A Educação, o Movimento e o Corpo Repetente

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Lendo a postagem do professor Rudá Ricci[1]: O Conceito de Qualidade na Educação, onde questiona as mesas de debates, debates e debates; como se a saída para a educação fosse questão circunscrita à disputa de opinião pública, de mera formação de opinião. Segundo ele, Hannah Arendet sugeria que a função da educação é a humanização. Ou seja, a inserção dos educandos na humanidade, conformada por experiências plasmadas na linguagem, na escrita, na música, nas artes, já que o processo educativo envolve muito mais que avaliações meramente quantitativas focadas no educando. Envolve um consórcio de professores e educadores que contribuem para a formação cotidiana do educando. Envolve o impacto de pais que se têm hábito de leitura ou práticas esportivas estimulam que seu filho acolha o exercício de leitura e o esporte. Algo que se estudou e comprovou desde os anos 30 do século passado. Ao comentar a postagem de um membro do grupo a respeito em sua postagem, comenta:

Nossos cursos universitários não sabem ensinar a ser professor, pelo simples fato de que as universidades estão muito longe do espaço escolar. A universidade se transformou num espaço fechado, autorreferente em que um jovem termina a sua graduação e já ingressa no mestrado, saltando para o doutorado e prestando concurso para dar aula na universidade. Torna-se professor sem nunca ter entrado numa sala de aula de ensino fundamental ou médio. Conhece apenas pesquisa e livros. Esta cultura livresca não tem relação alguma com a dinâmica de um espaço escolar, absolutamente dinâmico, marcado por sub culturas (na linguagem dos estudos recentes), onde há um evidente confronto entre intenção escolar e hábitos comunitários e familiares (aliás, de famílias cada vez mais monoparentais).

 A lição de casa (ou tarefa, ou para casa, ou do Estado) e aulas de reforço é uma prova de como a receita é absolutamente anacrônica para uma realidade social que não comporta este resquício do início do século passado. A relação educação-trabalho não envolve apenas a visão empresarial. A educação é um processo auto reflexivo, que lança mão da experiência humana. Por este motivo é que é um ato de escuta e reflexão. Lemos e estudamos para saber o que outros pensaram, criando uma cadeia que envolve o indivíduo com a sua espécie. Educar é um ato humanístico, portanto.

Num cenário de reféns do medo, terreno fértil para a parafernália de Big Brother diuturnamente observando o cidadão comum, e, da legião de crianças sedentárias na aparente segurança e conectividade com o mundo exterior proporcionado pela comodidade da acessibilidade ao universo web, quando não, nos poucos movimentos programados de shoppings, playground e escola. Por outro lado  o fenômeno da violência direta ou indiretamente acaba interferindo na liberdade de movimento dos espaços comunitários, ainda no conflito de poderes, provocando as preocupações diárias que assolam o imaginário de mães zelosas no seu papel de provedora de lares na carência de qualificação profissional ou na descontinuidade de boa vontade do poder público e da rede de ajuda que não se faz presente integral ou efetiva para a ausência ou complemento de um quadro em que se pode deslumbrar estatísticas. Onde as marcas da violência são a referência na ponta de desdobramentos do tempo de estudo mínimo para um mercado de trabalho exigente e excludente apontando o caminho da informalidade nas funções do tráfico de drogas como uma das opções na atual realidade de filhos oriundos de famílias monoparentais, e o contexto social necessário a transmissão intergeracional de vidas precárias, por exemplo. Muitos são os projetos sociais que dimensionam a educação como parte integrante do potencial comunitário, emulando em suas crianças o precoce gosto por atitudes cidadãs através de atividades corporais e culturais que não fazem parte do repertório da favela, mas que direta ou indiretamente pode se beneficia,  mesmo que na excepcionalidade de talentos revelados para a circunscrição de uma nova realidade com os estímulos necessários aos processos cognitivos na cosstrução de  habilidades e competências para a leitura de um mundo tecnológico, principalmente.

A Teoria Sociocultural procura explicar o crescimento do conhecimento, do desenvolvimento e das qualificações individuais em termos de orientação, do suporte e da estrutura que a sociedade oferece. A modificação social no decorrer do tempo resulta de efeitos cumulativos das escolhas individuais. Observe a influência bidirecional da cultura e das pessoas: as pessoas são afetadas pela sociedade, mas eleas também modificam a sociedade. A tese básica da Teoria sociocultural é que o desenvolvimento humano é resultante da interação dinâmica entre as pessoas em desenvolvimento e a cultura em que vivem. Os teóricos socioculturais mencionam as muitas pelas quais as crianças aprendem com os pais, os mestres e os colegas, no lar, na escola e em seu bairro. Mas também olham além disso, para os modos como a educação e a aprendizagem são modeladas pelas crenças e metas da comunidade. E olham ainda mais adiante, para os meios pelos quais essa aprendizagem afeta continuamente todo o desenvolvimento – dos indivíduos de todas as idades, da família em cada coorte e do grupo étnico em cada local (BERGER, Kathleen Stassen. O Desenvolvimento da Pessoa Humana – da Infância à Terceira idade, Rio de Janeiro/Petrópolis, 2003 LTC Editora, p.33)

O aprendizado acima diz sobre o aprendizado nascido da interação social e não de um estudante obtendo conhecimento por si mesmo ou de um professor pondo no papel aquilo que ele sabe. Nem o estudante nem o professor são passivos; uma pessoa sempre aprende com outra, por meio de palavras e atividades em que  se envolvem juntas, ou seja, os adultos

 aprendem com as crianças e vice-versa, e todos aprendem tanto com seus iguais como com indivíduos mais velhos ou mais novos, como acontece nas sociedades tecnológicas em que as gerações mais velhas muitas vezes têm de aprender a partir das inovações de uma coorte mais jovem (Ibidem p. 33, 34). O que nos dá uma dimensão das troca sociointeracionistas para o quadro da aprendizagem nascida das realidades dos bolsões de pobreza, em que o tempo passa e poucas mudanças sociais ocorrem, onde maioria da lições aprendidas na infância vale por toda vida, e deixando a comunidade em patamares de sociedades tradicionais pela pouca rotatividade e diversidade cultural, social e econômica e todo o repertório que molda o contexto cultural, que por n fatores da falta de investimento em políticas públicas que poderia gerar talentos exponenciais e desmistificar a lógica de excepcionalidade vigente, já que esta é uma prova cabal de que o futuro da nação será o grande beneficiário se dados os estímulos necessários ao afloramento de potencialidades em jovens egressos da comunidade, em qualquer área de excelência pessoal, pelo que esta tem de material humano a espera do passaporte para os projetos de governantes que almejem novas posições no ranking de economias representativas de uma nova ordem das  sociedades tecnológicas com fortes influências multiculturais, indiferente às avaliações de pseudo verdades do pensamento livresco versus sub cultura da nossa eterna formação sociocultural e os seus artifícios para manter a verticalidade do conhecimento no cenário de vidas precárias que se perpetua e realimenta os velhos temores para o uso dos instrumentos coercitivos necessários ao establishment.

Muitos são os caminhos para uma nova consciência do valor das manifestações culturais nascidas do universo comunitário que, por miopia daqueles que ditam as regras do que é cultural ou não continuamos a conceber valores do que é cultural como aquilo que é importado do primeiro mundo, enquanto os estrangeiros deste primeiro mundo vêm beber nas águas do nosso multiculturalismo para o constante aquecimento de modismos que nos retornam travestidos com um toque imperceptível de brasilidade para olhos insensíveis a riqueza tupiniquim camuflada que desce na verticalidade livresca para consumidores menos vorazes de um mundo que aos pouco descobre o seu braço dissidente antenado na fala e escrita de  novos formadores de opinião para o “junto e misturados” das manifestações culturais populares e de movimentos sociais que contribuem-se mutuamente na problematização das mazelas sociais imperceptíveis a antolhos do pragmatismo que desconhece do quanto os processos conectivos trazem de novos paradigmas a partir da horizontalização da acessibilidade aos equipamentos culturais necessários ao movimento ascendente na linha das estatísticas de violência que estampam a primeira página dos jornais ou ao vivo e em cores para enquadramento de mães chorosas da e na realidade  nua e crua de nossos telejornais diuturnamente.

Rio de Janeiro é o que é pelos símbolos que são a cara da cidade maravilhosa, tanto para o bem quanto para o mal, dependendo da lógica do observador. Quando se pensa em carnaval nos vem a maior festa do planeta. Mas nos bastidores dessa grande festa, muitos são os questionamentos do quanto pode ser feito pelo profissionalismo e participação no lucro daqueles na informalidade da industria do carnaval e suas cifras em retorno para aqueles nos processos organizados da cadeia produtiva e do quanto não há reconhecimento dessa manifestação cultural com a vida comunitária, ou seja, são as crias do morro os verdadeiros donos da festa: passistas, portas-bandeira, mestres-salas, ritmistas, comissões-de-frente movidos pelo amor à agremiação, enquanto o retorno fica na interrogação de ações pontuais de menor vulto direta ou indiretamente revertido para a comunidade em termos de compromisso pessoal, responsabilidade social de uma organicidade onde a filosofia do lucro pelo lucro impera na contabilidade final do que foi arrecadado ou os anfitriões da avenida não são merecedores da participação no lucro da Industria do Carnaval S. A?

 A princípio soube a respeito através da boca miúda, mas agora na certeza da notícia veiculada pela imprensa local posso linkar a matéria sobre a louvável iniciativa do Prefeito Eduardo Paes em criar um espaço na Praça XI, onde está localizado o Terreirão do Samba; nos moldes do Espaço Cultural para a Tradição Nordestina, a famosa Feira de São Cristóvão, só que voltado para as tradições do mundo do samba. Portanto, é preciso um novo olhar para a contribuição da comunidade pelo que ele evidência do uníssono de milhares de vozes cantando o samba-enredo e ao mesmo tempo celebrando a sua condição parte integrante da “cidade maravilhosa”; é quando o asfalto e a favela travestem-se nas cores da escola de samba do coração como se num armistício com hora e data para iniciar e terminar segundo os dias de folia, que encanta pelo que a avenida faz com a rotina de medo do dia a dia, ora transformado no grande palco da passarela do samba na riqueza de personagens para cidadãos comuns ao longo dos cenários que se desenvolvem pela avenida ao som da trilha sonora na cadência de surdos, agogôs, tamborins e cuícas conduzidos, não pela batuta, pelo apito e a regência do Mestre de Bateria para o deleite daqueles do turismo interno e de gringos desengonçados, mesmo aqueles que buscaram as academias, principalmente aquelas voltadas para os passos coreografados da  Dança de Salão (dezembro) e do samba de gafieira, diferentemente do show de mulatas seminuas para gringo ver, reduto do que há de melhor do samba no pé e do bailado de passistas orgulhosos em representar a academia de dança do morro para olhos extasiados diante de movimentos desconcertantes, passos sincopados de homem ou mulher, indiferente à tradição das grandes companhias de dança dos seus países de origem pelo que o samba do Rio de Janeiro tem com a população negra e os mitos da religião de matriz africana quando associa o jeito estiloso de Zé Pelintra à imagem do malandro carioca em mostras coreográficas nos palcos daqui e do exterior. Com idades da criança até a terceira idade no ofício de perpetuar a tradição passada por gerações daqueles que são os guardiões dessa cultura que é a cara do Rio de Janeiro, o morro dá  sua contribuição para uma comunhão pacífica com o asfalto, diferentemente da imagem que é vendida por aqueles que visam o lucro pelo lucro de uma cidade apartada por asfalto e favela.

As cifras por trás do carnaval dimensionam do quanto esse bem imaterial pode reverter em benesses da relação trabalho-renda associado à responsabilidade social para amenizar a ausência do Estado como principal ator na vida comunitária, com reflexos em outros espaços da cidade por falta de políticas públicas vocacionais para atender esse segmento do conjunto da cadeia produtiva nos bastidores da grande festa, que já dá noções de empreendedorismo na qualificação de mão-de-obra local para atender as demandas da estrutura que resulta no produto final do que reluz ao longo da Marques de Sapucaí para os quatro cantos do globo. A aposta da Prefeitura do Rio de Janeiro em um espaço voltado para o mundo do samba serve para confirmar mais ainda a condição de cidade maravilhosa pelo que o samba representa para a carioquice, pelo que tem de acolhedora na multiplicidade do conjunto de seus habitantes e da sua beleza natural estimulando o turismo interno, fora do período carnavalesco, bem como o fortalecimento do sentimento que os valores societários da comunidade é parte integrante do processo econômico e sociocultural do Rio, que após as etapas de quem acreditou desde a candidatura, vestiu-se de verde e amarelo, foi às ruas, comemorou a vitória e, que agora, renova as esperanças na capacidade de realização da união das três esferas de governo e de empresários empenhados no “Projeto Olímpico”, coloca a nossa cidade na condição de capital-vitrine pelo que já podemos oferecer em termos de beleza no conjunto dos bens materiais e imateriais somando-se aos ajustes nascidos dos questionamentos técnicos para as demandas de infraestrutura que ainda não atende as especificações para comportar um megaevento como a olimpíada por exemplo. Que venham as medalhas e o legado para a qualidade de vida dos seus habitantes e dos que por aqui aportam para partilhar da sua condição de “Cidade Maravilhosa”.

