Retour à Gorée

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

 A Ilha de Goréia é a infame ilha ao largo de Dakar, Senegal, que era usada como ponto de partida para o comércio escravo para as Américas e Europa até o século XIX. Chamada de “Câmara dos Escravos”, construído em 1776, ainda está de pé até hoje e continua a ser testemunho para a triste e devastada costa oeste africana. No entanto, a capacidade de superação do povo negro foi comemorada e premiada pelo esforço de brancos e negros unidos pela arte musical e, a emoção de alguns músicos afro-americanos, que ao escavar a temporalidade dessa rota de escravos e, na esteira de “outras praias da condição” humana, fazer a “carta náutica” da volta embalada por ondas sonoras do canto, do aculturamento musical, refinado, sem questões de gênero e de toda uma representatividade do legado dos que chegaram primeiro ao novo mundo e tornaram possíveis as conquistas movidas pela cor da pele dos seus ancestrais e, ainda superlotados em cubículos da negritude de hoje, a realidade na oralidade de tempos idos aflorando os vários sentimentos de não aceitação às condições desumanas a que foram expostos a partir da análise das relíquias usadas nos procedimentos persuasão de que não eram homens livres no continente de origem, confinamentos em espaços superlotados e condições higiênicos suscetíveis a todo tipo de doença, entre os motivos da carga humana jogada ao mar, quando da costa africana aportaram em mares do oeste e a sua saga em preservar o que restou do que não foi apagado pelos instrumentos de tortura. Youssou N´Dour e outros afrodescendentes, antes de somarem-se aos europeus, discutem o gênero musical em suas educações e sentidos da identidade racial explorando o DNA da matriz africana que ajudou no processo da identidade do jazz e da música gospel e os traços da sua circulação através de alguns dos centros de música nos Estados Unidos e Europa, compilando o material musical necessário à mostra audiovisual do concerto comemorativo da trajetória dos seus congêneres na construção da diáspora africana, unindo passado, presente, América, Europa e África através do jazz. Como pano de fundo para esse conto de um griot moderno: a história do comércio de escravos e seu papel na construção musical do jazz.

A ligação da África com a América escravocrata no passado é o pano de fundo para a pesquisa étnico-sócio-antropológica para as considerações sonoras, visuais e etnográficas que transforma a emblemática Ilha de Goréia, localizada no largo da costa do Senegal, em frente a Dakar na África Ocidental. Foi, entre o século XV e XIX um dos maiores centros de comércio de escravos do continente, a partir de uma feitoria fundada pelos portugueses. Foi elevada a condição de Patrimônio da Humanidade em 1978, pelo que representa de símbolo da exploração humana e uma escola para as gerações atuais. Espaço de peregrinação para aqueles que buscam uma imersão na dor dos seus antepassados. Espaço de reflexão, meditação e construção a partir das reminiscências, “ponto zero”, daquele entreposto da rota dos filhos livres arrancados da terra mãe África e despejados na escravidão do novo mundo serviu de palco para o cantor senegalês Youssou N´Dour levar as novas gerações o que foi a “Diáspora Africana” para que estes não deixem cair no esquecimento à barbárie que acompanhou a saga dos nossos antepassados e, ainda se faz necessária até a presente data pelo que alguns herdaram dos maus exemplos dessa página não virada da nossa historicidade em conflito com os valores da pós-modernidade da alteridade e com aos avanços da humanidade para o entendimento dos conceitos de raça, ainda co-habitam nas relações sociais dos resquícios da ocupação do último lugar na lista daqueles que se locupletaram dessa prática abominável transformada na miopia dos que não conseguem vislumbrar uma construção social igualitária como no nosso lado da América, por exemplo.

