Periferia e Direitos Humanos no Ciberespaço

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo

Passados doze anos da criação do documento sempre citado como a bula da cibernética é a Declaração de Independência do Ciberespaço, escrita em Davos, Suíça, em  8 de  fevereiro de 1996, por John Perry Barlow, co-fundador da Eletronic Frontiers Foundation. Um pouco do seu argumento:

Governos do mundo industrial, gigantes aborrecidos de carne e aço, eu venho do espaço cibernético, novo lar da mente. Em nome do futuro, eu peço a vocês do passado que nos deixem em paz. (…) Vocês não têm direito moral de nos impor regras, nem ao menos de possuir métodos de coação a que tenhamos real razão para temer. (…) Vocês não conhecem nossa cultura, nossos códigos éticos ou falados, que já proveram nossa sociedade com mais ordem do que se fosse obtida por meio de qualquer das suas imposições. Vocês alegam que existem problemas entre nós que somente vocês podem solucionar. Vocês usam essa alegação como uma desculpa para invadir nossos distritos. Muitos desses problemas não existem. Onde existirem conflitos reais, erros, iremos identificá-los e resolve-los por nossos próprios meios. Estamos formando nosso próprio contrato social. (…)

Estamos criando um mundo em que todos poderão entrar sem privilégios ou preconceitos de acordo com raça, poder econômico, força militar ou lugar de nascimento. Estamos criando um mundo onde qualquer um, poderá expressar suas opiniões, não importando quão singular, sem temer que seja coagido ao silêncio ou conformidade. (…) Acreditamos que a partir da ética, compreensivelmente interesse próprio de nossa comunidade, nossa maneira de governar surgirá.

Nas palavras de John Perry Barlow nasce meu preâmbulo para a massa de internautas oriundos das Políticas Públicas voltadas para inclusão digital, ou seja, dizer que o ciberespaço e a sua interatividade estão abertos para novas falas. A rede mundial de computadores pulverizou tantos paradigmas, que já não se trata mais de celebrar o acesso da humanidade à informação, mas de perceber a capacidade de cada ser humano de criar e produzir, ele próprio e junto dos demais, informação, técnica e saber. O saber produzido e contido no mundo virtual será democrático quando seu uso deixar de ser elitista. A tecnologia é justa

Se for para todos. A novidade precisa ser a apropriação social da tecnologia da Web e o crescimento contínuo de um espaço público. Portanto, a entrada de novos formadores de opinião catapultados das camadas populares pelas políticas de inclusão sócio-digital e a conseqüente interatividade do Ghetto Globalizado é uma realidade sem retorno para novos paradigmas no colóquio da blogosfera. Assim, conforme mostre ou esconda determinada realidade, valorize ou estigmatize determinados fins e valores, regras e recursos e conforme mobilize e desmobilize a energia das pessoas para alcançar ou impedir certos fins, certos resultados sociais, a comunicação midiática é hoje fator central para o bem ou para o mal, embora não conclusivos, do comportamento dos membros das sociedades contemporâneas em muitas áreas de interesse coletivo como educação, economia, política, ecologia, cultura, lazer, segurança, direitos civis, humanos e sociais.

Mesmo em mais uma defasagem cultural, as políticas públicas para a inclusão digital são possivelmente o caminho mais viável para uma fala periférica nos espaços de poder quando esta se faz sujeito dos seus saberes criando novos parâmetros estimuladores da acessibilidade para o olhar da ótica do outro no processo cultural da tão conturbada prática docente, já que os professores são o melhor ponto de partida para que os jovens aprendam a navegar por esses mares do conhecimento. O mundo de hoje não cobra da escola apenas ensino, mas formação. Cabe ao professor agir como um animador da inteligência coletiva e não mais como um mero fornecedor de conteúdos. O livre-trânsito na internet significa livre-trânsito de inteligências, troca de idéias e experiências, estreitamento de contato com os alunos, busca coletiva para a solução de problemas, atualização pedagógica permanente, ou seja, liberdade para praticar um novo conceito de trabalho: aprender, transmitir saber e produzir conhecimento.

