Garapa

By Renato Pellizzari

Vencedor do Urso de Ouro no ano passado com “Tropa de Elite”, José Padilha volta à Berlinale com o documentário “Garapa”, parte da seção Panorama Dokumente do festival. Exibido pela primeira vez hoje, quarta (11/06), o filme causou forte impressão na platéia mista formada pelo público regular e jornalistas. É um retrato cru e avassalador dos efeitos da fome em famílias pobres do Nordeste do Brasil. E se encaixa perfeitamente no escopo politicamente engajado da 59ª. edição. Rodado em preto e branco, sem grandes recursos visuais e nenhuma trilha sonora, distancia-se muito de “Ônibus 174″, filme que projetou a carreira do diretor no Brasil e no mundo.

“Padilha apresentou a sessão e, depois da projeção, respondeu a algumas perguntas. Ele disse que teve a idéia de fazer o documentário a partir de conversas com um amigo que trabalha na organização não governamental IBase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e coleta dados sobre a fome no Brasil. O cineasta decidiu, então, mostrar de maneira objetiva quais os efeitos desse círculo vicioso que atinge, segundo dados da ONU, 950 milhões de pessoas no mundo inteiro.

“Garapa” acompanha a rotina de três famílias pobres do nordeste brasileiro que vivem diariamente o círculo vicioso da fome. Parte desse ciclo está no fato de que os pais usam o recurso da “garapa” – água com açúcar levemente quente – para enganar o estômago das crianças e dar a elas energia para passar o dia. “A questão aí é que isso não resolve o problema”, explicou ele. “E essas crianças crescem mal nutridas, sem condições de aprender e de disputar espaço no mercado de trabalho.” (UOL Cinema)

A importância de um filme como este é muito maior do que se imagina. Essa infeliz realidade de grande parte do povo brasileiro (e mundial) fica, muitas vezes, distante dos nossos olhos. Sabemos que a fome existe, mas não podemos vê-la. Vemos um menino de rua, sua sujeira, suas feridas, sua tristeza…mas não podemos ver a sua fome. Não passamos o dia inteiro ao seu lado para perceber que ele não teve o que comer!!! 

Além do papel de conscientizar o mundo, no caso brasileiro, o filme pode servir para debatermos a importância de políticas de Estado como o “Fome Zero”. No filme, uma família recebe o benefício do governo e o diretor pergunta de que forma o dinheiro é gasto. Quando questionado, Padilha pareceu favorável à medida adotada contra a fome.

http://www.colegioqi.com.br/blog/garapa-mostra-a-fome-no-nordeste-do-brasil/

By Luiz Carlos Merten

BERLIM – Integrei o grupo que teve um choque assistindo à primeira exibição de ‘Garapa’. O próprio José Padilha, apresentado (com todas as honras) por Wieland Speck, programador do Panorama, como o diretor que ganhou o Urso no ano passado, disse que em geral não gosta de apresentar seus filmes, até porque acha que não vai poder participar de todas as exibições (e o filme precisa falar por si), mas dessa vez ele achou importante contextualizar o problema da fome. Segundo dados da ONU, um em cada 6,5 habitantes do mundo é subnutrido. Padilha, ao encarar o problema, optou por um approach emocional, não intelectual. Ele reconhece que o cinema possui essa incrível capacidade de provocar empatia e de nos lançar em outros universos – citou especificamente a série ‘Star Wars’ -, quase sempre com o objetivo de proporcionar diversão (e não condenou os diretores que assim fazem). No seu caso, ele queria que o espectador compartilhasse essa sensação terrível de morrer de fome (ou de viver sub-alimentado, sem os nutrientes necessários à sobrevivência, o que não deixa de ser outra morte). ‘Garapa’ não é um filme fácil e, menos ainda, agradável. Vai dar o que falar.

A realidade enfocada não é uma exclusividade do Brasil e Padilha está interessado em discutir a falta de vontade política de resolver o problema. O mundo investe mais em armamentos do que em programas para combater a fome – outro documentário aqui em Berlim, ‘The Shock Doctrine’, de Michael Winterbottom, explica porque isso ocorre. Em síntese, para fortalecimento do próprio capitalismo. Padilha foi cobrado sobre o Programa Fome Zero. Disse que funciona porque o governo brasileiro se limita a dar dinheiro (pouco), não investe em educação (uma calamidade, no Brasil). Ele reconhece que não mudou a vida das famílias que acompanhou, porque senão não haveria o filme, e sua contribuição para esse debate é o filme. Achei duas coisas complicadas – as intervenções do diretor, que não me pareceram muito brilhantes (tudo bem, ele não queria ‘intelectualizar’) e, por outro lado, o fato de que a miséria das pessoas é tão moral quanto material. Existem cenas de um casal se agredindo e de gente lavando roupa suja de vizinhos que me deprimiram profundamente.
A fome é um problema, já dizia Ingmar Bergman, mas já que ele vivia (e produzia) na Suécia, um país rico, a fome que lhe interessava era a de afeto, a de sexo. Padilha mistura tudo. Há uma miséria social e outra, digamos, ontológica, para usar uma referência filosófica. Foi ruído demais na comunicação, mas, claro, essa é uma primeira impressão e os filmes de Padilha nunca são fáceis de apreender imediatamente (ponto para o diretor). O que vai ser impossível será fugir de ‘Garapa’. Prepare-se, porque a barra é pesada. Imagino – ou será melhor dizer espero? – que Amir Labaki já esteja se mobilizando para levar ‘Garapa’ para o É Tudo Verdade.
http://blog.estadao.com.br/blog/merten/?title=garapa&more=1&c=1&tb=1&pb=1

Ficha Técnica

Título Original: Garapa
Gênero: Documentário 
Duração: 110 minutos
Estúdio: Zazen Produções
Brasil, 2009

Uma resposta to “Garapa”

  1. […] É de gangazumba, é zumbi Brilha o chão de Minas, Grão-Pará Velho Chico, bom de navagar Comendo poeira no sertão Chora o sertanejo violão É dona Maria, seu José Água de beber e de benzer Passe de Garrincha pra […]

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