O Xadrez das Cores
By Luis Carlos “Rapper” Archanjo
O preconceito racial colocado de forma lúdica é a proposta do curta-metragem de Marco Shiavon e, num contexto mais da nossa historicidade, o escritor Marco Frenette faz a sua abordagem da hegemonia cultural, moral, ética e estética da branquitude. Pela complexidade do tema numa sociedade em que o contexto cultural prima pela hipocrisia e a covardia que dá tônica à abordagem racial, autores brancos vêm à luz falar, criticamente, do lugar do privilégio da cor. Sem tergiversações, os autores de obras distintas, externam sua rebelião contra a conspiração de silêncio e da hipocrisia que cercam o tema.
No seu livro Preto e Branco – a importância da cor da pele, com prefácio de Lobão, o jornalista Marco Frenette desfia os meandros da produção e reprodução cotidiana do preconceito racial: na escola, na família, na mídia. Revela em todas as suas nuances do segredo mais bem guardado da nossa formação social: a forma pela qual se constrói a superioridade dos brancos e a inferioridade dos negros, ao que estas construções se prestam e como as dissimulamos. Sem ilusões considera que a diminuição do racismo não é tarefa da ação do tempo, mas sim da mobilização das pessoas pela sua ação patológica a todos infectam e que só, o reconhecimento da sua ação devastadora que retarda o desenvolvimento de potencialidades das suas vítimas e impede o progresso humano. Portanto, cabe ao conjunto da sociedade a firme decisão de combate-la, pode, talvez, permitir que todos, que estão conscientes desse mal, possam, solidariamente se curarem desse mal.
Entre os poucos filmes de xadrez como Os Cavaleiros do Bronx, sobre a história de um executivo de meia-idade, desempregado, que aceita ser professor em uma escola do Bronx onde encontra crianças bem difíceis. Ao ensiná-las a jogar xadrez e a usar este conhecimento em suas vidas diárias, Ted Danson desenvolve uma bela conexão com as crianças e as encaminha para uma vida melhor. O filme parece ser interessante, porque é baseado na vida real do professor David MacEnulty e por o xadrez ser utilizado não apenas como uma modalidade desportiva, mas, como um apropriado para o desenvolvimento social e cognitivo das crianças. Baseado em fatos reais, o filme conta como o esporte, no caso o xadrez, se torna o caminho de libertação de crianças pobres e marginalizadas do Bronx nos Estados Unidos. Além de deixar claro os benefícios para a autoestima e para o desempenho escolar que o xadrez proporciona. Escola de Campeões (comédia), que retrata o xadrez como a paixão de uma pequena e pacata cidade, e Lances Inocentes (dramas) são muito bons para se passar em sala de aula. Estes filmes abordam pontos estratégicos como superação, concentração, força de vontade, entre outros.
Outros como “O Último Lance” e “Face a Face com o Inimigo” (suspense) podem trazer conflitos de abordagem, até mesmo pelo enredo ao qual trabalham: geralmente uma criança habilidosa que entra em conflito por causa de algum problema familiar e busca refúgio no xadrez. Este recurso não é bem visto aos olhos de muitos e a criança é internada ou afastada dos tabuleiros. Pelo menos tentam. Entre os poucos filmes didáticos que podemos ter acesso, um deles chama atenção em especial.
Iniciativa da Petrobrás, o curta-metragem Xadrez das Cores, de aproximadamente 22 minutos, com protagonistas ilustres como Anselmo Vasconcellos, Mirian Pyres e Zezeh Barbosa retrata curiosa divergência racial, ainda existente no Brasil. Cida, uma mulher negra de quarenta anos, vai trabalhar para Maria, uma velha de oitenta anos, viúva e sem filhos, que é extremamente racista. A relação entre as duas mulheres começa tumultuada, com Maria tripudiando em cima de Cida por ela ser negra. Cida atura a tudo em silêncio, por precisar do dinheiro, até que decide se vingar através de um jogo de xadrez. Estimulada, a empregada busca mais informação do universo do tabuleiro através dos livros, descortinando novas possibilidades de intervenção na vida pessoal nascida da observação na relação de trocas entre as peças em movimento no tabuleiro, criando a partir daí uma referência consciente de transformação. O jogo de xadrez lhe abre a porta para a realidade de outras crianças e os mesmos signos da sua perda. Diante do seu dilema pessoal e a possibilidade de reinventar novas possibilidades de troca com o instinto materno ela passa a inserir o jogo de xadrez no contexto das brincadeiras retratantes do universo comunitário. Assim, ambientando todo um processo de transformação para o questionamento de novas posturas a partir do convívio com as regras da nova brincadeira as crianças trocam a algazarra e as armas de brinquedo adotando a postura mais concentrada e os arranjos criativos para a prática do jogo de xadrez.
Ficha Técnica
Direção: Marco Schiavon
Elenco: Miriam Pyres, Zezeh Barbosa, Anselmo Vasconcellos
Ano: 2004
Duração: 22 minutos
Categoria: Drama
http://portacurtas.com.br/curtanaescola/pop_160.asp?cod=2932&Exib=2575
SUGESTÃO DE LEITURA:
Lei 10.639/2003 – A África na Sala de Aula
Proposta metodológica para o ensino de história da África na Educação Básica (Ensino Fundamental Maior)
Profª REINALDO, Telma Bonifacio dos Santos
http://www.telboni.net/visualizar.php?idt=2048036
fevereiro 7, 2012 às 3:01 pm
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