A internet pelo seu papel multiplicador torna-se referência da capacidade pró-ativa dessa massa de excluídos nos círculos de deliberações restrito à elite freqüentemente preocupada consigo mesmo e vidrada nas nações que se acostumaram a tomar como referência mesmo que nos primeiros passos da conectividade para ampla maioria da população. Logicamente soa como ingerência na vida virtual nacional de alguns poucos à entrada de uma fala periférica argumentativa e os seus valores identitários contrapondo a atmosfera pragmática da blogosfera com toda sua interatividade do “Eu” para o colóquio com o coletivo em rede e suas adequações necessárias à filtragem de uma cultura para o improviso, para o engenho indisciplinado, porém fervoroso, fecundo em nome da prática em rede com possibilidades revolucionárias com a cara dos brasis do Brasil. Para se chegar a tal estágio será preciso reconhecer a natureza complexa dos objetivos infocomunicacionais saídos da elaboração entre o “ativismo governamental” e a iniciativa privada ou no apoio ao trabalho pioneiro do 3º Setor, já nas comunidades, nas capacitações voltadas para o acesso consciente à internet; que diferente de disponibilizar computadores sem os tutores habilitados, fazer dos equipamentos infocomunicacionais parte do processo da sustentabilidade, de ascensão sócio-pessoal, instrumento da criatividade nascida da engenhosidade desses novos multiplicadores dos saberes comunitários.

A chegada destes a blogosfera vem para desmistificar valores intelectuais introjetados diariamente num processo de lavagem cerebral para desvinculações identitárias do passado sem literatura, porém latente na oralidade, que aflora transformada em saber para os espaços de poder como exemplo de resistência; de se fazer sujeito da sua narrativa de vida, mesmo que nascida em um beco da favela ou em qualquer ponto da geografia da pobreza. Pobreza, que não significa incapacitação para a contra-cultura ou dos heróis sem caráter Macunaíma e Mitavaí; porque estes não são a identidade nacional, todas as explicações do passado para a falta de caráter não podem valer para o futuro, não são uma justificativa forte bastante para nos manter imóveis ante a possibilidade do discurso contra-hegemônico imposto com ou sem questionamentos. 

Além dos equipamentos culturais necessários a participação de novas falas nas deliberações da vida nacional, outros pontos relacionados à visibilidade de todos os saberes do nosso multiculturalismo dão-nos prova desse momento fértil para a liberdade de expressão. Dentre os fatos, destaque para o posicionamento do ministro do STF que derrubou 22 pontos da “Lei de Imprensa” e deixando no ar a possibilidade, no julgamento final do caso, da suspensão integral da lei. Segundo o ministro, a lei que saiu de uma ordem constitucional que se contrapõe à ordem constitucional de hoje, da era 1988. Portanto, muitos dos seus dispositivos entram em rota mortal de colisão com a atual constituição pelo que ela apresenta de avanço, ou seja, foi a superação de uma época de obscurantismo, de autoritarismo, de atraso mental. A imprensa cumpre esse papel de arejar mentes.

No seu posicionamento, esclarece que não se cansa de dizer que o Brasil experimenta um quadro de arejamento e depuração mental. Finalizando a sua fala, o Ministro Carlos Ayres Filho diz: Quando fazemos uma viagem democrática é uma viagem sem volta, não se admite retrocesso. Nós vivemos num mundo que se caracteriza pela velocidade das comunicações onde as instituições interagem com rapidez, uma inspira a outra. 

Como conseqüência desse arejamento mental teremos novas falas abrindo portas a um público ávido de contextos mais vivenciais que dialéticos por n fatores da literatura de pressupostos calcadas no passado de cânones eurocêntricos e suas verdades da condição humana, freqüentemente desconsideradas por novos paradigmas do avanço da ciência, regida por novos modelos, símbolos, percepções e sensações para um mundo em constante transformação. Faço coro de que as políticas de inclusão digital para a grande massa excluída dos processos com poder de voz são o caminho mais viável para a escuta sensível dos novos formadores de opinião. Outro ponto contundente a ser arestado é a chegada de novos amantes da literatura em que se vejam representados a partir dos seus contextos de realidade, a partir das suas singularidades periféricas e não mais como aleijões das crônicas diárias para a representação de vidas precárias nascidas das elocubrações jornalísticas e seus arquétipos humanos fruto da linearidade de suas fontes de consultas ultrapassadas se somando aos devaneios que habitam o mais ínfimo nos temores de seus pares coagidos pelo medo diário e a conseqüente fabulação de estereotipo para todo um coletivo de homens e mulheres comuns aos seus valores de “o outro” saído dos espaços populares para se formatar como contra-cultura periférica ou argumento contra-hegemônico como querem alguns.

Logicamente os subprodutos dos seus medos são permeados por dicotomias, já que foram anos de falta de literatura de um lado e do outro a literatura do saber que foi pontual mais não foi investigativo e, ou científico; ficou “an passant” na lembrança de alguns parágrafos da leitura de algum cânone, o que significa mais credibilidade nos escritos, inspirador da erudição para platéia de leitores obedientes por falta de questionamento de uma contra-cultura nascida nos afagos da democracia racial e as suas verdades empurradas para debaixo do tapete ou ao bel prazer dos mais afortunados pelo conhecimento e, que talvez chegue próximo a sua realidade idealizada na distância geográfica entre vida real, caneta, computador e papel retratantes daqueles no antagonismo das letras. Ainda bem que os ares da nova ordem já sopram uma brisa com gosto de contestação de uma emergente fala periférica e a sua argumentação contra-hegemônica, mesmo que tardia aos tantos anos de simples expectadores. 

Espero que o vento da mudança atue a favor do arestamento natural no velho do conceito de representação dos anseios dos eleitores segundo o desejo das urnas e que a esperança contida nas falas dos vários discursos de políticas públicas voltadas para a melhora do índice de desenvolvimento humano advindo do investimento em tecnologia educativa acessível a todo brasileiro não seja mais uma brisa passageira, pois a aceitação de núcleos menos olímpicos da personalidade falando da sua realidade coincide com a acessibilidade às informações necessárias à erudição e ao autoconhecimento; fruto da disponibilidade em rede dos avanços e a influência da antropologia, da sociologia e da psicologia segundo uma linguagem mais próxima à realidade dos seus inspiradores e sem as desvinculações eurocêntricas dos mentores apartados de fatos que dizem a respeito a nossa complexidade étnico-racial-social para os devidos contornos de politicamente correto e de terror psicológico no imaginário coletivo do nosso antagonismo de classes.

Que os novos ventos se façam de maneira mais equânime e com sabedoria a leitura dos meandros da capacidade humana de se reinventar e se fazer sujeito de uma fala que não só traduza a depreciação do caráter a partir do conceito de letrados e não-letrados, mas também tenham bússolas para novas possibilidades da convivência frutífera na exposição de vivências sensíveis habitando a psicologização diária de artigos recheados de personagens nascidos da insensibilidade por falta de trocas interpessoais e embasamento científico necessários à consolidação na prática vivencial para verdades, nem sempre absolutas, do contido nos pressupostos de compêndios da interação humana, onde uma palavra mal colocada não consegue esconder a expressão agoniada do inocente que, por uma simples frase, torna-se culpado, errado, aleijão. Por quê? Por que na orquestração daquele que se julga conhecedor dos meandros do comportamento de seus inspiradores de tal maneira que, basta os velhos clichês da negatividade do caráter somado a algumas pérolas do vernáculo e pronto, está estabelecida a empatia com o público alvo para a sua análise do “outro” com todos os ingredientes que o “eu” do seu desejo precisa para extravasar sentimentos rancorosos ou rompantes da soberba. Assim vai retroalimentando os processos discriminatórios nascidos da apreciação sem as considerações do embasamento científico, ou seja, o fator empatia é o grande norteador dos parâmetros interpretativos para a composição de arquétipos segundo símbolos, significados, sensações e percepções próprias dos seus iguais no solilóquio das fabulações carentes de conhecimento do repertório de experiências pessoais, sem esquecer dos contrapontos das fatalidades do destino, atuando na construção da tabela de valores de bem/mal, certo/errado, politicamente correto/não-ético, menos valia/potencial humano, virtude/psicopatia, determinação/indolência dos seus analisados. 

Esquecido de que a realidade é diversa e as verdades não são absolutas, fechou-se à criatividade interior para o desconhecido do “outro”, deixando de ver e sentir os vários caminhos, que não pela insensibilidade das lentes da leitura míope daqueles que preferem o menor caminho por comodismo, cansaço ou burrice. Portanto, fica a observação do quanto é vã a filosofia que se alimenta no terreno infértil da alienação pelo que ela representa de ilegitimidade quando se trata da condição humana e a sua capacidade de se reinventar nos vários processos transitórios do ser ao longo da sua trajetória de vida, e o que muitos pensam conhecer da sua previsibilidade é pouco ou nada.

Na sua crônica do dia 15/02/2008 com o título MUDANÇAS, o artista plástico Enrico Bianco coloca em cheque questão dos formadores de opinião do passado recente. Segundo ele: Os últimos 50 anos a humanidade descobriu que nada andava certo. Como assim? Fácil de entender: Éramos seis bilhões de obedientes, agora somos seis bilhões de contestadores revoltados. Isto graças ao imenso avanço da comunicação. Todo ser humano, atualmente, se acha no direito de opinar, reclamar e criticar o que acontece à sua volta. Antes, as regras a serem obedecidas eram poucas e autoritárias, por isso impositivas para uma sociedade tão mal informada que acreditava piamente nos pomposos argumentos que os poderosos (fantasiados de reis, profetas ou ditadores) usavam para enganar a massa ignorante com suas deficiências, delírios e interesses vários. 

A coragem e a inteligência de mulheres e homens abnegados abriram as portas de uma liberdade mental, antes proibida, com a ajuda de uma comunicação cada vez mais rica de informações que transformam todo cidadão num ser pensante e não apenas obediente. A informação, antes restrita e monitorada por indivíduos e sociedades secretas e criminosas, passou o seu antídoto contra falcatruas que, apesar de continuarem ativas, são, pelo menos, vistas e julgadas diariamente numa lenta, mas benéfica, saturação da paciência na suportação de abusos por grande parte das populações. 

Hoje, não mais por caminhos eqüidistantes ao advento da internet temos outras mídias com todo um elenco de ações pelo audiovisual do cinema, principalmente, onde temos os fatos da vida real retratada na tela ou quando a ficção e a realidade estão na linha tênue que não se sabe onde termina e começa uma e outra pelo que esta arte pode dar vida ao mais ínfimo do sentimento e dos eventos mentais. 

Filmes que valorizam a ação educativa em todos os sentidos deveriam habitar as salas de aulas pelo que este pode interagir em dinâmicas nem sempre acessíveis ao quadro de temor generalizado para assuntos que por falta de debate e a censura em nome do politicamente correto vão cumprindo o seu eterno papel justificativo de tantas arbitrariedades em nome do silêncio para o escondido sob o tapete das aparências do nosso cotidiano intra e extraclasse das escolas públicas, principalmente.

São inúmeros os filmes que abordam o universo acadêmico e suas mazelas  intocáveis. Pelo seu poder de penetração, a televisão fica com o papel de ser a mídia divulgadora de pedagogia social, quando valoriza a ação educativa, mostrando a importância de se compreender o mundo dos educandos, de respeitar as suas histórias de vida e adotar estratégias criativas capazes de estimular a reflexão. A razão técnico-instrumental, a transmissão insensível de conteúdos, mostra-se não apenas ineficaz, mas estranha aos educandos. É preciso educar os sentimentos, valoriza-los e compreende-los, pois a vitória da sala de aula traz no seu bojo a capacitação, pois a verdade é que o mundo real do qual fazem parte, para além da sala de aula, reproduz a mesma realidade injusta, racista, intolerante, desigual socioeconomicamente, mesmo que numa outra forma de letalidade porque desmotiva potencialidades esquecidas no silencio rancoroso no fundo da sala de aula ante as lentes míopes do olhar que desconhece as singularidades da nossa pluriescolaridade pelos vários saberes permeando o universo escolar.

Imaginem crianças em salas de aula incrustada na comunidade violenta em qual relação educador/educando rompeu as fronteiras reais do antagonismo de classe, reconheceram suas potencialidades e reforçaram o ponto nevrálgico da questão: a auto-estima advinda da mesma filosofia de circunscrição, só que agora com fatores de causas e efeitos inversos daqueles econômicos e políticos que produzem a realidade social que tanto lhes causa temor. Mesmo que utópica é a realidade que habita o imaginário coletivo daqueles que lutam por um mundo melhor na arena do poder das palavras, onde dialética e retórica unem forças para roubar a cena onde a sensibilidade popular ainda sofre certos modismos que se intitulam inovadores mais que, na verdade, clonam velhos hábitos que a ignorância mantém ocultos para muitos. O que não está certo com os velhos formadores de opinião torna-se evidente não mais pela falta de dinâmicas sensíveis de quem só ouviu o silencio alienado, mas por uma inovada sensibilidade liberta de radicalismo, modismos e preconceitos que a ciência e a indústria se encarregam em desmoralizar numa simplificação inteligente: a contínua inovação e revolução de modelos, objetos, idéias e projetos de vida que derrubam as pernósticas previsões tão comuns nos analistas que, antigamente, formavam opiniões. 

Infelizmente a comunicação pode ser comparada a um veloz meio de transporte que carrega lentos passageiros. A dinâmica de progresso exige agilidade e desprendimento ou arejamento mental difícil de ser encontrado. Pode-se dizer que superamos 40 mil anos de barbáries e conformismo, interrompidos por relâmpagos daquela inteligência que foi e será a nova vida de uma humanidade que se separa definitivamente do animal ancestral que nos acompanha até agora. Os erros do futuro serão momentâneas incapacidades e não expressão quase inconsciente do velho bípide homem/animal. Hoje, mais do que nunca o poema “Versos na Tarde” do poeta russo Vladimir Vladmirovitch Maiakovsk dizem do quanto o silêncio de ontem não nos serve para nada ante as violências de hoje:  

                                                       Versos na Tarde                 

                            Na primeira noite, eles se aproximam
                            E colhem uma flor do nosso jardim
                            E não dizemos nada
                            Na segunda noite, já não se escondem
                            Pisam nas flores, matam nosso cão
                            E não dizemos nada                
                            Até que um dia, o mais frágil
                            Entra, sozinho, em nossa casa, rouba-nos a lua 
                             e,  
                            Reconhecendo nosso medo,
                            Arranca-nos a voz da garganta
                            E porque não dissemos nada
                            Já não podemos dizer nada                           

Incrível é que, após mais de cem anos das palavras de Maiakovsk, ainda nos encontramos tão desamparados, inertes, e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes instituídos legítima e ilegitimamente, que vampirizam o erário, aniquilam as instituições,  deixam aos cidadãos os ossos ruídos e o direito ao silêncio porque a palavra, a muito se tornou inútil ou não temos noção do poder da palavra? Então, que os ventos da mudança nos tragam as palavras dos novos formadores de opinião para a massa de cidadãos à margem da cidadania, isto é, fora do círculo de direitos, só de deveres. Conseqüente do quadro de cidadania negada as crianças e adolescentes, principalmente, temos todo um repertório de ações orquestradas para fazer da pobreza algo imexível, mesmo que revitimizando quem já é vítima, em nome de projetos pessoais que não levam em conta o legado que deixam para a qualidade de vida de gerações vindouras de um quadro assustador da qualidade de vida na violência cotidiana caracterizando toda uma filosofia em detrimento as classes populares para o desfrute na vitaliciedade para o mau uso dos equipamentos de transformação social necessários a reparação dos entraves que lhes causa temor e o conseqüente exame de consciência de um futuro atrelado às ações e opções cotidianas daqueles capazes de inferir mudanças em nome de um mundo melhor.

O filme Escritores da Liberdade do diretor Richard Lagravenense, com Hilary Swank no papel principal, tem o mérito de se fazer pensar sobre os dilemas individuais e sociais presentes no espaço da sala de aula, dilemas que dizem respeito as nossas opções de vida, a forma como percebemos a sociedade e como nos vemos nela (percepção/heteropercepção). O modelo do professor que abraça a educação como uma missão e a transforma na sua bandeira para a alteridade. São exemplos de indivíduos devotados que, despeito aos baixos salários, da falta de apoio, da incompreensão dos tecnocratas e dos próprios pares exercem a docência como algo que dá sentido às suas vidas. Porque amam o que fazem, disseminam a pedagogia da esperança, transformam vidas e fazem a diferença nos vários caminhos da solidariedade, da representatividade na forma da lei, do dever cívico, da responsabilidade social, etc.

Tão somente a ordem de novas palavras que não com ação criminalizadora da com perspectiva higienista ou da ótica preventiva de circunscrição da criminalidade mascarando o descaso com a efetividade de políticas públicas duradouras advindas da mudança na filosofia para a idéia de ser a pobreza um quadro imexível. Os primeiros passo da conscientização pelo poder das palavras para uma auto-estima renovada, os projetos governamentais voltados para as classes popupalares são os primeiros passos para levantar o tapete e da cooperação de todos do nosso deteriorado quadro social virar a página que a história abordará, futuramente, como hoje aborda ações idênticas de tempos atrás. Historicamente, essas classes vêm sendo tratadas como classes perigosas. 

Como a questão da cidadania perpassa pela ação dos operadores da lei para o cumprimento do que preceitua a Constituição Brasileira, fica o registro do meu apreço aos batalhadores incansáveis pelos Direitos Humanos através de instituições, ou quando não movidos por questões de fórum íntimo, atuando frontalmente na grande questão da criminalização da pobreza e as estatísticas com seus mortos e feridos da falta de ação para novos rumos na vida de jovens na faixa etária entre 15 e 24 anos que não seja no ciclo da privação na infância, no flerte com o tráfico de drogas na adolescência, prisão ou morte violenta na breve maioridade, podendo deixar ou não o seu legado de vidas precárias para mães chorosas de filhos sem pai. No livro Advogando Pelos Direitos Humanos Dos Adolescentes No Sistema Socioeducativo – Dez Casos Exemplares De Enfrentamento Ás Violações De Direitos Humanos Dos Adolescentes Autores De Ato Infracional – do advogado em direitos humanos, fundador, coordenador executivo da Organização de Direitos Humanos – Projeto Legal – e conferencista na área dos direitos humanos sobre o tema de crianças e adolescentes, Carlos Nicodemus, onde temos o testemunho do Prof. Sidney Chaloub em seu estudo “Medo Branco de Almas Negras: Escravos Libertos e Republicanos na Cidade do Rio de Janeiro” denuncia:

(…) por outro lado a cidade que escondia ensejava aos pouco aconstrução  da cidade  que  desconfiava  e que  para desconfiar transformou todos os negros em suspeitos (…) 

Porém, antes de adotarem decididamente a estratégia de suspeição generalizada, os administradores da cidade tentaram evitar, de todas as formas que ela se transformasse num esconderijo. Temos então os códigos da cidade idealizada. O código de postura de 1830 proibia os donos de casas de negócio consentirem na presença em suas portas (de) pessoas cativas sentadas, ou a jogarem, ou paradas por mais tempo do que necessário para fazerem as compras. O código de postura de 1838, mais rigoroso e detalhado em redação aos movimentos permitidos aos escravos e pessoas de suspeita – (…) recomenda aos donos de tavernas que não permitam o ajuntamento de mais de quatro escravos. No mesmo sentido, comentando o texto “Cortiços e Epidemias na Corte Imperial, a Prof. Vera malagutti Batista, trazendo o problema para tempos atuais, adverte que “os higienistas estão voltando”. Aduz a ilustre autora:               

“Comecemos, então, por conhecer o que havia por trás destas     intervenções radicais, “operações policiais” travadas para eliminação destas habitações coletivas e para a remoção dos pobres do centro da cidade, e esta época que quantifica o conceito de classes perigosas. Perigosas porque pobres, por desafiarem políticas de controle social no meio urbano e por serem propagadoras de doença (Cuidado: Os Alienistas Estão Voltando, In, Discursos Sediosos, Ano I, n° 2, 1966, Ed. Ravena)

No caminho histórico do atendimento à infância no Brasil a pobreza e dificuldade a ela inerente assumiram um caráter patológico por parte das políticas do Estado. Os conceitos de pobreza/marginalidade/anormalidade têm sido conjugados, permitindo a legitimação de processos para realimentação de vidas precárias do processo de exclusão social e todo um quadro, já institucionalizado, de perdas e ganhos dos mesmos jogadores

(…)“Se, durante a primeira metade do século o atendimento a criança deficiente se restringia aos doentes mentais, auditivos e visuais, uma das características deste terceiro momento foi a da inclusão de outras anormalidades no rol da excepcionalidade. A ampliação do sistema nacional de atendimento à infância não só significou o incremento do atendimento aos quadros patológicos já incorporados pela educação especial, mas passou a englobar sujeitos cujas dificuldades são decorrentes de processos socias e de escolarização inadequada (…)”  (Bueno, José Geraldo Silveira – A Produção Social da Identidade Anormal, in, A História Social da Infância do Brasil, 4ª edição, São Paulo – Bragança Paulista: Cortez – Universidade São Francisco, 2002, v. 1, p. 159-182)

Uma resposta to “Periferia e Direitos Humanos no Ciberespaço”

  1. Luiz Cesar Says:

    Simplesmente sensacional. Adorei o seu texto. Parabéns!

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