A tradição do samba como um dos valores formadores da sinergia de quem vestiu a camisa da escola desde do primeiro aniversário serve como ponto de partida para a observação num mundo em que o sentido de beleza é variável de acordo com a etnia, idade, nível social, história pessoal, sociedade, culturas e infinitos outros grupos para a analise de representantes do corpo técnico-pedagógico carentes da observação diária no grande laboratório da prática do sacerdócio de transmissão do conhecimento e, ao mesmo tempo, apreender lições nascidas do olhar curioso em entender o porque de realidades em conflito para o que se apresenta como fora do padrão ao repertório de vivências em universos abismais se, porém, “juntos e misturados” no compromisso em fazer da educação a ponte que liga os mundos. Mundo este onde o ato corporal, o movimento para além do puro cinetismo transforma o espaço, o corpo e a percepção de si mesmo. A imagem corporal é um complexo fenômeno humano que envolve aspectos cognitivos, afetivos, socioculturais e motores. Está associado intrinsecamente com o conceito de si próprio e é influenciável pelas dinâmicas entre o ser e o meio em que vive. O seu processo de construção/desenvolvimento está associado, nas diversas fases da existência humana, às concepções determinantes da cultura e sociedade. Quando o professor aprender a olhar no rosto de seus alunos e não apenas no diário de classe, quando permitir o ser olhado, o senso de respeito ao outro e ao que é diferente, surgirá. Este senso surge quando identificamos o rosto e permitimos ser identificados. Aprender o sentido e o infinito no rosto do outro é a “ética da alteridade” de Lévinas. O ensinar deve traduzir o respeito ao outro, como linguagem do seu modo de ser, sem possuí-lo. Muitas vezes para ver o rosto do outro é preciso olhar com outras lentes, que não sejam as dos míopes, de preferência com a lente do outro, e procurar ver como o outro vê. Isso nos provoca e convoca a análise dos discursos que nos levam a princípios de verdades que são excludentes, ou seja, que não promovem a solidariedade e o respeito ao diferente, ao outro.

Cinestesia: É o sentido do movimento corporal e da tensão muscular provocada pelas forças mecânicas que influenciam os receptores nos músculos, nos tendões e nas articulações. Literalmente “sensibilidade ao movimento”, é um dos nossos sentidos fundamentais. Dá informações a respeito dos movimentos das estruturas físicas, do levantamento dos braços, das rotações do globo ocular, o ato de engolir; informa, em suma, a respeito de todas as ações motoras. Além disso, é responsável pela sensação de tensão e de esforço muscular. Os estímulos físicos para as sensações cinestésicas são forças mecânicas que atuam dobre os receptores localizados nos músculos, nos tendões e nas articulações do corpo. À medida que os músculos funcionam, modificando as posições das partes do corpo. Diversos padrões de pressões, nesses receptores, fornecem a informação essencial para a orientação da aça motora. Há uma grande interação entre essas sensações cinestésicas e outros aspectos de nossa experiência perceptual. A percepção visual da distância, por exemplo, inclui entre outras coisas, uma síntese completa de informação das retinas e do movimento dos músculos dos globos oculares. Normalmente, não nos damos conta do papel das sensações cinestésicas em nosso comportamento. Sua importância se revela, porém, e de modo dramático, nos casos em que vêm a falhar. Certas pessoas podem apresentar doenças em que perdem, em caráter permanente, as sensações sinestésicas de certas partes do corpo – as pernas, por exemplo – em conseqüência da destruição dos nervos sensoriais essenciais. Pode-se então observar que essas pessoas ao caminhar arrastam com dificuldade os pés e olham continuamente para eles. Sem essa orientação visual, não seriam sequer capazes de se locomover, pois não dispõem de uma informação sinestésica direta sobre o que está ocorrendo com os músculos da perna. Estreitamente ligadas às sensações cinestésicas estão as “sensações vestibulares”, responsáveis pela percepção do movimento espacial e da orientação do corpo como um todo, ou seja, as sensações relacionadas com o sentido do equilíbrio.

Junto a hipocinesia[3], provocadas pelo uso da tecnologia e novas formas de produção de relação homem-trabalho, o século XX transformou profundamente a manifestação do movimento como parte integrante da própria essência humana. A inatividade física se tornou problema de saúde pública – as doenças crônico-degenerativas passaram a se a causa principal da morte na sociedade atual, deixando para trás as doenças infecto-contagiosas (Nahas, 2001). Além disso, o corpo foi cada vez mais explorado pelo comercio, moda e meios de comunicação. Tais fatos permeados por algumas concepções de ser humano/sociedade; o indivíduo passou a ser visto mais holística e também como instrumento de rendimento, de mercado. A cultura corporal, incluindo imagem e movimento, passou, dessa forma, a pertencer a dois universos, que apesar de parecerem idênticos, são muitas vezes antagônicos. Nesse sentido, há a vertente de saúde, onde a imagem é prática corporal convergem para um objetivo de congregação de valores nos quais o ser humano possui maior possibilidade de explorar seus potenciais somático-fisiológicos, psicomotores, intelectivos e até sociais. A interação homem/meio ambiente não se torna uma flagelação para o indivíduo.

