Desatando os Nóis

By Luis Carlos “Rapper” Archanjo (*)

A  fala da socióloga Maria Helena Zamora (veja entrevista abaixo), lançado no final de setembro pela Editora PUC-Rio e Edições Loyola.

“O regime da vingança desconta no infrator pobre todo o ódio por um sistema social absolutamente injusto”, resume Maria Helena Zamora. “As instituições trabalham na maioria das vezes com superlotação e por isso se tornam muito difíceis de administrar. É preciso pensar porque tantos jovens recebem medida de internação”.  Relação que vem produzindo não somente não cidadãos, mas fundamentalmente seres menos humanos que outros. A autora cita o livro “AS PRISÕES DA MISÉRIA” do também professor francês Loic Wacquant, estudioso das desigualdades sociais, o sistema carcerário e o judicial do nosso país. Fato endossado por eminentes operadores de direito que questionam o sistema prisional brasileiro, pelo que retrata de violência, crueldade e desumanidade, convertendo-se numa tragédia nacional, que ainda gerará muito sofrimento inútil e, seguramente novas organizações criminosas. A imagem do país no exterior se deteriora: entidades internacionais de defesa dos direitos humanos têm sistematicamente condenado as terríveis condições de vida dos presídios brasileiros. O sistema é visto como um rastilho de pólvora e fator de incentivo à violência. Não só pela desumanidade medieval que patrocina, mas pela absoluta ausência de interesse político em relação ao que acontece em seu interior. Portanto, por trás do quadro retromencionado temos todo um repertório que passa pela educação.

 Na platéia da palestrante e professora da PUC, Maria Helena Zamora, autora do livro “PARA ALÉM DAS GRADES”, inspirei-me e escrevi este texto a partir da exposição de quem retrata com fidelidade as mazelas da criminalização da pobreza. Na sua fala da relação entre atos infracionais dito brandos por não atentarem contra a vida, crimes hediondos, criminalização de adolescentes saídos das áreas de vulnerabilidade social, o tratamento dispensado aos adolescentes pobres em nosso país e da terrível e perversa realidade que vem sendo alimentada pela indissolúvel relação que se constituiu ao longo dos séculos entre pobreza e criminalidade. Todas as pesquisas recentes sobre violência apontam os jovens entre 14 e 25 anos como as principais vítimas de homicídios com armas de fogo no Brasil. Na maioria negra, com poucos anos de estudo e moradores de áreas pobres de grandes cidades. Muitos deles vítimas da guerra impiedosa entre facções do tráfico de drogas e confronto com policiais. Mas há também um outro grupo formado por alguns milhares de jovens que são igualmente vítimas de um sistema educacional decadente e de uma crise social e econômica contínua. Adolescentes que hoje estão presos nas centenas de centros de internação espalhados pelo país sofrendo com maus tratos e praticamente esquecidos pela sociedade. É sobre esse grupo de adolescentes acusados de tráfico de drogas, roubo e homicídio que fala o estudo “Para além das grades: elementos para a transformação do sistema sócio-educativo” (140 páginas), organizado pela

Cada grupo social faz a sua leitura de mundo a partir dos valores comuns aos seus membros, primeiramente, e, depois, pelos vários mecanismos adaptativos de uma visão de mundo mais globalizada, onde ele incorpora a sua narrativa pessoal ao coletivo que o conduz ao sincrético, ao estético, ao ético e, este confronta práticas persistentes, contradições e outros fenômenos sociais da interação humana questionando a sua singularidade, que se desloca de cimos difíceis de adaptação, aceitação, confrontação e de abstração para planos concretos de descrição, ou seja, o seu arcabouço de realidade para os devidos contornos de expressão.  O desenvolvimento de cada cultura depende agora da produção local tanto quanto da participação das redes internacionais de criação, informação, comunicação e defesa dos direitos humanos, pois tão somente do acesso aos “repertórios transacionais” haverá a modificação de hábitos culturais e práticas dominantes de um processo democrático pautado por mecanismos políticos tradicionais que não dão conta das mudanças sociais resultantes de novas dinâmicas interculturais.

Questões saídas dos riscos da desconfiança entre culturas, povos, etnias nos leva a interrogação da busca das identidades próprias saída da confrontação ou do diálogo entre tais culturas? Como alcançar uma cultura de paz num mundo de culturas subjugadas? Como as novas identidades reunidas no discurso contra-hegemônico podem evidenciar o reconhecimento da própria identidade sem o enquadramento midiático da prática de segregação ou isolamento, quando o seu papel seria o de mediador para o diálogo das culturas a partir da imparcialidade, porém o que vemos adentrar as nossas salas, principalmente, são os fatos tendenciosos fomentando a dissuasão pelo medo da deterioração do tecido social e, assim, corroborando com interesses dissociados de ética humanista.