Mesmo que a imersão de hoje não dê uma dimensão da realidade, de terror patrocinada pela Europa no continente africano desde que Portugal levou os primeiros africanos para o velho continente em 1441e a partir da construção do entreposto na Ilha de Goréia os navios negreiros passaram a aporta-los nos mercados de escravo do novo mundo até 1900, vivida por aqueles caçados na floresta africana e levados à “Casa dos Escravos” antes de jogados na roleta russa de doenças ao longo da jornada como carga animal nos porões infectados, já que para compensar as perdas humanas do trajeto (de aproximadamente 20 a 40% dos cativos transportados), por isso, normalmente transportavam-se mais pessoas do que o porão podia realmente alojar.

Construída em 1776 pelos holandeses e, onde se lê a placa: “desta porta, para uma viagem sem retorno”.  Antes de cruzado o portal em direção a viagem transatlântica nas masmorras de navios negreiros, porém eram pesados antes do embarque para que fossem separados para a engorda aqueles com menos de 60 kg e somente as crianças menores de oito anos eram mantidos com a mãe. Tal prática entre Gorée Island , Europa e América ocorreu até o surgimento do ideal liberal e da ciência econômica na Europa, que passou a considerar a escravatura como pouco produtiva e moralmente incorreta. No Brasil, durou até 1850, quando foi criada a Lei Eusébio de Queiroz que impunha punição aos traficantes de escravos, coibindo a entrada destes no país. Composta de 39 casas, por onde se calcula terem passado aproximadamente 20 milhões de africanos do lado ocidental da África em direção ao Brasil, Cuba Estados Unidos, Suriname, Antilhas, Guadalupe, Europa e Martinica, onde eram separados por idade e sexo, mesmo para meninos e meninas maiores de oito anos, já que crianças até oito anos e ambos os sexos eram mantidos junto da mãe em quartos mediando 2,5 m com capacidade para 20 pessoas segundo os números da historicidade. Serão as casas de confinamento de hoje resquícios das práticas de ontem?

Do entreposto de Gorée saiu a mão-de-obra para o plantio e colheita de algodão do sul dos Estados Unidos, percurso de referência para o filho senegalês construir sua narrativa audiovisual da diáspora para o questionamento crítico das novas gerações de africanos e remanescentes dessa matriz étnica ao longo do caminho dos navios negreiros a partir da pesquisa

Presidente Lula em Gorée

da oralidade passada através do tempo pelos griots (contadores de história) do seu lado materno, herança que o cantor faz questão de constar na sua biografia por considerar-se um griot moderno. Com influência musical do Mbalax, nascido da mistura da tradição da percussão griot, o canto de louvor islâmico do Senegal, o Sabar com o toque do tambor indígena somado ao jazz, rock, soul, afro-cubano e haitiano (Kompa), cantado na língua Wolof (mais falada do Senegal) como uma forma filosófica de negritude para contra-argumentar a influência do colonialismo. Os registros da historicidade afro-americana no testemunho vivo daqueles que militaram pelos direitos civis nas décadas passadas também deram a contribuição para essa construção. Assim como N´Dour, na condição de artista do mundo com raízes africanas e a sua busca pelas referências sonoras do legado musical da resistência e da fusão destes com os ritmos do aculturamento ao longo do caminho trilhado na geografia da diáspora. Também ao local acorreram outros cidadãos do mundo movidos por laços fraternos com essa página negra da história da humanidade. O Presidente Luís Inácio Lula da Silva  visitou as instalações da Ilha Gorée na condição de chefe de Estado quando no seu périplo pelo continente africano em 2005, representando os laços que unem os dois lados do Atlântico, como também pelo que a áfrica contribuiu desde a mão-de-obra escrava até a presente data do Brasil como a sexta economia do mundo. A história do Brasil por mais que seja contada pela historicidade oficial, por falta de dados da sua oralidade, não pode apagar este capítulo escrito no passado dos vários ciclos da riqueza saída do solo regado a sangue e suor dos antepassados arrancados do solo africano e ainda na presente data na pós-modernidade do arremedo da “câmara de escravos” em que foram transformadas nossas prisões.

Antes da eleição para presidente dos EUA, poucos quenianos tinham se quer ouvido falar de Barack Obama. Ele era apenas um Senador afro-americano pouco conhecido do Illinois. Os que sabiam da sua existência eram do oeste do Quênia, perto do vilarejo

Barack e Sara Obama

Barack e Sara Obama

de Alego-Kogello, a 60 km da cidade de Kisumu, onde vive o lado queniano por parte do pai, representado por sua avó Sarah Obama, que, aos 86 anos, continua vivendo numa modesta casa em na aldeia ancestral da família. Ela é a terceira esposa do avô paterno de Obama, Hussein Onyango Obama e, apesar de não terem laços sanguíneos, ele se refere a ela com freqüência.

Recentemente o Presidente dos EUA no seu giro pelo continente africano, também, visitou alguns pontos da costa ocidental de onde vieram as matrizes africanas formadoras da negritude das Américas.  Um dos pontos de embarque, entreposto, por ele visitado condição de chefe de Estado e descendente de Kenianos. Quando em tour pelo largo da costa de Gana e Senegal, o Presidente Barack Obama acompanhado da primeira dama Michelle e das filhas Malia e Sasha visitaram Cape Coast Castle   visitando as “casas de escravos” e o portal “Door to no return”, pelo que estas lembranças formulam de  perguntas ao imaginário daqueles que buscam ambientação nas condições desumanas em que foram submetidos homens mulheres e crianças naqueles espaços. O chefe de estado estadunidense referiu que “o seu avô foi cozinheiro para britânicos no Quênia e, embora fosse muito respeitado entre os mais velhos na sua aldeia, durante grande parte da sua vida, como empregado os patrões lhe chamaram rapaz”. Embora estivesse na periferia da luta de libertação do Quênia, ainda assim esteve preso durante algum tempo na fase da repressão. Na sua vida, disse Obama, o colonialismo não era apenas a divisão forçada das fronteiras ou o comércio injusto, era qualquer coisa que se vivia pessoalmente, dia após dia, ano após ano. Recordou ainda que o seu pai guardou cabras na infância de uma remota aldeia do Quênia, a uma distância aparentemente impossível das universidades estadunidenses, mas a sua biografia mostra, acabou, afinal, por estudar na América, numa altura em que a geração do avô de Obama começava a dar vida a novas nações em África, num momento histórico para o continente. O pai de Obama faleceu em um acidente de carro em 1982.  Na visita ao Cape Coast Castleem Gana disse Obama: Eu nunca vou esquecer a imagem das minhas duas filhas pequenas, os descendentes de africano e africano americano, caminhando por aquelas portas sem retorno, mas, em seguida, andando pra trás. Era um lembrete notável que, enquanto o futuro é desconhecido, o vento sopra sempre na direção do progresso humano. Em cada ponto da visita lembrei-me do vínculo duradouro entre nossas nações. Homens e mulheres tomados a partir desta nação ajudaram a construir a minha. Grande lidere de direitos civis da América, como o Dr. Martin Luther King, olhou para o movimento de independência aqui em Ghana e se perguntaram: Se os irmãos africanos podem viver livremente na África, por que os americanos africanos não podem viver livremente na América?”