A seguir as considerações do professor de Psicologia, Ênio Pinto[2] (Viver Psicologia, 1995) com o título: O corpo em Educação:

Toda a ênfase dada ao corpo nos primeiros anos de vida escolar vai se perdendo ao longo do tempo. Aos pouco, o foco vai sendo transferido para as abstrações do conhecimento e o corpo vai sendo reprimido e ignorado. Temos desprezado o fato de que o prazer de aprender e a liberdade criativa são coisas que nascem e se manifestam exatamente no corpo. Se lançarmos um breve olhar histórico para a escola, logo perceberemos que, em nossa cultura, o conhecimento está geralmente associado à mente, ao intelecto, em detrimento ao corpo. Desde muito tempo até os dias de hoje as teorias sobre educação falam prioritariamente sobre a aprendizagem intelectiva, quase como se ela fizesse se dar apesar do corpo, e não no corpo.

Ao pretendermos entender e se adaptar ao mundo a nossa volta aprendemos principalmente a lidar com símbolos: quanto mais uma pessoa avança no processo de aprendizagem, com menos coisas concretas esta pessoa lida mais abstrato se torna o seu conhecimento. Na escola, mormente nas mais modernas e mais apoiadas em métodos renovadores de ensino, podemos observar que, nos primeiros anos de estudo, até que alguma atenção é dada ao corpo da criança, notadamente no que concerne ao lidar com coisas concretas. A medida em que a criança vai caminhando em sua escolaridade e ampliando a capacidade de abstração, o corpo vai sendo deixado de lado, como se fosse necessário apenas nos primeiros anos escolares. Assim, nos primeiros anos de vida escolar, é visível alguma preocupação da escola em lidar com o corpo, até em fazer do corpo instrumento da aprendizagem. Passados os primeiros anos, é como se colocássemos os alunos em uma escada e suas mentes foram galgando os degraus com, maior velocidade que seus corpos de forma que quando a pessoa alcançasse a pós-graduação, seu corpo ainda estivesse, eterno repetente, nos primeiros anos do primeiro grau. E as teorias sobre educação, de uma forma geral, privilegiam a mente como, de maneira geral, um professor privilegia aquele aluno que melhor repete o que ouviu. O corpo e a criatividade ficam sem importância?

Sim, pois a criatividade não é filha apenas da mente, e sim cria de um organismo integrado por corpo e mente, um todo indissolúvel que nossa cultura dicotomiza. Ao descuidar do papel corpo na aprendizagem. A escola descuida também do papel da criatividade no desempenho das pessoas, diminuindo as possibilidades de alcançarem a competência existencial, tão necessária à luta por uma vida mais digna e mais responsável. A maioria das escolas se torna mais mecanicista e menos humanista, com efeitos perigosos sobre o processo de aprendizagem. Formam pessoas que têm imensa capacidade de repetir o conhecido e muito pouca coragem para experimentar novos caminhos, para ousar, para criar. E este caminho tão cruel começa pelo desleixo para com o corpo no processo educacional. O corpo é a base do prazer, pois, pois é a partir do corpo que começamos a perceber a noção do eu, e é através do corpo que continuamos este processo pela vida afora. Percebemos o mundo através do corpo, exploramos o mundo através do corpo, damo-nos conta de quem somos e do que queremos através do contato do corpo, somente existimos corporalmente. E, ainda assim, na escola ele não tem vez.