Diante da desconfiança ante as instituições representativas dos direitos desses grupos, o mundo globalizado e virtual agrega novos conceitos, já que os problemas e as questões da diversidade cultural passam pelas políticas públicas. Portanto, contextualizado no cenário político, e, como tal, exige políticas que venham amenizar as fileiras dos descaminhos do entorno no caos urbano a partir de ações mais humanistas que tecnocratas no âmbito da educação, da mídia e do atendimento social. A escola complementando-se de outros saberes, que associado à realidade da aprendizagem empírica daqueles da exclusão, transforma-se em saberes que atuariam no refluxo do processo escolar como epicentro das ações sócio-cognitivas que esvaziam os bancos escolares, já que o processo de escolarização segundo preceitos dos cânones de pedagogias experimentalistas de algumas correntes, quase todas eurocêntricas, e os conceitos que formulam as ações pedagógicas como o conteúdo programático para as nossas crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de realidades bem distante, bem distante das elucubrações conceituais de ensino-aprendizagem que não leva em conta o valor dos saberes comunitários, esquecendo-se na maioria das vezes da maior escola da comunidade: as escolas de samba, como muito bem colocou o empreendedor social do ano premiado pela Fundação Schwab e Folha de S.Paulo, Tião Rocha, protagonista de uma história que reúne crianças, pés de manga, biscoitos “escrevidos” e muitas outras invencionices da sua mineirice.

Paulo Freire é quem melhor exemplifica a dissociação da escola que ensina verdadeiramente levando-se em conta os saberes locais e a escola que faz apenas a escolarização dos seus alunos através dos saberes prontos da verticalidade eurocêntrica ainda com resquício de antolhos para o conhecimento que não venha de abordagens filosófico-pedagogicas que formulam os pressupostos educacionais para a realidades antagônicas dos seus educandos, tornando o espaço escolar palco de desencontros de saberes e valores, já que direta ou indiretamente a verticalidade nas ações pedagógicas perpassa pela individualidade de educadores saídos de segmentos e formação cultural que desconhecem as realidades cotidianas da área de atuação, portanto, tão aprendizes da realidade da nossa diversidade cultural tanto quanto à criança e o adolescente que busca a informação. O método didático tenta transmitir conhecimento ao invés, dentre outros valores, uma crítica aproximação da realidade. De um ponto de vista ‘social’, o sistema educacional tenta apoiar a estrutura  social e econômica ao invés de suas modificações.

Quando os latino-americanos tentam construir sua própria identidade em contexto de rico pluralismo cultural, eles se deparam com um sistema educacional uniforme. Sistemas educacionais têm uma orientação econômica dirigida para se possuir bens, enquanto o jovem necessita desenvolver-se através da satisfação e da autorrealização no trabalho e no amor. Nosso pensamento sobre esse aspecto tenta promover uma visão de educação que concorda com o desenvolvimento integral do nosso Continente. Essa educação é chamada de educação para libertação; isto é, educação que permite o aprendiz a ser sujeito de seu próprio desenvolvimento” (Documentos Finales de Medellin, Buenos Aires, Paulinas, 1971, pp. 70-72). Na sua coluna do dia 06/12, a jornalista Miriam Leitão diz que a educação é, sobretudo, a forma de realização plena das tantas e tão versáteis capacidades humanas. Mais que treinar o trabalhador, forma o cidadão, amplia os horizontes, aumenta ambições. Por isso é “mãe de todas as batalhas”. Nós a estamos perdendo no momento mais decisivo da construção do país, quando a maioria da população é jovem, temos em idade escolar (ensino fundamental e médio) 37 milhões de brasileiros, onde uma ínfima parte está fora da tragédia da educação. Na era do conhecimento, onde a mais importante habilidade a desenvolver é a capacidade de pensar, o que se consegue com educação de qualidade.

Na era globalizada, as empresas tendem a espalhar pelos países etapas dos seus processos produtivos, escolhendo cada local pela vantagem competitiva. Um país sem cérebros treinados ficará com o que há de mais tosco, com as etapas de menor valor agregado e salários, restando ao trabalhador de baixa escolaridade a permanência nas desigualdades sociais, escravizado e submetido a trabalho degradante foi aprisionado na cadeia do analfabetismo Portanto, buscar na escola um ponto de encontro de todos os saberes é a tarefa de casa para aqueles que formatam os rumos da educação desses jovens aprisionados no analfabetismo da vulnerabilidade social e que,  mais que autores de caminhos para os subprodutos da evasão escolar, da defasagem idade/série, da escola como espaço de preconceito, sintam-se atores no palco do medo generalizado da prática docente da relação interpessoal pautada mais pelo instrumental didático-metodológico  somando-se as inferências que contaminam o “currículo oculto”; perdendo a autencidade,  orespeito e  a empatia, característicos do humanismo cognoscente de Carl Rogers, por exemplo,  quando adota ações didático-pedagógicas segundo estratégias que perdem a praticidade pela falta de habilidade de educadores frente ao perfil de educandos da realidade escolar encravada em áreas de conflito armado, tráfico de drogas e da presença do Estado ainda de forma incipiente para a recuperação territorial, acarretando uma debilidade nas relações intra e extra-muro pelo que o fluxo/refluxo  da relação escola/comunidade/pais e a falta do diálogo intermediador para uma nova prática da docência, levando-se em conta o perceptivo e o heteroperceptivo de educando/educador, escola/comunidade em nome de outras formas de mediação entre os vários sujeitos do quadro negativo da violência, da ignorância, da cognição, da falta justiça social e tantos outros itens que preconizou o mestre Darcy Ribeiro, “mais uma vez”.

Segundo o ex-presidente português Jorge Sampaio, a experiência de séculos e a sabedoria dos povos mostram que diálogo entre civilizações e povos, feito na diversidade e no respeito mútuo, é necessário, possível e frutuoso. Mesmo que ainda tenham que percorrer um longo caminho para a representatividade no cenário político, já que não se sentem representados pelos parlamentares e pelos partidos tradicionais, os excluídos historicamente e, hoje, mesmo que criminalizados pela circunscrição da miséria dos grandes centros urbanos de países latinos americanos, compartilham elementos contra-culturais reunidos em novas identidades e não mais em culturas híbridas das suas matrizes formadoras. Há uma crescente consciência de pertencimento a uma região mais ampla do que o espaço físico circunscrito pelo design econômico, onde o acesso aos repertórios transacionais e o concomitante desenvolvimento cultural da produção local conectando-se em redes internacionais de criação, informação e comunicação, porém, ainda existem sérios obstáculos a transpor, entre os quais a desigual participação nessas redes de informação e desigual distribuição dos bens e mensagens das culturas com as quais estamos interagindo.

Mudar um sistema significa mudar expectativas, atitudes, e comportamentos. Significa superar a descrença e o preconceito que se enraizaram e se espalharam, portanto, idéias precisam de campeões ou super-homens no amor, que lutem por elas – gente obsessiva, com habilidades, competências, motivação, energia e cabeça-dura para fazer o que diz a voz do coração: persuadir, inspirar, seduzir, diminuir receios, mudar percepções, articular significados e habilidosamente manobrá-las como um verdadeiro estrategista através dos sistemas. Na contramão do conceito de vencedor (winner) e perdedores (loosers) de uma geração em que os ideais coletivos perderam espaço para o pragmatismo e foco em projetos individuais para a busca do bem-estar, o monitoramento de si próprio é quase uma obsessão, por isso as articulações em redes sociais são de suma importância na construção de “rotas de fuga” para aqueles deserdados dos contra-valores que permeiam o universo da geração nascida e criada com internet, celulares de última geração, rede de relacionamento e câmeras digitais necessários à conectividade as oportunidades oferecidas pelo mundo globalizado e virtualizado para que não fiquem aprisionados pelas artimanhas da falta de acesso à educação e aos bens culturais formadores de opinião e criadores de ambição (não-narcisista, conectiva e pragmática) porque as oportunidades mercadológicas hoje se exigem bem mais que habilidade em usar-se da revolução técnica do mundo globalizado, é preciso garra, determinação, criatividade, força de vontade associadas às habilidades da auto-superação.

(*)Luis Carlos Archanjo
Educador Social
Licenciando em Pedagogia/UNESA

2 Respostas to “Desatando os Nóis”

  1. I simply want to say I’m very new to blogging and site-building and seriously liked your blog site. More than likely I’m want to bookmark your site . You amazingly come with fabulous articles. Thanks a bunch for sharing your blog site.

    Curtir

  2. I simply want to tell you that I’m all new to weblog and truly liked you’re blog site. Most likely I’m want to bookmark your site . You certainly come with fantastic articles and reviews. Thank you for revealing your blog site.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: