Propaganda ou Política?


Breve ensaio sobre a coisificação, violência e a vida (e morte) dos jovens negros

By Felipe da Siva Frietas[1]  e Éden Valadares[2]    

A violência não é somente o ato de força física associada a crime, tampouco um mecanismo de retórica ou impacto visual. Do ponto de vista sociológico, a violência representa um fenômeno social complexo que avança sobre o nosso marco civilizatório como um conjunto de elementos sociais, políticos e estéticos que vem reduzindo o espaço do diálogo, da solidariedade, da política, e maximizando a lógica da coisificação do outro.

Assim, ao falarmos de violência é preciso esclarecer, desde logo, que esta não pode ser vista como mero espetáculo ou como ato desenfreado de pessoas incontidas. Como dissemos, ela é um fenômeno social cuja complexidade nos desafia a ir além do limite estreito da reprodução do discurso simplório do nosso universo sociocultural. Ela é fruto de uma combinação perversa de formas visíveis e invisíveis de produção e reprodução do autoritarismo.

No meio urbano, esse fenômeno ancora-se no discurso do medo, criando mitos e instituindo representações hegemônicas que, muitas das vezes, nos paralisam e nos impedem de pensar, abrindo espaço para que se instituam os estereótipos, limitando o debate e ocultando formas de opressão que impedem a consolidação da democracia.

Um desses mitos insistentemente repetidos é a representação da juventude como risco, como fator de medo e como desagregação social. Como bem analisa Helena Abramo, em seu estudo sobre a Tematização Social da Juventude, a representação social dos jovens e das jovens no Brasil, essa representação assenta-se sobre o binômio hedonismo/violência “apontando a noção de risco como idéia chave para compreender porque a imagem do jovem traficante – negro, pobre e favelado – matando e morrendo muito cedo é uma das imagens mais dramáticas e ameaçadora dos nossos tempos”.[3]

Trata-se, portanto, de uma representação social construída historicamente que enfoca os jovens, em particular os jovens negros, como vítimas e/ou como algozes. Nesta visão, os jovens são sempre apresentados como risco para si mesmos – os jovens de classe média que usam drogas, que fazem “pegas”, “rachas”, etc; ou risco para os outros – os “assaltantes”, os “pivetes”, os “trombadinhas”. Esta ótica, até aqui hegemônica, privilegia a representação da juventude como fonte de medo, ameaça e perplexidade.

Entretanto, apesar de tais imagens não suportarem uma análise mais apurada, as mesmas continuam a prosperar como sustentáculos para repetição de práticas e discursos em matéria de segurança pública e repressão penal.

Na semana passada, por exemplo, uma dessas imagens paradigmáticas emergiu na cena pública exposta na capa dos principais jornais do país: a fotografia de um jovem negro, supostamente morador de uma das favelas do Rio de Janeiro, morto com vários tiros e arremessado dentro de um carro de supermercado, em uma rua movimentada, junto com vários sacos de lixo, ante o olhar curioso de muitos transeuntes.

A imagem, apesar de dura e cruel, certamente serviu sob algum aspecto apenas para vender muito jornal. O estereótipo dos traficantes perversos, dos jovens vítimas da crueldade do tráfico, da guerra do bem contra o mal se regozijou com mais essa cena estarrecedora.

Alguns pensaram “Que bom, morreu mais um desses traficantes”. Outros tantos “Quem manda se meter com drogas!”. Ainda houve aqueles que disseram “Olha, por isso é que tem que ter pena de morte mesmo”. Certamente essas foram algumas das expressões da reação popular ante a morte e a forma cruel como tudo foi se estabelecendo e como as coisas estavam ali estampadas na página dos jornais.

Em todos os casos, falta à notícia e à reação da sociedade àqueles fatos um espaço para a significação daquilo que a todos estarrecia. Não sobra espaço para a reflexão sobre todo o ocorrido, não se buscam as raízes profundas de toda aquela cena que não é simbólica. É uma imagem que não informa, não reflete, pelo contrário, apenas faz espetáculo, embala-se para consumo e faz vender jornal!

Ao leitor daquela figura não é dado o espaço para respirar, pensar, se mover. A imagem é violenta por si mesma e desconsidera o seu leitor como sujeito. Se impõe como única possibilidade retórica ante a absoluta ausência de significação política, ética e social. A vida está banalizada e nada se faz senão lamentar!

