Carta para um Mundo sem Violência

Depois das cerimônias dos 20 anos da queda do muro, a 10ª Cúpula dos Nobel da Paz teve como convidado de honra a Silo, fundador do Humanismo Universalista e inspirador da Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência. Passados 40 anos de seu primeiro discurso público, ele está convencido da possibilidade de construir a Nação Humana Universal fundada sobre uma cultura de não violência ativa. Ao receber de Mairead Corrigan Maguire a “Carta para um mundo sem violência”, redigida pelos prêmios nobel da paz, Silo se comprometeu em nome do Movimento Humanista e de seus organismos, dos quais é impulsionador, a ser seu embaixador e dar a esta carta uma máxima difusão, através da campanha atual: a Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência, que desde 2 de outubro percorre uma centena de países nos seis continentes durante três meses e que já mostra sinais de uma mobilização social sem precedentes. Silo detalhou: “Somente este tipo de ação social exemplar tem a capacidade de sepultar as estruturas sociais atuais e produzir uma mudança radical em nosso mundo” e agregou que “a verdadeira força impulsionadora nasce do ato simples daquele que adere conscientemente a uma causa digna e a compartilha com os outros”. Abaixo, o teor da carta escrita pelos premiados com o Nobel da Paz entregue:

Carta para um Mundo sem Violência 

A violência é uma enfermidade evitável 

Nenhum Estado ou indivíduo pode estar seguro em um mundo inseguro. Os valores da não-violência, tanto nas intenções, nos pensamentos e na ação, deixaram de ser uma alternativa para tornar-se uma necessidade. Esses valores se expressam em sua aplicação nas relações entre Estados, entre grupos e entre indivíduos. Estamos convencidos de que a adesão aos princípios da não-violência promoverá  uma ordem mundial mais civilizada e pacífica, na qual uma governança mais justa e eficaz e o respeito à dignidade humana e a sacralidade da própria vida possam tornar-se realidade.

Nossas culturas, nossas histórias e nossas vidas individuais estão interconectadas e nossas ações são interdependentes. Hoje, como nunca antes, acreditamos que estamos diante de uma verdade: nosso destino é um destino comum. Esse destino será determinado por nossas intenções, nossas decisões e nossas ações de hoje.

Estamos firmemente convencidos de que criar uma cultura de paz e de não-violência, apesar de um processo longo e difícil, é um objetivo nobre e necessário. Afirmar os valores contidos nesta Carta é um passo de vital importância para garantir a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade e alcançar um mundo sem violência.

Nós, pessoas e organizações premiadas com o Prêmio Nobel pela Paz, Reafirmando nosso compromisso com a Declaração Universal dos Direitos humanos; Movidos pela necessidade de pôr fim à propagação da violência em todos os níveis da sociedade e, sobretudo, às ameaças que em nível global colocam em risco a própria existência da humanidade; Reafirmando que a liberdade de pensamento e de expressão está na raiz da democracia e da criatividade; Reconhecendo que a violência se manifesta de muitas formas, seja como conflito armado, ocupação militar, pobreza, exploração econômica, destruição ambiental, corrupção e preconceitos de raça, religião, gênero ou orientação sexual; Percebendo que a glorificação da violência, como expressa através da indústria do entretenimento, pode contribuir para a aceitação da violência como condição normal e aceitável; Conscientes de que os mais prejudicados pela violência são os mais fracos e vulneráveis; Lembrando que a paz não é apenas a ausência de violência, mas a presença de justiça e bem-estar para as pessoas; Considerando que a falha dos Estados em incluir as diversidades étnicas, culturais e religiosas está na raiz de grande parte da violência no mundo; Reconhecendo a necessidade urgente em desenvolver uma abordagem alternativa de segurança coletiva, baseada em um sistema em que nenhum país ou grupo de países se apóie em armas nucleares para sua segurança; Conscientes de que o mundo necessita de mecanismos e abordagens globais eficientes para a prevenção e resolução não-violentas de conflitos e que eles tem maior êxito quando adotados com antecipação; Afirmando que as pessoas que possuem o poder têm a maior responsabilidade de eliminar a violência onde estiver ocorrendo e evitá-la sempre que possível; Convencidos de que os valores da não-violência devem triunfar em todos os níveis da sociedade, assim como nas relações entre os Estados e as pessoas, Convocamos a comunidade internacional a apoiar os seguintes princípios: 