Youssou N´Dour vai ao longo da sua jornada etnográfica-sócio-política resgatando os elos fragmentados pelo tempo, mas, que a oralidade conseguiu não deixar apagar sobrepujando o aculturamento da submissão aos instrumentos de imposição à escravidão desde que jogados nos porões dos navios negreiros de ida e, a cartografia musical de N´Dour delineando o caminho de volta ou porque não dizer a “missão de repatriar o legado etnográfico, político-social da diáspora negra” da América ao ponto zero no Senegal para o grande encontro desse griot moderno e a sua história de resgate da africanidade perdida por aqueles irmãos negros com a emoção à flor da pele transpirando musicalidade da sintonia com a arte de grandes músicos brancos que doaram os seus talentos, adaptando-se as exigências necessárias à conexão da arte dos negros na diáspora e a sua busca de elementos da percepção musical que transpõe os mecanismos convencionais de leitura da contribuição africana para um mundo na miopia para a subjetividade de contextos culturais e socioeconômicos se transformando na velocidade da infovia e a sua linguagem multimídiática dando novo colorido ao pluralismo de um mundo em redes sociais, onde a oralidade de ontem pode tomar contornos de obra cinematográfica, ganhando vida através da gaita, piano e guitarra em contraponto, solo ou uníssono como que quase num pedido de desculpas por todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para o registro dos séculos desse capítulo sombrio da história da humanidade; o compromisso de fazer da sua forma de expressão, com o foco na transmissão para as novas gerações de matriz africana, exemplo de que da cooperação em torno de objetivos comuns por um novo mundo é possível. N´Dour pega cantores gospel em Atlanta, músicos de jazz em Nova Orleans, New York, Bordeaux e Luxemburgo, onde conhece músicos de jazz europeus. Aqueles ligados á diáspora passam a considerar as próprias historias a partir do contexto de música negra à medida que esta é explorada do ponto de vista analítico e histórico de alguns ritmos a partir da tradição senegalesa encontrada nas ruas de Nova Orleans, por exemplo.

Respeitando as tradições africanas de visita em busca dos conhecimentos na oralidade dos mais velhos N`Dour retribui a hospitalidade visitando a casa de um poeta indicado para a sua experiência musical, que resume poeticamente a relação violentamente interrompida entre a África e os seus descendentes africanos na poesia: “No fundo do oceano Atlântico há uma estrada de ferro, feita de ossos humanos; marfim preto, marfim negro”. As palavras do poeta americano Née Leroy Jones, convertido Amiri Baraka, amigo de militância do pastor Martin Luther King, e, que por influência deste fez seu retorno a terra mãe em todos os sentidos da africanidade latente na condição afro-americana do nome herdado de algum escravocrata comerciante de algodão, são exemplos poderosos de que a música, a poesia, os valores societários do amor ao próximo são os ingredientes para se compreender a história da escravidão e toda desumanidade nela contida, diante de uma platéia atenta de brancos e negros formadores de opinião faz o seu discurso de que todos temos um compromisso de não esquecer essa parte da história da humanidade pelo o quanto esta pode conter de ensinamentos das barbáries de que é capaz o ser humano.

Novamente temos a câmera do diretor na oralidade do curador do museu de Gorée, Boubacar Joseph Ndiaye  sobre as relações históricas e musicais entre a África e as América agora reunidos na capital Dakar para o grande concerto na Ilha de Goréia com o conjunto dos acúmulos da vivência musical no universo do jazz para deleite da platéia africana a espera do filho pródigo e sua trupe diaspórica. Semelhanças musicais são investigadas (como a ligação entre o assiko local e o os ritmos dos índios do Mardi Grãs de Nova Orleans), por exemplo. Naturalmente, há uma discussão mais séria que atravessa a narrativa, que o efeito de três séculos de idade no tráfico de escravo africano-americano levando os seus jovens mais bonitos e interagindo ao longo do tempo no equilíbrio demográfico da força de mudança da juventude, desde então, resultaram no desenvolvimento atrofiado em muitas partes da África.

