro. Mantenha os escravos fisicamente fortes, mas psicologicamente débeis e dependentes do dono, isto é, “mantenha o corpo e remova a mente“.

Com trilha sonora recheada de Lind Hop ou Charleston, versão afro-americana do nosso Sambarock. Aquele abraço e a sugestão para a galera ning – “Amo Sambarock”- Feira Black. Não sei porque, mas as entrelinhas dos temas debatidos sugerem algo de Paulo Freire. Talvez influenciado pela própria filmografia, a câmera do diretor Denzel procura retratar com fidelidade a trajetória de 10 anos do imbatível grupo de alunos negros da Universidade Wiley do Texas, como também trazer ensinamentos do passado na temporalidade defasada de processos e ações afirmativas para irmãos afrodescendentes ainda na formatação de estratégias em que a educação seja o alicerce de novos paradigmas para as relações étnico-raciais no plano de trocas interpessoais sadias em espaços de formação acadêmica nos vários níveis e modalidades.

O primeiro embate com o racismo acontece em Oklahoma, com o Tema: “Negros devem ser admitidos nas Universidades Estaduais”, fora do ambiente universitário. No plano de ação da sua proposta de outros pontos de vista para o exemplo de um projeto de visibilidade para as reivindicações de novas relações intramuros de universidades  segregadas o diretor procura mostrar o passo a passo de um bom estrategista quando o grupo aceita debater fora do espaço acadêmico. A insegurança diante do quadro pré-concebido é substituída aos poucos pela eloquência em torno do feito de W.E.B Dubois, o primeiro negro com formação em PhD pela Universidade de Harvard. A debatedora cita a percepção da dissidência quanto a política segregacionista de alguns estados sulista ao mencionar a primeira página do jornal New York Times de 1925 com a matéria de que o “N” de negro seria maiúsculo dali em diante. Na réplica o representante local faz  o velho discurso da provocação do ódio racial entre negros e brancos motivados pela presença negra em universidades brancas, e que provavelmente a cognição destes seria afetada por forças psíquicas de um ambiente circundado pelo “ódio entre raças”. Dubois é citado como exemplo de superação pelos pelos debatedores locais, porém que o tema em questão deveria aguardar “ad infinito”. Obviamente contestado, a debatedora da Universidade Wiley contra-argumenta:

 Enquanto as escolas forem segregadas os negros receberão uma educação distinta e desigual, ou seja, seria gasto mais cinco vezes com livros para crianças brancas do que na educação de uma negra. Significa melhores livros para uma do que para outra. Portanto, se depender do estado de Oklahoma este dia acontecera nunca, e que o tempo para a justiça, a liberdade e a igualdade é sempre agora.

Enfoques como o aumento da autoestima de toda América negra, trocas interpessoais entre negros e brancos movidas por interesses diversos da luta sindical, e tantas outras colocações retratantes deste momento de confrontação na sociedade americana vai sendo montado quadro a quadro para a heteropercepção do nosso tempo. Atrás da câmera conduzindo outros atores ou quando na frente da  câmera o diretor Denzel Washington  tratamento das questões raciais que imprime a sua obra cinematográfica e faz desta  uma linda leitura de engajamento  no orgulho racial ao evocar o simbolismo e a concretude nos passos trilhados pela coletividade negra estadunidense para driblar os impedimentos legais e ilegais da sua autonomia como cidadão na defesa dos seus pontos de vista, em consonância com teses teses que sustentam a relação triádica entre língua, cultura e identidade, na própria historicidade de conquistas no plano da referência acadêmica negra tanto quanto aqueles referidos  pelos aspectos cognitivos de cânones que sustentam-se em literaturas trazem ao discurso ideológico pelo que irradiam de valores que não relativizaram  as culturas periféricas. Portanto, a miopia do passado tem que ser substituída  por estratégias que não se sustentam apenas na subjetividade narrativa da historicidade, mas que também se estabeleçam em  fundamentação que se sustenta em bases científicas, sociais e filosóficas orientadas por fins acadêmico-investigativos.  A vida em rede para o conhecimento circulante  de um tempo em transição  para a inteligência coletiva e as possibilidades infinitas da intertextualidade multissemiótica, ora consumada pela capacidade de mobilização e poder de persuasão, como exemplo do uso das novas linguagens comunicacionais que elegeram o primeiro presidente negro dos EUA, não coadunam com o privilégio de alguns para a manipulação de informação no passado presente dos espaços de poder da classe dominante.   O gran finale contra  Harvard tem com Tema: “A desobediência Civil é uma Arma Moral na Luta pela Justiça”. De um lado o primeiro representantes de Wiley inspirados no poder das palavras da não-violência de Ghandi, que buscou inspiração no filósofo abolicionista Henry David Thoreau, uma exemplar aluno de Harvard versus as referências ao patriotismo mesmo que diante dos números de 240 jovens mortos diariamente nos combates da primeira guerra mundial. No segundo de Wiley vem a vitória com a menção da frase de Santo Agostinho: “Uma lei injusta não é uma lei” como base argumentativa do sofrimento negro ante a segregação racial que linchava, queimava segundo valores dicotômicos de justiça, o que implica o direito, até mesmo, o dever de resistir com violência ou desobediência civil; ficando a segunda como possível opção na interrogação da obra cinematográfica de Denzel Washington.

Ficha Técnica 

 Título Original: The Great Debaters
Elenco: Denzel Washington – Mel Tolson, Forest Whitaker – James Farmer, Kimberly Elise – Pearl Farmer, Jurnee Smollett – Samantha Booke, Nate Parker – Henry Lowe, Denzel Whitaker – James Farmer Jr., Jermaine Williams – Hamilton Burgess, Gina Ravera – Ruth Tolson, John Heard – Xerife Dozier
Gênero: Drama
Duração: 123 min
Direção: Denzel Washington
Roteiro: Robert Eisele
Produção: Todd Black, Kate Forte, Joe Roth, Denzel Washington, Oprah Winfrey

Leitura Complementar

SambaFunk
Agradecimentos a Nonô & Cia pela aula de Brasilidade. 


DJ BATATA
Mas uma aula da criatividade da juventude negra brasileira reunindo os passos do samba de gafieira, charm e hip hop ao som da trilha sonora desse cara respeitadíssimo no mundo do Funk e com sensibilidade para ultrapassar fronteiras dos ritmos e criar algo tão belo para os olhos e ouvidos do Brasil e do mundo.

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10 Respostas to “O Grande Desafio”

  1. Al-salam sadiqui
    Gostei Muito do artigo,lutaremos sempre pelos nosso direitos,e o mundo precisa saber que somos um diante de Deus,vivemos no mundo onde a segregação ainda tm faldo alto,mas creio que não como antes,porque tem pessoa como vc e eu lutando sempre.
    Continuaremos nessa luta.

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  2. Daiana Abtis Says:

    Um dos melhores filmes que assisti, sou estudante de Direito e acredito que o papel dos alunos defendendo através do debate é essencial para começar a transformar a mentalidade das pessoas. Começando a tirar esse mal denominado preconceito racial da mentalidade de estudantes universitários e do mundo em geral.

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  3. Appreaciate for the work you have put into this post, it helps clear away a few questions I had.

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  4. […] Quem me julga é Deus.  Ele é  quem  decide  quem ganha  e  quem perde. Não o meu adversário. Meus adversários não existem, porque são só vozes que discordam da minha verdade. Falemos a verdade.
    (Denzel Washington – O Grande Desafio) […]

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  5. Parabens pela Plasmagen ^^

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    • projetomuquecababys Says:

      Oi Robson,

      Devemos vivenciar a experimentação, analisar, manter o espírito crítico e, assim, posicionar-se no mundo. O tema forma-pensamento não é novo, a manipulação da forma-pensamento para uso próprio é praticamente exclusivo. Considerações mais recentes no campo da física conduzem a idéia de fenômeno “não-local”. Para uma melhor compreensão, é necessário definirmos, primeiramente o que seja um fenômeno “local”. O princípio da localidade é explicitado como tudo o que acontece na dimensão espaço-temporal conhecida, isto é, no nosso âmbito normal de atuação. Todavia, inclusive nesta nossa dimensão limitada, alguns fatos interessantes ocorrem. A Teoria da Relatividade desenvolvida por Albert Einstein, por exemplo, prediz que para um objeto, quando é acelerado a velocidades próximas da luz, o tempo tende a parar. Isto mesmo! Quanto mais rápido, mais vagarosamente o tempo passa. Em outras palavras, o tempo flui em velocidades diferentes, dependendo da situação.

      Nos casos de não-localidade, o fenômeno ocorre fora do espaço–tempo conhecido. Assim, a limitação de velocidade deixa de existir, como indicam alguns experimentos. A consciência humana estaria situada entre os fenômenos “não-locais”. É claro que nem todos os cientistas compartilham da mesma idéia.

      Poderíamos, talvez, dizer que a ação do pensamento, que nada mais é do que transferência de informação, seria capaz de, agindo nos fenômenos quânticos responsáveis pela manutenção da matéria, trabalhar para a elaboração dos corpos materiais a partir dos fluidos ambientes. É importante salientar que o tempo de duração de determinada criação estará relacionado com a intensidade da vontade que se imprimiu ao fluido.

      Provavelmente, quando o homem tiver atingido um estado de conhecimento suficiente para o entendimento dos fenômenos “não-locais”, estaremos mais próximos do reconhecimento científico generalizado da existência do espírito. Creio que a humanidade necessita se conscientizar da situação de sua existência e criar maior responsabilidade sobre seus atos, principalmente sobre o que pensa. Se o leitor vai fazer bom ou mal uso deste ensinamento é um problema dele. O avião foi inventado com bons propósitos, no entanto, foi utilizado para a
      guerra. Com o tempo, o homem descobrirá que a destruição não leva parte alguma. O desafio não é a conquista de territórios ou bens, e sim, a conquista de si mesmo.

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