Todavia, a despeito do que ela em si pretensamente enuncia, podemos de maneira intransigente desfazer o texto ensaiado e afirmar que é possível refletir sobre tudo isso construindo um espaço de contestação e resistência. É possível constituir uma voz que se insurge ante o consenso monolítico ou à única verdade que proclama que tudo vai muito bem e que nada pode efetivamente se revolucionar.

A vida está flagrantemente ultrajada e essa é uma constatação empírica desta geração. Segundo a Pesquisa “Perfil da juventude brasileira” promovida pelo Instituto Cidadania 46% (quarenta e seis por centos) da juventude já perdeu parente ou amigo próximo de forma violenta e 38% (trinta e oito por cento) já viu de perto alguém que morreu por causas externas sendo que, destes, 62% (sessenta e dois por cento) foram assassinados.

Trata-se de uma sangrenta batalha fratricida que resulta em jovens cada vez mais expostos ao risco de morte violenta num círculo vicioso de tragédias que como bem enfatiza o Prof. Luiz Eduardo Soares: “o problema [da violência] alcançou um ponto tão grave que já há um déficit de jovens do sexo masculino na estrutura demográfica brasileira. Um déficit que só se verifica nas sociedades que estão em guerra. Portanto , apesar de não estarmos em guerra, experimentamos as conseqüências típcas de uma guerra.”[4]

Entretanto, apesar de estarmos num cenário realmente desolador no que se refere ao número de morte de jovens no país, tudo é embalado para consumo, até a morte. Tudo é posto à venda nas telas de TV e nas páginas de jornal, em um medonho culto à tragédia que transita entre o sinistro e o irracional. Sem pensar muito sobre o que fazer, assistimos paralisados às cenas de violência, sem questionar os estereótipos e sem refletir o seu significado real.

Por que a morte ritualizada na exposição de cadáveres dilacerados? Por que a exibição dos corpos negros com tanta complacência? Por que tanto silêncio ante a própria violência do Estado e dos meios de comunicação? O olhar sobre aquele corpo estendido não era de reflexão ou de engajamento, mas de curiosidade, de excitação, quiçá, de pena. Porém, nem mesmo um olhar de compaixão estava em jogo…

Estamos diante de um caso de interdição do diálogo, de um tempo em que a violência percebida é aquela atribuída aos criminosos contumazes, em que não se percebe a violência do sistema racista, da criminalização do uso das drogas, da exclusão de mulheres e homossexuais, do modelo de aprofundamento das desigualdades e da opressão.

Vivemos um tempo de afastamento da democracia e da política. Um tempo em que está negada a possibilidade de ver o outro como sujeito e em que tudo é explicado com a sentença: é preciso caçar os bandidos, é guerra contra o tráfico e nada mais.

Esqueceram de Steve Biko que dizia que o modo que se morre pode ser, per si, uma coisa que cria consciência política. Oxalá os herdeiros de Biko continuem com a coragem para politizar a morte e denunciar a violência dos corpos negros estendidos no chão…

[1]  Membro titular do Conselho Estadual de Juventude da Bahia (CEJUVE), representando as Pastorais da Juventude do Brasil, coordenador nacional da Campanha contra a Violência e o Extermínio da Juventude, membro do Grupo de Pesquisa em Criminologia (GPCRIM / UEFS) e militante do Núcleo de Estudantes Negras e Negros da Universidade Estadual de Feira de Santana.

[2]  Ex-secretário de juventude do PT/BA, atualmente exerce mandato de secretário-executivo do Conselho Estadual de Juventude e coordenador de políticas de juventude do Governo do Estado da Bahia


Bibliografia

[3]  ABRAMO, Helena W. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação. n. 5 e 6, p. 25-36, mai.-dez. 1997.

[4]  SOARES, Luiz Eduardo. Juventude e Violência no Brasil contemporâneo. IN: NOVAES, Regina; VANNUCHI, Paulo (org.). Juventude e Sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. p. 130 – 131. 

Felipe da Silva Freitas
 
publicado em: http://www.ptbahia.org.br/novo/conteudo.php?ID=1644

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