Liberdade Cultural e Ética na Internet

As agudas mutações culturais que incidem sobre o nosso ser-estar na sociedade do conhecimento requerem uma análise abrangente de questões relacionadas à ética comunicacional. Já não vivemos apenas ao alcance do rádio, da  televisão, jornal, da publicidade, do cinema e do vídeo. A   era  dos fluxos  hipervelozes  de  informação, disponibilizados  por  redes  on-line, reconfigura irreversivelmente o campo midiático. Neste quadro de deslocamentos  e  ruptura, o  fenômeno  “internet”  precipita  mudanças   de paradigmas que podem ser absorvidos em sintonia com a idéia de humanização da sociedade. Na órbita da megarrede digital, flutuam instrumentos  privilegiados de inteligência coletiva capazes de gradual e processualmente, fomentar uma ética por interação, assentada em princípios de diálogo, de  cooperação, de negociação e de participação.

As inteligências coletivas, que se expressa nas atividades extensivas e multidimensionais das comunidades de usuários, reorganiza, a todo instante e  interativamente, as massas de informações on-line para consumo público através conexões transversais e simultâneas. A nova ambiência favorece o reconhecimento mútuo dos indivíduos e dos grupos envolvidos na comunicação, redefinida como processo de objetivação partilhada da consciência humana, em um contexto comum. É a inteligência coletiva, desterritorializada e descentralizada, que está se contrapondo à cultura verticalizada à qual tivemos que nos habituar.

O texto passa a ser molecular, caleidoscópico, desdobrando-se à vontade diante do leitor. O hipertexto semeia recursos de leitura possíveis, em que o navegador se faz autor de maneira literalmente imprevista, participando da estruturação dos textos, criando ligações e sentidos entre eles ou a partir  deles. Em vez de índices pré-programados, podemos explorar representações  variáveis. Nesse viveiro imensurável de pólos de veiculação, os sites apresentam-se como mídias de novo tipo ou infomídias interativas. Elas  armazenam, processam, distribuem e atualizam dados e imagens oriundos de múltiplos campos do conhecimento. Efetivam-se como pontos de visibilidade para interseções comunicacionais, sem correspondência com as estruturas autoritárias das oligarquias das velhas mídias. De fato, a pragmática da internet desfaz a polaridade tradicional entre um centro emissor ativo e receptores passivos.

No ciberespaço, cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não-fixo e disposto pelos usuários. Não é por seus nomes posições geográficas ou sociais que as pessoas se reúnem virtualmente, mas de acordo com blocos de interesses, numa paisagem comum do sentido ou do saber. Enquanto a televisão, o rádio e o jornal nos trazem as notícias que se selecionam conforme suas próprias diretrizes, as redes computadorizadas impelem-nos a ir atrás das informações dispersas pelos hemisférios, com a prerrogativa de definirmos por conta própria a que mídia, programas de busca ou base de dados a recorrer, refletindo toda complexidade psíquica, afetiva, social, ética, cultural, econômica e política-ideológica do mundo atual.

São pessoas comprometidas com causas e comprometimentos semelhantes, que dispõem de grupos de discussão, lista de informação, publicações eletrônicas e a circularidade informativa entre páginas eletrônicas, através de links que se remetem e se referenciam um s aos outros, por temáticas afins. Os assuntos mais discutidos são educação, saúde e bem-estar, cultura, entretenimento, tecnologia e ciberdemocracia (ou democracia tecnológica). Além do suporte técnico à elaboração de home pages, as Freenets atendem com ardor a liberdade de expressão na Web, organizam manifestos e atos contra a censura e a pirataria, e promovem simpósios e eventos em tempo real. Eis aí outra dimensão da ética por interações: estimula processos telecomunicacionais de inserção político-social de forças contra-hegemônicas, sobrepujando os filtros ideológicos e as políticas editoriais dos complexos de mídia.

Na internet, nota-se a convivência das vanguardas high-tech com manifestações de crenças populares, onde as pessoas colaboram-se para preservar e disseminar valores de determinadas regiões, povos e raças. Identidades culturais organizadas-especialmente os códigos de integração coletiva, como a língua, a religião – podem reconstituir-se nos fluxos eletrônicos sem perder o seu enraizamento na memória afetiva das sociedades.

A ética por interações prospera nos grupos, lista de discussão, conferências eletrônicas, etc.. Sem jamais terem se visto, pessoas se encontram para conversar, trocar experiências, obter dados, fazer amizades, namorar, ou simplesmente passar o tempo. O sentimento de pertencer pode ser importante como fonte de informação, diversão, aprendizado, referência afetiva e até como terapia, como também se formam parcerias, ponto de encontro para ajudas mútuas e laços de solidariedade – inclusive no sofrimento. Cinco pólos de magnetismo ajudam-nos a esclarecer o afluxo aos chats:

1.a liberdade para relacionamento de qualquer espécie;
2.sincronidade nas conversações
3.a garantia do anonimato;
4.a desobrigação de submeter-se a regulamentos

Há que se admitir que a inexistência de protocolos éticos rígidos (como nos grupos de discussão) e o uso de pseudônimos geram atitudes deletérias. Nas salas sobre sexo, namoro e erotismo, são freqüentes insultos, pornografias e intromissões descabidas. Claro indício que a atmosfera de desrepressão por vezes confunde com cartases, liberação de agressividade e de instintos difusos. Para certas impropriedades há antídotos virtuais. Se uma pessoa se sente incomodada ou ofendida com o teor de uma mensagem que lhe é remetida, deve cortar unilateralmente o acesso, bastando para isso não responder o agravo. Diante da falta de resposta, o interlocutor vê-se impossibilitado de prosseguir.

Críticos moralistas agarram-se à convicção de que o caos da internet dispensa responsabilidades individuais e grupais, estimulando a permissividade. De fato, praticam-se excessos. Mas por que tanto espanto? A sociedade atual está atravessada de abusos e descasos insuportáveis por metro quadrado. Os mesmos moralistas calam-se diante do desemprego estrutural advindo da globalização, deprimente subproduto da panacéia neoliberal cuja única preocupação é a produção, por isso o projeto neoliberal não tem uma dimensão humana e acaba excluindo as pessoas repugnando-se a custear a sobrevivência, à saúde, a educação e a previdência daqueles economicamente explorados e excluídos.

Por que a internet, sendo uma projeção da consciência humana, com interfaces cada vez mais próximas entre as mentes e as tecnologias, haveria de ser exceção?

O grande diferencial da internet consiste no fato que as comunidades virtuais, enquanto corpos orgânicos, definem e objetivam seus valores éticos e códigos informais de conduta. Tais regras não provêm de fora, dos pontos altos das estruturas de poder, e em nada se confundem a internautas com a cabeça sob uma espada como Dâmocles:

(…) invejava a posição, a riqueza, o poder. Queria ser como você, ele dizia, é só ordenar e não precisar se preocupar com nada. No dia seguinte Dionísio resolveu dar a Dâmocles um gostinho do poder. menos conhecida que as outras, a expressão “espada de Dâmocles” é, no entanto, utilizada quando se deseja informar uma situação de grande risco em que uma vacilada pode significar a derrota ou a morte. Conta-se que Dionísio, rei de Siracusa tinha um amigo, chamado Dâmocles, que lhe sentou no trono, tratado como rei, tudo do bom e do melhor… era só ordenar. Depois de muitas horas de luxúria, Dionísio fez um gesto para que Dâmocles olhasse para cima. Na posição em que estava sentado no trono, Havia ma espada apontada para sua cabeça, amarrada por um simples fio da crina de cavalo. Essa espada, explicou Dionísio, representa os problemas a resolver, as ambições dos pseudo-amigos, o perigo dos inimigos. Um passo em falso, uma agitação maior, e o fio se rompe. Dâmocles desistiu rapidinho da idéia.

2 Respostas to “Liberdade Cultural e Ética na Internet”

  1. I just want to tell you that I am just newbie to blogging and site-building and truly liked you’re web page. Most likely I’m want to bookmark your blog post . You actually have fabulous articles and reviews. Regards for sharing with us your website page.

    Curtir

  2. I just want to mention I am just all new to blogging and actually savored your web site. Probably I’m going to bookmark your site . You amazingly come with perfect articles and reviews. Kudos for sharing your webpage.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: