A internet como um novo espaço antropológico

By Autor Desconhecido

Este novo espaço com áreas de privacidade – um novo mundo virtual ou mundo mediatizado – é um suporte aos processos cognitivos, sociais e afetivos, os quais efetuam a transmutação da rede de tecnologia em espaço social povoado por seres que (re)constroem as suas identidades e os seus laços sociais nesse novo contexto comunicacional. Geram uma teia de novas sociabilidades que suscitam novos valores. Estes novos valores, por sua vez, reforçam as novas sociabilidades. Esta dialética é geradora de novas práticas culturais. Trata-se de um novo tipo de organização socio-técnica que facilita a mobilidade no e do conhecimento, as trocas de saberes, a construção coletiva do sentido, em que a identidade sofre uma expansão do eu baseada na diluição da corporeidade, ou seja, o que se perde em corpo ganha-se em rapidez e capacidade de disseminar o eu no espaço-tempo. Assiste-se, assim, a uma aceleração do metabolismo social. Geram-se as chamadas comunidades virtuais (Rheingold,1996; Soares,1999) que se sustentam na partilha intelectual e na convergência da pluralidade e riqueza dos conhecimentos que emanam dos sujeitos. Nestes novos espaços sociais geram-se novas solidariedades, novos excluídos, novos mecanismos de participação, novas formas de democracia, de negociação, de decisão, de cooperação, de afetividade, de intimidade, de sociabilidade que potenciam a emergência de sujeitos coletivos ou de inteligências coletivas conectivas (Lévy,1997; Kerckhove,1998).As redes e serviços telemáticos geram novos espaços de encontro, novos espaços antropológicos, há que questionar em que medida esses novos espaços representacionais (re)criam as identidades e as práticas culturais. Existe a necessidade de um pensamento crítico para analisar as transformações promovidas pelos media, nomeadamente a Internet, para que o discurso sobre esta realidade social não seja apenas o discurso utopicamente redentor, tão comum nos últimos tempos

Aparentemente a comunicação no espaço público tradicional está doente: as pessoas queixam-se da falta de comunicação entre os elementos da família e da comunidade. Passamos progressivamente a viver num regime de solidão organizada no qual a comunicação e as trocas simbólicas parecem estar enfraquecidas e, com elas, a idéia de comunidade também parece encontra-se bastante fragilizada. Talvez até a idéia de comunidade não esteja enfraquecida e apenas estejamos a passar por uma fase transitória em que essa idéia, e respectivo sentimento associado esteja sofrendo um processo de metamorfose. E nessa metamorfose coabitem modos tradicionais de comunidades e formas emergentes do cenário tecnológico da comunicação. Ainda assim, poder-se-á pôr a questão: Quem se sente membro de uma comunidade de bairro, de paróquia, etc. Apesar de não existir uma resposta unívoca a esta questão, ela faz refletir sobre uma certa diluição de alguns modos de comunidades locais baseada na presença e a afirmação progressiva de comunidades baseadas em laços proporcionados pela geografia midiática.

É neste cenário que as trocas simbólicas no âmbito dos serviços telemáticos em rede parecem recriar a comunicação onde ela parece estar moribunda, ou seja, a nível interpessoal e de geração de laços sociais do ressurgimento do sentimento de comunidade. Deste modo, o mundo virtual das redes telemáticas surge como uma nova oportunidade, como possibilidade de comunicação aparentemente segura e sem conflitos, enquanto que no mundo real os conflitos se multiplicam e a insegurança se instala. Quem toma a iniciativa de encetar diálogo com o estranho que se encontra da mesa do lado, no café? E quem hesita estabelecer diálogo com o desconhecido que está da sala de IRC onde se acaba de entrar ou que tem o seu e-mail numa Web-page que trata de um assunto que também nos interessa ou nos despertou curiosidade? Deste modo, não se poderá deixar de pôr a questão, se não estaremos face uma virtualização do espaço público concreto com a tendência para a multiplicação das formas de mediação. Gera-se assim um espaço antropológico alternativo.

«As comunidades virtuais são feitas de pessoas e do que elas realmente querem, daquilo que realmente lhes interessa, sem constrangimentos prévios ou póstumos (…) As novas tecnologias dão a cada um de nós um poder sem precedentes de construir o nosso próprio mundo de referência, de encontrar as pessoas que realmente nos interessam, estejam onde estiverem, de aprender e ensinar sobre aquilo que realmente queremos que faça parte da nossa vida.»(Soares,1999:75)

«Talvez o ciberespaço seja um dos lugares públicos informais onde possamos reconstruir os aspectos comunitários perdidos quando a mercearia da esquina se transforma em hipermercado. Ou talvez o ciberespaço seja precisamente o lugar errado onde procurar o renascimento da comunicação, oferecendo, não um instrumento para o convívio, mas um simulacro sem vida das emoções reais e do verdadeiro compromisso perante os outros. Seja qual for o caso, precisamos de descobri-lo o mais rapidamente possível.»(Rheingold,1996:43)

Ao abordar a questão da geração de novos espaços públicos, novos espaços antropológicos surgem concomitantes a questão da territorialidade, na medida em que o território é o ponto de ancoragem fundamental na construção das identidades. Contudo, o território como ponto de ancoragem da identidade só existe através de um sistema de representações que serve para desenhar as fronteiras desse território, mas, sobretudo, povoa esse espaço de símbolos e de significações (sentido) que lhe dão a sua individualidade e especificidade em relação aos espaços vizinhos. O território é, pois, fruto da construção de sistemas de representação. Apesar de, normalmente, quando se fala de território lhe estar associada a idéia de fronteiras geográficas, dever-se-á cada vez mais sublinhar que são os elementos simbólicos representativos de um território que lhe dão identidade.

Esta idéia permite pensar a existência de territórios na Internet, enquanto espaços ou territórios de fluxos de informação e comunicação que geram representações partilhadas. E, por um lado, a Internet tem conduzido ao repensar das fronteiras geográficas e das próprias relações de territorialidade devido à dimensão global dos fluxos infocomunicacionais, por outro lado, as sociabilidades presenciais também são afetadas porque a Internet fez surgir novos espaços e motivos de encontro, como por exemplo, os cibercafés, as lan houses, internet comunitária, etc.. A Internet tem uma gramática socio-técnica própria, fruto da possibilidade de fusão do audiovisual, das telecomunicações e da informática o que lhe dá a especificidade baseada na convergência e na interoperabilidade, envolvendo novas linguagens, novos comportamentos e novos simbolismos. Esta realidade promove uma nova gramática organizacional que terá que ter em consideração que os media são sempre híbridos – técnicos, sociais e culturais – e que os usos não são apenas tecidos por uma lógica racional, mas também emotiva.  A tecnologia propõe mudanças, mas é a sociedade que vai fazer uso dessas tecnologias, logo, não se deve ter uma expectativa demasiado elevada quanto à mudança porque a velocidade da mudança social é substancialmente mais lenta que a mudança tecnológica. A mudança social não acontece, constrói-se. Um novo Éthos, o Éthos da mediatização tecnológica da comunicação instalar-se-á progressivamente envolvendo-nos de modo silencioso, subtil, mas eficaz. É necessário estar atento para participar criticamente no processo.

Uma resposta to “A internet como um novo espaço antropológico”

  1. I simply want to mention I am new to blogging and site-building and seriously enjoyed you’re page. Likely I’m likely to bookmark your website . You certainly have awesome article content. Cheers for sharing your website.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: