A importância do Sonho e da Luta

By Pedro Serrão

As últimas três décadas marcaram o auge da expansão capitalista mundial na sua forma mais agressiva e violenta, a globalização neoliberal: as privatizações, o progressivo abandono das funções sociais do Estado e a destruição de todos os obstáculos ao livre fluxo dos capitais e à sua expansão desmedida, selvagem e irracional. Entre os países do mundo e dentro de cada país, nunca houve uma distância tão grande entre ricos e pobres, com o aumento da pobreza e da concentração de renda. Vivemos uma crise humanitária e ambiental sem precedentes na história da humanidade, sem falar da crise alimentar e da energética, e, no entanto, a crise econômica continua sendo o centro do debate nos principais meios de comunicação – o que é natural, visto que é a preocupação dos ricos e dos grandes.

Nos Estados e países, formam-se sistemas políticos compostos por governos e empresas que se apropriam do poder e dos recursos e orientam as políticas públicas de acordo com seus próprios interesses, abandonando o povo à própria sorte, sem nenhum tipo de assistência, sem saúde e educação decentes, sem cultura, saneamento, habitação, emprego ou o que quer que seja. Utilizam a concepção hegemônica e dominante de “DESENVOLVIMENTO”, baseada na idéia de industrialização e de crescimento econômico, a massificação do consumo fácil e voraz e o monopólio dos grandes meios de comunicação para difundir suas idéias, seus valores e legitimar suas políticas e suas ações. Quem se desenvolve com o “desenvolvimento”? Naturalmente, as elites políticas e econômicas nacionais e internacionais através das grandes obras, dos grandes contratos de prestação de serviço, da criação – com dinheiro público – da infra-estrutura necessária ao saque dos recursos naturais e ao escoamento da produção, dos monopólios, da exploração dos recursos humanos facilitada pelas novas formas de contrato, mais baratas e flexíveis, dos empréstimos e transações financeiras mediadas pelos bancos, etc. O povo, o meio ambiente, os camponeses e trabalhadores sem terra, os índios, qualquer projeto ou proposta verdadeiramente democrática e a existência de um Estado que se faça presente como representante dos interesses públicos são vistos como obstáculos ao chamado “desenvolvimento” e ao “progresso”.

O paradigma da competição e a lógica do lucro, característicos do capitalismo, o desemprego, o progressivo abandono das funções sociais do Estado, a progressiva escassez dos recursos naturais, a miséria, a fome, a violência acabam criando uma atmosfera de luta pela sobrevivência de todos contra todos, exacerbando o individualismo, banalizando um tipo de competitividade sem limites éticos ou morais e promovendo a degeneração das relações entre os homens. O atual modelo de globalização e a atual concepção hegemônica de “desenvolvimento”, baseada na idéia de industrialização e crescimento econômico, são apresentadas pela grande mídia como o triunfo definitivo do capitalismo sobre as ideologias socialistas, como o único caminho a ser seguido, como algo inevitável, difundindo a descrença e a falta de perspectivas, conformando e imobilizando o povo, anestesiado e entorpecido pelo consumo fácil e voraz de bens materiais.

Diante deste quadro, o que nos faz levantar da cama todos os dias e continuar seguindo em frente? O que nos alimenta e nos mantém firmes, resistindo e de cabeça erguida? O que garante nossa dignidade e nos fortalece? É o sonho. São os sonhos que nos alimentam a alma e o espírito, que nos dão força pra seguir em frente, que nos permitem continuar de cabeça erguida, lutando, apesar de tudo. A utopia é que nos dá a direção; o sonho, a utopia são como a linha do horizonte: podemos nunca alcançá-la, mas é o que nos dá a direção e para onde devemos caminhar. Idealista, romântico, ingênuo, iludido, sonhador? Não importa. A realidade, da forma que aí está, é perversa, injusta, desigual, excludente, é dura. As pessoas são desumanizadas cotidianamente, são diariamente embrutecidas e endurecidas pela realidade, são diminuídas, degradadas, destratadas, ignoradas, violentadas. É exatamente o sonho, a utopia, a esperança da possibilidade de algo melhor que nos permite seguir em frente, que nos alimenta a alma e o espírito, que nos anima a luta.

À humanidade se impõe a substituição urgente do paradigma da competição pelo paradigma da cooperação, da solidariedade. Essa corrida louca e alucinada por um crescimento ilimitado, essa competição entre países, empresas e pessoas já não se sustenta mais, nem a curto, médio ou longo prazo. O planeta já não agüenta mais, as pessoas já não agüentam mais. A realidade, do jeito que aí está, não é boa para mais de dois terços da humanidade. Estamos no limite. É exatamente isso que já percebeu o menos de um terço da humanidade que se beneficia do atual estado das coisas e, por isso, age com violência. As elites políticas e econômicas impuseram o modelo de globalização neoliberal aos quatro cantos do mundo, mas não puderam impedir, por outro lado, a globalização da compreensão, por parte dos excluídos, dos explorados e dos oprimidos, da sua situação, assim como, a globalização dos movimentos sociais e das lutas de resistência.

Um outro mundo não é só possível, mas necessário. A construção de um outro modelo de sociedade e de globalização mais justos, baseados na solidariedade, no respeito à soberania dos povos, na cooperação, na liberdade, na convivência pacífica e que tenham como princípio a “Emancipação do Homem”. A refundação do “Estado” sobre bases verdadeiramente democráticas e populares, a elaboração de um outro modelo de “desenvolvimento”, o consumo consciente, a diminuição dos circuitos de produção-consumo, a reforma agrária, a agroindústria cooperativada, as fábricas administradas pelos trabalhadores são, entre outros, caminhos necessários para a construção desse novo mundo. A resistência das elites políticas e econômicas, em última instância, será sempre violenta, diante da ameaça da perda de poder e riqueza. Todas as grandes mudanças e rupturas históricas se deram de forma violenta, não porque as revoluções fossem em si violentas, mas porque a resistência dos poderosos à mudança foi sempre violenta. O que fazer diante desse fato histórico?

Rio, 09/09/2009

Embora você tenha escrito que, em última instância, o sonho e a utopia “alimentam o espírito” e “dão forças para seguir em frente”, o que eu concordo plenamente, também escreve: “Um outro mundo não é só possível, mas necessário. A construção de um outro modelo de sociedade”, isso significa, que reconhece a necessidade inadiável de não apenas sonhar, mas de transformar efetivamente a realidade, e nestes termos, sonhar é muito importante, mas transformar a realidade é fundamental.

Para sonhar bastam os pensamentos.

Para transformar a realidade necessita-se muito mais do que sonhos.

Necessita-se de uma instrumentação teórica interligada à ações práticas que caminhem objetivamente na direção da transformação da realidade e seja a articulação racional dessa nova sociedade. Mas como construir essa teoria. Como definir os paradigmas teóricos e práticos que nortearão essa nova realidade?

Os paradigmas capitalista e comunista já foram desqualificados pela história como instrumentos historicamente inábeis para a tarefa, mas, com certeza, a utopia socialista se apresenta como a opção que mais se aproxima dos ideais utópicos de uma sociedade mais justa, mas, quais as regras práticas dessa nova utopia, de forma que a realidade seja efetivamente transformada nessa sociedade socialista ideal.

Neste ponto, passamos do idealismo para a realidade empírica, prática, e somente neste momento começamos a delinear essa nova realidade.

Marcus Castanhola
4ª VIA

3setor@yahoogrupos.com.br em nome de Marcus Castanhola ( mcastanhola@yahoo.com.br )

 

Leitura Complementar

MARINHO, Eduardo. Observar e Absorver.
http://www.youtube.com/watch?v=YmxNx2UT5Dk
Enviado em 07/05/2010 – É preciso enxergar a realidade social, a sociedade, para poder pensar em mudá-la pra melhor. Melhorando a nós mesmos, melhoramos o mundo. E isso é o mínimo a fazer. Há muito mais, pra quem se dispuser.

3 Respostas to “A importância do Sonho e da Luta”

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