Invictus – A Alma Invencível


By Hiram Firmino

A gente sai do cinema não acreditando que ainda haja seres humanos assim. Após passar quase três décadas na prisão, humilhado, discriminado e segregado pelo apartheid, e antes de ser eleito presidente da África do Sul, quando milhões de negros esperavam que Nelson Mandela liderasse a vingança contra os brancos, ele os surpreende, dizendo: “Peguem suas facas, armas e facões e joguem tudo no mar. O dia pelo qual os sul africanos negros tanto lutaram finalmente chegou. Pela primeira vez, poderão exercer seu direito de voto junto com os brancos.”

E, na posse, os convida a sonhar um outro sonho juntos: “Eu, Nelson Rolihlahla Mandela, juro ser fiel à República da África do Sul. Nunca, nunca e nunca mais, essa linda terra experimentará de novo a opressão de um sobre o outro e sofrerá a indignidade de ser a escória do mundo”.

No seu primeiro dia como presidente, ao chegar a seu gabinete e perceber todos os funcionários brancos, contratados que foram pelo regime segregacionista anterior, ressabiados com o destino que os aguardava, Mandela convoca uma reunião informal. E os tranquiliza, com a humildade convocadora de um nobre: “É claro que se quiserem ir embora, vocês estão no seu direito. E se sentirem em seus corações que não poderão trabalhar com o novo governo, então será melhor irem imediatamente. Mas, se estiverem partindo por temer que a sua língua ou a cor de sua pele, ou se pensam que ter trabalhado para o regime anterior os desqualifica a continuar, estou aqui para dizer que não temam. O passado pertence ao passado. Estamos olhando o futuro, agora. E precisamos da ajuda de vocês. Queremos a sua ajuda. Se quiserem ficar, estarão prestando um grande serviço ao seu país. Tudo o que peço, é que façam seu trabalho com capacidade e boa vontade. Eu prometo fazer o mesmo”.

Momentos depois, ao ver que Mandela tinha mantido o serviço de segurança pessoal do governo anterior, só com  homens brancos, um de seus companheiros negros se revolta: “Mas… não faz muito tempo, senhor presidente, esses caras tentavam nos matar!”. Ao que Mandela responde, dizendo que todos tinham de trabalhar juntos e sem preconceito: “A reconciliação e o perdão também começam aqui. O perdão liberta a alma. Afasta o medo. Se conseguirmos isso, o nosso país será uma luz brilhante no mundo”.

Ao defender a tradição do jogo de rúgbi, esporte nobre trazido pelos ingleses, e ainda pedir para os seus compatriotas torcerem para o Springboks, que era o time dos brancos, Mandela explicou a razão maior que o inspirava ante o ódio generalizado da população negra: “Na Prisão Pollsmoor, em Robben Island, todos os meus carcereiros eram brancos, afrikaners. Durante 27 anos, eu os estudei. Aprendi seu idioma, li os seus livros, a sua poesia. Precisava conhecer o meu inimigo, antes de poder superá-lo, triunfar sobre ele. E nós triunfamos, não foi? Todos nós aqui triunfamos. O nosso inimigo não é mais afrikaner. Eles (os brancos) são nossos compatriotas, nossos parceiros na democracia. E eles prezam o rúgbi, o seu time Springboks. Retirando isso deles, iremos perdê-los. Provaremos ser aquilo que eles temiam que fôssemos. Temos de ser melhores que isso. Temos de surpreendê-los com compaixão, moderação e generosidade”.

Aos que ainda tiveram dificuldade de entendê-lo, Mandela acrescentou: “Eu sei tudo o que os brancos nos negaram. Mas não é a hora de celebrarmos uma vingança trivial. Essa é a hora de construirmos a nossa Nação, usando cada tijolo disponível, mesmo que venha embrulhado nas cores do time deles. Afinal, vocês me elegeram como seu líder. Deixem-me liderálos!”

Mandela acabou convencendo a Confederação SulAfricana de futebol a aceitar o jogo de rúgbi. Menos a sua secretária particular, que também era negra: “Desculpe, presidente, mas temos problemas em toda parte.  Habitação, comida, emprego, crimes… o senhor não pode interromper assuntos de Estado para contentar uma minoria revoltada com  a manutenção deste esporte!..” “Essa minoria”  respondeu Mandela  “ainda controla a polícia, o exército e a economia. É um jogo de cintura humano”. E se referindo novamente aos brancos completou: “Se retirarmos o que eles estimam, o seu time, o seu hino nacional, fortaleceremos o ciclo de medo entre nós. Farei o que for preciso para romper esse ciclo. Ou ele irá nos destruir.”

O segredo  Um dos pontos altos do filme é quando ele confidencia ao capitão do time dos brancos, interpretado pelo ator Matt Damon, como conseguiu passar 27 anos preso sem cair no desânimo, na depressão e desejar a morte. “Precisamos de inspiração para liderar os outros. Em Robben Island, quando as coisas ficavam ruins, eu encontrava inspiração em um poema. Um poema Vitoriano. Apenas palavras. Mas que me ajudaram a levantar quando tudo o que eu queria era me deitar”.

Este é o poema vitoriano “Invictus”, escrito em 1875 pelo inglês William Ernest Henley, que dá nome ao filme e  faz  a gente sair do cinema com ele ainda ecoando na memória:

“Pela minha alma inconquistável, nas garras das circunstâncias eu não recuei e nem gritei. Sob os golpes do acaso, minha cabeça está sangrando, mas não abaixada. Além deste lugar de ira e lágrimas, só surge o horror da sombra e ainda a ameaça dos anos. Encontra e me encontrará sem medo, não importa quão estreito seja o portão, como é cobrada a punição do que está escrito. Eu agradeço a qualquer Deus que exista pela minha alma inconquistável. Minha alma é invencível. Eu sou o capitão do meu destino. Eu sou o capitão da minha alma”.

http://www.revistaecologico.com.br/materia.php?materia=MjM1&edicao_id=51

Diretor: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Scott Eastwood, Langley Kirkwood, Robert Hobbs, Tony Kgoroge, Jason Tshabalala, Bonnie Henna, Grant Roberts, Patrick Holland, Patrick Mofokeng, Moonsamy
Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Lori McCreary, Mace Neufeld
Roteiro: Anthony Peckham
Fotografia: Tom Stern
Trilha Sonora: Kyle Eastwood , Michael Stevens
Duração: 133 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Drama
Distribuidora: Warner Bros.
Classificação: 10 anos

3 Respostas to “Invictus – A Alma Invencível”

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