Mesmo quando a câmera começa o seu processo de transfiguração, atemporal, retratando o cotidiano de uma realidade quase quilombola aos padrões da massificação audiovisual do nosso dia-a-dia de África em nós que, pela volatilidade da maré econômica no seu fluxo de crescimento ou retração: hora aproxima, hora nos afasta dos irmãos africanos inseridos nas mazelas sociais contextualizada na defasagem dos eventos socioeconômico do mundo globalizado, ela não perde o foco do seu objetivo de busca da contribuição musical na herança daqueles remanescentes dos escravos tirados do solo africano e desembarcados para o trabalho escravo nos entrepostos do novo mundo e submetidos a um fluxo constante de influências e características musicais.  O grande mérito do diretor do documentário é a imparcialidade quanto ao seu papel na formatação do projeto etnográfico-político-social se Youssou N´Dour, que em alguns momentos chega a ser radical na escolha dos componentes da sua trupe, mesmo quando nos remete as imagens do marketing dos que a vendem como produto para o altruísmo de uns poucos privilegiados monetariamente ou a uma África fiel as suas tradições sem se ater ao pano de fundo para captar arroubos humanísticos para ações pontuais de organismo internacionais, organizações da sociedade civil e celebridades. Por isso a obra cinematográfica ganha o mérito de cumprir o pré-estabelecido de desvendar uma outra África possível e, escondida entre o moderno e o tradicional, como que querendo dizer ao mundo que ainda pode contribuir muito com seu espírito de diversidade, da sua capacidade de se reinventar e ser multi para um mundo cada vez mais padronizado pela tecnologia social mediando comportamentos, tendências e processos criativos.

Formado pelo pianista Abdoulaye Diabaté, na kora Djeli Moussa Diawara e na percussão Moussa Cissoko e a convidada do Kora Jazz Trioconvidaa sapateadora americana Roxane Butterfly . Na kora, aquele considerado o número um do instrumento, Djeli Moussa Diawara, nascido na Guiné em 1961 em uma família cujas raízes musicais de gerações, o seu pai era um tocador famoso de balafon (primo de madeira do xilofone) e mãe cantora. Membro da casta djeli – griots que carregam a tradição de recitar notícias da cidade nas aldeias através de letras e melodia na kora, hoje leva mundo afora a tradição musical, a técnica instrumental e os valores de um milênio de história oral e genealogias. Outro destaque do instrumento é o irmão de Toumani Diabaté (convidado de Bela Flack)  e (convidado de Ketama)  ,  Mamadou Diabaté, nascido em Kita próximo da capital do Mali, Bamakon, local de grande influência da cultura mandinga na África Ocidental. Nascido em uma família de griots, filho de Djelimory Diabaté, músico do Ensemble Instrumental de Mali, aprendeu com o pai a tocar (jogador) o instrumento ainda criança. Iniciou com a cora ou harpa-alaúde africana de 21 cordas, com a qual começou a realizar eventos públicos, como batismos e casamentos, além de vencer vários concursos, se tornando uma celebridade regional aos 15 anos. Em 1996 passou a excursionar com o Ensemble de Mali e posteriormente instalou-se nos Estados Unidos. Na mesma linha de fusão sonora da musicalidade senegalesa de ritmos, cantos e instrumentos tradicionais dessa cultura milenar flertando com o jazz daqueles da diáspora. O grupo formado por africanos, Kora Jazz Trio é o melhor exemplo de combinação de passado e presente combinando estruturas rítmicas, harmônicas e melódicas para a construção musical com o uso de notas soltas da improvisação jazzística e dos blocos de notas da levada percussiva da música africana. Com formação totalmente atípica para os padrões do Trio de jazz, tem formação com piano, tambores e a kora dando uma identidade própria para a sonoridade do trio, onde a kora cumpre o papel de instrumento solista sem perder a alma do jazz e a transmissão musical passada de geração a geração. A kora, uma espécie de harpa-alaúde feita de materiais oriundos da zona geográfica em que é construída origem na África Ocidental, região no oeste da África, que inclui os países na costa oriental do Oceano Atlântico e alguns que partilham a parte ocidental do deserto do Saara.

Os países parte da África Ocidental são: Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Gana, Mali, Niger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Togo e Mauritânia, com o triste título em ser o último país a abolir a escravidão em 1981. Outros mapas da história da África podem ser encontrados em Mapas da História da África do curso on line da UFG – Universidade Federal de Goiás- sobre a história da África.

Os países insulares desta região e alguns do Golfo da Guiné, normalmente considerados parte da África Central como, são para alguns efeitos, incluídos na extensão dos seus cerca de 9 milhões de quilômetros quadrados da região da África Subsaariana ao sul do Saara, dividindo o continente africano em duas partes distintas quanto ao quadro humano e econômico, a chamada “África Negra” de países como: Camarões, Cabo Verde, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Gabão e São Tomé e Príncipe. Cada um dos materiais utilizados na construção da kora tem um significado mitológico. A caixa de ressonância, feita com metade de um cabalash (uma espécie de cabaça gigante) escavado, simboliza a terra; a madeira, utilizada para fazer o braço e outros componentes; a pele que cobre a caixa de ressonância, a magia e as presilhas para tencionar a pele simbolizam a força dos metais. Assim a oralidade dos anciões é passada de geração em geração confere a kora um simbolismo poderoso de sabedoria pela ligação do seu som aos rituais de celebração da alegria e da fé africana daqueles na América, classificados etnograficamente segundo suas línguas autóctones (são as línguas que primeiramente se formam e são faladas em um país ou região): bantu, iorubá ou mandinga, por exemplo, pela complexidade geográfica dos locais de origem no continente.

A Lei nº 10.639/2003 determina a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nos currículos escolares. Contudo, ainda temos muita dificuldade em introduzi-la na sala de aula pela grande escassez de material didático para aproximar os estudantes da cultura africana e faze-los entender que essa cultura que aparenta ser tão pessoal, distante e indiferente, na verdade é o embrião da nossa própria identidade como povo. Uma indicação é o livro sugestivo até no nome: A África na Sala de Aula – Visita  À História Contemporânea -,   Editora   Selo Negro,   publicado em 2005 pela paulista, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela PUC/SP, mestre em Ciências Política pela USP e doutora em Ciências Política pela PUC/SP, Leila Leite Hernandez. Com densa pesquisa historiográfica, cartográfica e icnográfica, o livro desafia preconceitos e preenche lacunas de conhecimento sobre a história do continente africano. A autora re-visita, com extrema sensibilidade, temas fundamentais para a compreensão da história contemporânea desses países na historicidade da violência, discriminação e arbitrariedades dos regimes colonialistas das nações européias. Fatos que fortalecem a têmpera das elites africanas e a indignação dos povos do continente, levando os movimentos de independência a clamar por direito, liberdade e igualdade como sinônimo de imparcialidade e justiça. A obra contribui de forma significativa para a percepção de que esses temas continuam mal compreendidos pela historiografia e que essa precisa se despir das colorações emocionais e políticas para que seja apresentado de forma correta, principalmente, “na sala de aula”. O continente africano é sempre ligado à tradição, como se outros povos nos outros continentes não tivessem tradições. Os africanos tornam-se facilmente explicáveis, basta invocar razões antropológicas, éticas e etnográficas; enquanto os europeus e americanos são entidades complexa, alerta o escritor moçambicano Mia Couto no prefácio da obra.

 Mas o grande anfitrião deste road-movie de volta ao “ponto zero” da contribuição musical da “Diáspora Africana” na América é o projeto do filho Senegalês Youssou N´Dour, cujo objetivo é mostrar o quanto o legado musical da matriz africana influenciou a musicalidade da América através dos estilos musicais onde a influência da cultura daqueles descendentes da mão-de-obra escrava somou-se aos timbres e instrumentos da América branca, aliando espiritualidade, técnica e educação musical transformando-se em estilos musicais universais como o jazz e o gospel, por exemplo. O diretor do documentário Retour  à Gorée, premiado como o melhor documentário do Festival de Filmes Pan Africano de Los Angeles, Pierre-Yves Borgeaud, parece nos dar as imagens de uma identidade meio termo entre o Africano e o de cultura americana levando-nos através das imagens da câmera que nos conecta aos flashes de uma mostra paralela em preto e branco com imagens caricaturais de meninos e meninas expostos à insensibilidade do que foi e, do que ainda pode ser o espaço escolar na disseminação de valores apreendidos no núcleo familiar para as formulações de questões referentes as matrizes formadoras da nossa cultura multirracial, enquanto segue a narrativa do cantor senegalês na sua condição de cidadão do mundo buscando no jazz o vínculo entre a América dos escravocratas do sul dos EUA, principalmente, e a sua trajetória na transformação do sofrimento em motivação necessárias às causas que mudaram os pressupostos da capacidade humana, indiferente ao que se pregava no meio acadêmico para legitimar uma pseudocondição humana de inferioridade usando as questões de raça e etnia segundo teses, postulados, pressupostos eurocêntricos no passado de cânones eugenistas, agora, dissecadas ao olhar clínico de congêneres pesquisadores-interlocutores esmiuçando verdades e mentiras no campo da antropologia, neurociência e genética na América do primeiro Presidente negro. Famoso por seu trabalho com Peter Gabriel, Paul Simon, Sting e Bruce Springteen. Em nenhum momento busca passar a imagem de compromisso com a imagem de jazzista, mas, sim de fazer do flerte com o jazz a ponte entre aqueles da diáspora africana interessados na historicidade sócio-político e musical com influência africana. O seu desejo de aprender mais sobre o jazz levou-o a Luxemburgo, onde desenvolveu trabalho de pesquisa com o guitarrista Wolfang Muthspiel e o pianista suíço (deficiente visual), Moncef Genoud. Recrutaram o quarteto gospel de Atlanta, o grupo gospel The Harnony Harnoneers, a cantora folk Pyeng Threadgill de New York, o baixista James Cammack que tocou com o pianista Ahmad Jamal e o baterista Idris Hammed, que tocou com o pianista Herbie Hancock, que coloca em prática o seu incomparável conhecimento rítmico passeando naturalmente entre os vários ritmos da diáspora e o despertar espiritual da sua ancestralidade quando no Dakar visita e toca tambor com um grupo de djambeiros locais antes do momento de confraternização na atemporalidade musical de homens e mulheres de boa vontade e fé nas possibilidades, indiferente a cor da pele, do poder de comunhão da música colocando pessoas, nações e religiões juntos e misturados na celebração às vítimas do holocausto negro em nome de objetivos maiores por um mundo melhor a cada dia.

BIBLIOGRAFIA  

Titulo: Retour à Gorée
Diretor: Pierre-Yves Borgeaud
Músicos: Youssou N´Dour, Moncef Genoud, Gregore Maret, Ernie Hammes, Idris Muhammad, Pyeng Threadgill e James Cammack
Gênero: Documentário
Produção: França, Inglaterra
Duração: 1h 48 min
Site Oficial: http://www.retouragoree.com

HERNANDEZ, Leila Leite. A África na Sala de Aula – Visita à História Contemporânea. Editora: Selo Negro, São Paulo, 2005.

BEAH, ISHIMAEL. Muito Longe de Casa – Memórias de um menino-soldad. Editora Ediouro. Rio de Janeiro, 2007 .

A Arte da Kora
http://www.kora-music.com/e/frame.htm
http://www.youtube.com/watch?v=PrEPm04v9Mk
http://www.youtube.com/watch?v=OU6YZcs2w3w

Sugestão de leitura:

Lei 10.639/2003 – A África na Sala de Aula
Proposta metodológica para o ensino de história da África na Educação Básica (Ensino Fundamental Maior)
Profª REINALDO, Telma Bonifacio dos Santos
http://www.telboni.net/visualizar.php?idt=2048036

4 Respostas to “Retour à Gorée”

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