Primeiro: Em um mundo interdependente, a prevenção e o fim dos conflitos armados entre Estados e dentro dos Estados requer uma ação coletiva por parte da comunidade internacional. A melhor maneira de obter a segurança de Estados individuais é promover a segurança humana global. Isso requer o fortalecimento da capacidade de implementação da ONU e das organizações de cooperação regional.
Segundo: Para construir um mundo sem violência, os Estados devem sempre respeitar o Estado de Direito e honrar seus compromissos legais.
Terceiro: É essencial avançar sem demora para a eliminação verificável das armas nucleares e de outras armas de destruição massiva. Os Estados que possuem tais armas devem dar passos concretos em direção ao desarmamento e adotar um sistema de defesa que não se apóie na ameaça nuclear. Ao mesmo tempo, os Estados devem empenhar-se em consolidar um regime de não-proliferação nuclear, tomando medidas como o fortalecimento de verificações multilaterais, proteção de material nuclear e avanço do desarmamento.
Quarto: Para eliminar a violência na sociedade, a produção e a venda de armas pequenas e leves deve ser reduzida e rigorosamente controlada nos níveis internacional, estatal, regional e local. Além disso, deve haver uma aplicação total e universal dos acordos internacionais de desarmamento, como o Tratado para Erradicação de Minas de 1997 e o apoio de novos esforços para eliminar o impacto das armas indiscriminadas e ativadas pelas vítimas, como as bombas de fragmentação, por exemplo.
Quinto: O terrorismo jamais pode ser justificado, pois violência gera violência, e porque nenhum ato de terror contra a população civil de qualquer país pode ser realizado em nome de causa alguma. Mas a luta contra o terrorismo não pode justificar a violação de direitos humanos, leis humanitárias internacionais ou normas civilizatórias e democráticas.
Sexto: Eliminar a violência doméstica e familiar requer respeito incondicional pela igualdade, liberdade, dignidade e direitos das mulheres, homens e crianças por parte de todos os indivíduos, instituições estatais, religiões e sociedade civil. Tal proteção deve ser incorporada às leis e convenções em nível local e internacional.
Sétimo: Todos os indivíduos e Estados partilham da responsabilidade pela prevenção da violência contra crianças e adolescentes, nosso futuro comum e mais precioso dom. Todos eles têm direito à educação de qualidade, cuidados básicos de saúde eficazes, segurança pessoal, proteção social, plena participação na sociedade e um ambiente propício que reforce a não-violência como estilo de vida. A educação para a paz, promovendo a não-violência e enfatizando a qualidade humana inata da compaixão, deve ser parte essencial do currículo das instituições educacionais de todos os níveis.
Oitavo: Prevenir os conflitos decorrentes da falta de recursos naturais, principalmente de fontes de energia e água, requer que os Estados, afirmativamente e pela criação de padrões e mecanismos legais, garantam a proteção do meio ambiente e motivem a população a ajustar seu consumo com base na disponibilidade de recursos e nas reais necessidades humanas.
Nono: Pedimos às Nações Unidas e seus Estados-membros que promovam a apreciação da diversidade étnica, cultural e religiosa. A regra de ouro de um mundo não-violento é: Trata os demais como gostarias de ser tratado.
Décimo: Os principais instrumentos políticos que levam ao nascimento de um mundo não-violento são instituições democráticas ativas e o diálogo baseado na dignidade, conhecimento e compromisso, conduzido com base no equilíbrio dos interesses das partes envolvidas e, quando apropriado, incluindo a preocupação com a humanidade como um todo e a natureza.
Décimo-primeiro: Todos os Estados, instituições e indivíduos devem apoiar os esforços para diminuir a desigualdade na distribuição dos recursos econômicos e resolver as desigualdades mais gritantes que constituem solo fértil para a violência. O desequilíbrio nas condições de vida leva inevitavelmente à falta de oportunidades e, em muitos casos, à perda da esperança.
Décimo-segundo: A sociedade civil em organizações como os defensores dos direitos humanos, da paz e os ativistas ecológicos, devem ser reconhecidos e protegidos como grupos essenciais para a construção de um mundo não-violento, pois todos os governos devem servir às necessidades de seu povo, não o contrário. Devem ser criadas condições para permitir e incentivar a participação da sociedade civil, especialmente das mulheres, nos processos políticos em nível global, regional, nacional e local.
Décimo-terceiro: Ao implementar os princípios dessa Carta, convidamos todos a trabalharem juntos por um mundo mais justo, livre da prática de matar, em que todos tenham o direito de não serem mortos e a responsabilidade de não matar ninguém.

A fim de combater todas as formas de violência, incentivamos a pesquisa científica nos campos da interação e diálogo humanos e incentivamos a participação das comunidades acadêmica, científica e religiosa para que nos ajudem na transição para sociedades não-violentas e livres de assassinatos. 

Instituições:

Governo vasco
Município do Cagliari, Itália
Província do Cagliari, Itália
Município do Villa Verde (OR), Itália

Organizações:

Peace People, Belfast, Irlanda do Norte
Associação Memoria Collettiva, Associação
Hokotehi Moriori Trust, Nova Zelândia
Mundo sem guerras e sem violência
Centro Mundial de Estudos Humanistas (CMEH)
A Comunidade (para o desenvolvimento humano), Federação Mundial
Convergência das Culturas, Federação Mundial
Federação Internacional de Partidos Humanistas
Associação “Cádiz por la No-Violencia”, Espanha
Women for a Change International Foundation, (Reino Unido, Índia, Israel, Camarões, Nigéria)
Institute for Peace and Secular Studies, Pakistan
Associacion Assocodecha, Mozambique
Awaz Foundation, Centre for Development Services, Pakistan
Eurafrica, Associação Multicultural, França
Peace Games UISP, Itália
Club Moebius, Argentina
Centro per lo sviluppo creative “Danilo Dolci”,Itália
Centro Studi ed Iniziative Europeo,Itália
Gruppo Emergency Alto Casertano, Itália
Sociedad Boliviana de origami, Bolivia
Il sentiero del Dharma, Itália
Gocce di fraternità, Itália

 

 

Personalidades:

Mr. Walter Veltroni, Ex-prefeito de Roma
Mr. Tadatoshi Akiba, Prefeito de Hiroshima, Presidente de Mayors for Peace
Mr. Agazio Loiero, Governador da Calábria, Itália
Prof. M. S. Swaminathan, Ex-presidente da Pugwash Conferences on Science and World Affairs, organização laureada como Nobel da Paz
David T. Ives, Albert Schweitzer Institute
George Clooney, ator
Don Cheadle, ator
Bob Geldof, cantor
Tomás Hirsch, porta-voz do Humanismo para América Latina
Michel Ussene, Porta-voz do Humanismo para a África
Giorgio Schultze, Porta-voz do Humanismo para a Europa
Chris Wells, Porta-voz do Humanismo para a América do Norte
Sudhir Gandotra, Porta-voz do Humanismo na Ásia-Pacífico
Maria Luisa Chiofalo, Vice-Prefeito do Município de Pisa, Itália
Silvia Amodeo, presidente da Fundacion Meridión, Argentina
Miloud Rezzouki, Presidente da Associação ACODEC, Marrocos
Angela Fioroni, Secretário Regional de Legautonomie Lombardia, Itália
Luis Gutiérrez Esparza, Presidente do Latin American Circle of International Studies (LACIS), México
Vittorio Agnoletto, ex-membro do Parlamento Europeu, Itália
Lorenzo Guzzeloni, Prefeito de Novate Milanese (MI), Itália
Mohammad Zia-ur-Rehman, Coordenador Nacional de GCAP-Pakistan
Raffaele Cortesi, Prefeito de Lugo di Romagna (RA), Itália
Rodrigo Carazo, Ex presidente do Costa Rica
Lucia Bursi, Prefeito do Maranello (MO), Italia
Miloslav Vlček, Presidente da Câmara dos Deputados da República Checa
Simone Gamberini, Preferito do Casalecchio di Reno (BO), Itália

 

http://www.theworldmarch.org/index.php?secc=carta

2 Respostas to “Carta para um Mundo sem Violência”

  1. MIRA CORREIA Says:

    SÃO LINDOS OS TREZE ARTIGOS QUE COMPÕE ESTE IMPORTANTE DOCUMENTO.

    A CARTA PARA UM MUNDO SEM VIOLÊNCIA É QUASE UM POEMA, UMA OBRA DE ARTE CRIADA POR MÃOS DE PESSOAS MUITO ESPECIAIS.

    QUE, IMAGINO, DOAM SUAS VIDAS POR UM MUNDO MELHOR PARA TODOS.

    A PAZ É UM SUBSTANTIVO QUE EXIGE A PARTICIPAÇÃO DE TÔDA A HUMANIDADE PARA A SUA PLENA CONSTRUÇÃO.

    PARA TANTO PRECISAMOS NOS IRMANARMOS NO SENTIDO DE ACEITAÇÃO PLANETÁRIA PARA A CONSTRUÇÃO COLETIVA.

    EM PAZ NOS UNIMOS, UNIDOS A LUZ SE FARÁ, E LUZ HAVENDO, NOS UNIREMOS, E UNIDOS SEREMOS UM SÓ.

    O EU E O TU NÃO MAIS IMPORTARÁ, E SIM, APENAS O SER.

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  2. `E muito lindo e benefíco tudo o que o autor colocou, só que a paz de espiríto começa em nós mesmos é preciso estarmos centrados em nossos atos no dia-a-dia em redimir quando erramos, é preciso sobretudo humildade para estarmos centrados na PAZ que devemos ter dentro de nós e com o restante do mundo….

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