O corpo é a base do prazer, pois todo prazer é corporal [4]. Não como não sentirmos prazer se não temos um bom contato com nosso corpo. O prazer traz liberdade, criatividade, consciência, assertividade, excitação, coisas com certeza assustadoras dentro de uma escola. Porque alunos que têm prazer em estudar são alunos inquietos, questionadores, curiosos e atentos, exigentes ao que recebem de seus professores e da escola. Melhor, então, cala-los, melhor deixar seus corpos eternos repetentes no primário, para que suas mentes não se desviem das trilhas já conhecidas, decoradas e, anos após ano, enfadonhamente repetidas por enfadonhos professores, gerando nos alunos um enorme desprazer ao ir para a escola. Estudar neste contexto vira obrigação, coisa chata que se faz o ano a ano em busca de uma felicidade que nunca será alcançada um dia, lá no futuro, quando a pessoa resolver que não precisa mais estudar, pois já sabe pisar exatamente sobre os passos daqueles que antes deixaram bem marcado o caminho certo a seguir sem criatividade, Narcisos que não tiram os olhos do lago, diferentemente daqueles dos processos criativos necessários ao mundo em que as idéias são o grande capital humano. Portanto, potenciais observadores dos processos geradores de conteúdo de um mundo que se faz na velocidade vertiginosa da web, ora saindo da condição incipiente de educar para se firmar como caminho forma da educação através da aprendizagem síncrona e, ou assíncrona nos primeiros estágios dos vários processos interativos de um mundo cada vez mais carente de mão de obra capacitada para o campo ilimitado das abstrações audiovisuais, principalmente, já que este nicho de mercado é o do verdadeiro encontro com o saber que liberta as amarras mentais que não deixam a mente expandir. Matrix e Avatar são exemplos de possibilidades do encontro da imaginação com a nova geração de tecnologia para criar cenários factíveis de um novo mundo, por exemplo.

E como fazer isto? Como facilitar à criança abandonar-se ao corpo, ao prazer, à curiosidade, à criatividade?

Observe como uma criança tem uma energia corporal quase ilimitada; perceba como ela se entrega completamente a cada atividade corporal. Insistentemente, ela busca o prazer corporal, mesmo que isto implique em repetir e repetir atividades até encontrar o tesouro que necessita. Isto, até certo ponto da infância, quando começa a acontecer alguma coisa que bloqueia este processo da busca obstinada do prazer. A competição, tão estimulada pelas escolas, começa a entrar em cena, aparecem as críticas com relação à busca do prazer, tentativas desajeitadas de procura do prazer sarcasticamente desestimuladas, a desaprovação, ao gozo do prazer aparece fazendo com que a criança restrinja-se, a fim de conseguir corresponder às expectativas dos outros e conquistar o tão necessário amor no mundo.

Ela aprende a contrair sua musculatura, a reprimir sua raiva, a deixar sempre enovelado em sua garganta o choro. Ela funda-se em seus ombros, protegendo-se de palavra e de censuras, escondendo seu corpo em desenvolvimento. Perde o senso de si própria, bem com grande parte de sua energia vital ao de se desligar de seu corpo para conquistar um espaço social. O corpo encolhido e assustado diminui seu limiar de percepção, por conseguinte seu limiar de contato com o mundo real, mesmo num mundo das relações virtuais de uma sociedade em redes sociais, e o indivíduo vê diminuída a sua capacidade de influenciar este mundo como o faz o verdadeiro lider. Abre mão do seu processo interior, busca viver a experiência de outra pessoa, aliena-se, busca a saída do Narciso. Não a ansiedade ontológica, tão importante nas busca do significado do estar vivendo, mas a ansiedade patológica, paralisante e castradora de excitação.

A pessoa ansiosa limita sua respiração, diminui a quantidade de oxigênio ingerido em cada inspiração, desinspiração, tende a evitar o novo e a não ser criativa. Não se excita, pois a excitação requer oxigênio, requer energia, que não está disponível no corpo contido. A ansiedade ao contrário da excitação alimenta a curiosidade, matéria-prima da aprendizagem. Madalena Freire diz que “o educador educa a dor da falta, cognitiva e afetiva, para a construção do prazer. É da falta que nasce o desejo. Educa a aflição da tensão da angústia de desejar. Educa a fome do desejo”. Atentemos para esta reflexão de Madalena Freire, observemos os termos que ela usa quando se refere ao educador. “Dor” a gente sente no corpo. “Prazer” só pode ser percebido no corpo. “Desejo” depende de percepção sinestésica. “Aflição”, “angústia”, “fome” são sensações corporais. Aprender demanda ver, ouvir, falar, sentir; demanda o corpo presente e vivo. É este corpo de devemos buscar levar para a escola, o corpo vivo, o corpo excitado e curioso com o saber, o corpo envolvido, presente, participante e inquieto. “Ensinar e aprender são movidos pelo desejo e pela paixão”, completa Madalena Freire.

Penso que é importante que a escola esteja atenta ás potencialidade que o cuidado com o corpo traz para a educação. Não basta que o corpo apreça nas preocupações escolares apenas no que diga respeito a como controla-lo na busca de uma suposta disciplina, útil apenas par formar pessoas obedientes e passivas. Não basta penas olhar para o corpo do aluno que padece de uma disfunção. Não basta estudar-se o corpo em surrealistas aulas de anatomia. Não basta tentar modelar o corpo por exaustivas aulas de educação física. Não podemos mais olhar o corpo como se a abstração fosse possível sem ele. È interessante quando se fala de educação de deficientes, nunca se deixe de lado o aspecto corporal. São diversas as técnicas, são muitos os exercícios, são várias as teorias que procuram facilitar ao deficiente o máximo de aprendizagem possível, todas passando por cuidados corporais, por aumento do limiar de percepção. Na educação das pessoas normais, o corpo é deixado de lado, como se bastasse ele não ter problema anatômico ou fisiológico, então esqueça o corpo ou aliene-se do corpo. Com o deficiente, cuida-se do corpo, porque ele já tem os limites que sua deficiência lhe impõe. Mas não tomemos proficiente quem é eficiente. Qual a palavra, então, para mudar este quadro de desleixo para com o corpo? Penso que não é uma, mas são duas as palavras: encorajamento e respeito.

Encorajamento para que o aluno mantenha sempre acesa dentro de si mesmo a chama da curiosidade. Encorajamento para que ele descubra que a curiosidade exige tenacidade e pesquisa. Encorajamento para que ele não perca de vista o prazer de aprender.

Respeito para com suas tentativas ainda que desengonçadas. Respeito para com o que ele já sabe. Respeito para com a sua excitação e para com a sua vivacidade. Respeito para com o seu desejo.

Segundo pesquisas de motivações que levam a prática do bullying no ambiente escolar, as questões relacionadas à imagem corpórea, onde o ponto de partida é uma piadinha ou uma brincadeira de mau gosto aparentemente inofensiva relacionada ao corpo que evolui até para maus-tratos físicos. E, com o passar do tempo e a repetição irritante da agressão, o tormento leva a vítima a um processo gradativo de isolamento, baixo rendimento escolar, tristeza e depressão. Sentimentos que abalam a autoestima dos jovens e deixam pais e professores de mãos atadas diante do problema. O bullying é um conjunto de comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos, adotados por um ou mais alunos contra colegas, sem motivação evidente. A agressão moral, verbal e até corporal sofrida pelos alunos provoca dor, angústia e sofrimento na vítima da brincadeira, que pode ter um fim trágico para jovens que sofrem o preconceito, o assédio e a intimidação dos colegas e em alguns casos até dos professores. Recente pesquisa do IBGE constatou que três em cada dez estudantes brasileiros matriculados no último ano do ensino fundamental relatam ter sido vítimas dessa humilhação. Uma pesquisa constatou que Brasília, com 35,6% e depois belo Horizonte com 35,3% dos casos são as capitais que ocupam o primeiro e o segundo lugar com esse tipo de registro.

Sinais em vítimas:

  • Apresentam com freqüência desculpas para faltar às aulas ou indisposições como dores de cabeça, de estômago, diarréias e vômitos, antes de ir à escola.
  • Pedem para mudar de sala ou de escola, sem apresentar motivos convincentes;
  • Apresentam-se desmotivadas com os estudos, queda do rendimento escolar e dificuldades de concentração e aprendizagem;
  • Voltam das escolas irritadas, tristes, machucadas, com as roupas ou materiais sujos ou danificados;
  • Apresentam aspecto contrariado, deprimido, aflito ou têm medo de voltar sozinho da escola;
  • Têm dificuldade de relacionar-se e fazer amizades com os colegas;
  • Vivem isoladas em seu mundo e não querem contato com outras pessoas que não façam parte da família.

O que fazer:

  • Observe qualquer mudança no comportamento;
  • Estimule para que fale sobre o seu dia-a-dia na escola;
  • Não o culpe pela vitimização sofrida;
  • Ajude a criança ou adolescente a expressar-se com confiança;
  • Transforme o seu lar num local de refúgio e segurança;
  • Valorize os seus aspectos positivos e converse sobre suas dificuldades pessoais e escolares;
  • Procure ajuda psicológica e profissionais especializados;
  • Procure a direção da escola ou ajuda de um conselho tutelar.

Penso que para o adolescente é mais que nunca importante um cuidado com o corpo. É na adolescência que o corpo mais se modifica, trazendo neste processo mudanças cognitivas do que significativas. É justo neste momento que a capacidade de abstração se realça e, por isto, justo neste momento é que o cuidado com o corpo se torna essencial. O adolescente está capaz de apartar-se de si mesmo, de ser sujeito e objeto de si mesmo. Ele está num momento fundamental para a consolidação de sua identidade, um momento de rápidas e definitivas mudanças corporais. Ele será tão mais saudável quanto melhor for seu contato com o próprio corpo. Ele será tão mais responsável socialmente quanto mais responsável for para com os seus sentimentos e com suas sensações. Fazer a descoberta de si mesmo a medida em que tiver maior liberdade para conhecer e explorar sua corporeidade. Aprenderá mais é melhor se souber lidar prazerosamente com o estudo. E prazer depende de se entrar de corpo e alma numa atividade. Assim como a criança, também o adolescente e o adulto precisam de afeto para aprender. Afeto requer contato entre o professor e aluno. Requer que um veja (e não apenas olhe para) o outro. Requer que um ouça (sem ouvidos moucos) o outro. Requer que um se emocione com o outro. Que ambos se modifiquem e cresçam no contato. Requer disponibilidade, discorponibilidade e exige confiança.

Aprender é inCORPOrar depois de digerir. Aprender não é decorar e repetir, mas criar, a partir do ensinado, uma atitude nova diante da vida.

 [1]Sociólogo, Doutor em Ciências do Fórum Brasil de Orçamento, Consultor do Sindicato dos trabalhadores na Educação de Minas Gerais e Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal de São Paulo.

[2]Psicólogo, “gestalt”-terapeuta e professor universitário
Fontes Bibliográficas: 1-  Grossi, E. P. e Bordin. Paixão de Aprender.  Editora Vozes:  Rio de Janeiro, 1992.
2-   Oaklander, V. Descobrindo Crianças.   Editora Summus,  São Paulo,  1980.

[3]http://www.efdeportes.com/efd83/imagem.htm

Filme Preciosa          http://www.youtube.com/watch?v=GQxwlyyZPis
Original: Precious: Based on the novel push by Sapphire
Direção: Lee daniels
Atores: Gabourey Sidibe, Mo´Nique, Rodney Jackson, Paula Paton, Mariah Carey, Lenny Kravitz
Gênero: Drama
Duração: 110 min
Ano: 2009

[4] DJ BATATA
Mas uma aula da criatividade da juventude negra brasileira reunindo os passos do samba de gafieira, charm e hip hop ao som da trilha sonora desse cara respeitadíssimo no mundo do Funk e com sensibilidade para ultrapassar fronteiras dos ritmos e criar algo tão belo para os olhos e ouvidos do Brasil e do mundo.

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2 Respostas to “A Educação, o Movimento e o Corpo Repetente”

  1. […] Quem foi que disse essas crianças são ruins?    Refrão        Quem foi que disse os meios justificam os fins? […]

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  2. […] Manuel Sergio (1987, apud FREIRE, 2010, p. 126) quem afirma: “O homem, em si e a partir de si, está dotado de uma orientação e de uma capacidade de intercâmbio com o mundo, e toda sua motricidade é uma procura intencional do mundo que o rodeia… para realizar-se, para realizar-se! Assim sendo, os professores de Educação Física são grandes auxiliares, mesmo que duas vezes por semana, nos estímulos da educação física escolar com orientações de “séries” de movimentos corporais adaptados à ludicidade de recortes do cotidiano para a criança perceber a si mesma e na percepção das coisas que a cercam em função do próprio corpo, como também no seu programa de educação apresente a preocupação, muito justa, de que seus alunos expressem, num adequado nível de desenvolvimento, os movimentos que ele considera básico: andar, correr, saltar, girar, lançar, pegar etec. (FREIRE, João Batista. Educação do Corpo Inteiro, 2010, 128), principalmente para as crianças com idade em preparação para a passagem para as séries iniciais do Ensino Fundamental e, a consequente aprendizagem da escrita implica em aquisição de destreza manual organizada a partir do entendimento nascidos da coordenação global e a experimentação que levam a dissociação de movimentos, a coordenação fina, cooordenação viso-motora necessárias a prontidão para a alfabetização. Uma perturbação do esquema corporal pode levar a uma impossibilidade de se adquirir os esquemas dinâmicos que correspondem ao hábito visomotor e também intervém na leitura e escrita, e a falta de esquema corporal implica no não desenvolvimento dos instrumentos adequados para um bom relacionamento com as pessoas e com seu meio ambiente, e pior, leva a um mau desenvolvimento da linguagem. Quando a criança transforma o corpo em ponto de referência para se situar e situar objetos em seu espaço e tempo assimila conceitos como embaixo, acima, direita, esquerda e adquire noções temporais como duração dos intervalos de tempo e de ordem e sucessão, isto é, primeiro e último, anterior e posterior, antes e depois, introjetando mais facilmente conceitos da construção de uma sequência numérica, por exemplo e tantas outras da vasta aplicação de elementos da psicomotricidade instrumentalizando hipóteses, conceitos, planejamentos entre outras aplicabilidade do corpo como sujeito da ação educativa. […]

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